Dia 17 de junho assinala-se a estreia da peça encenada por João de Brito, no Teatro Trindade, em Lisboa. Voltar às memórias dos primeiros contactos com o texto do célebre autor Henrik Ibsen foi o mote para que a viagem pelo Norte da Europa até Lisboa acontecesse. É também a partir desse conceito de viagem que percorrer questões transversais aos séculos se tornou algo urgente. "Feminista, psicológica, revolucionária", é desta forma que Uma Casa de Bonecas se afirma.

Nas leituras de Ibsen fala-se de Uma Casa de Bonecas "não como uma peça de propaganda, mas sim de verdades universais sobre a identidade humana". Nas palavras de João de Brito é "uma peça que faz sentido, hoje, e que mesmo abstraindo-se de alguns pormenores referentes à época, Ibsen trouxe a palco coisas muito relevantes e que na altura, apesar de polémica, foi um marco na história da Literatura".

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Uma Casa de Bonecas, fotografia de Pedro Macedo

Partindo de um fascínio pelos textos de Ibsen, João construiu uma peça que bebe de diferentes visões e que, de alguma forma, lhe dizem muito, "fui criado por duas mulheres e tenho uma ligação muito forte de criação com o sexo feminino. O tema central da história desta peça, um deles pelo menos, é esta igualdade de género, esta emancipação da mulher e, desde aí, não só esse tema central, mas todos os outros me interessaram. Então decidi que, mais cedo mais tarde, traria esta peça a cena. Aconteceu agora", conta João.

Partindo de uma peça que marcou a história do Drama Moderno a uma contemporaneidade que vive muitas das questões sociais evidenciadas e em reflexão em cima de palco, pensar o conceito da transversalidade das mesmas a partir de histórias e personagens que se alimentam gradualmente de vivências umas das outras foi também algo que os artistas pretendiam explorar "tens a possibilidade de absorver diversas coisas que a peça te dá e tens muitas outas que, mesmo depois de um século, ainda te debates com elas. A questão da 'fachada'; das aparências. Não basta seres, tens que parecer sempre alguma coisa; depois as questões de seres livre. A ideia de ser livre é muito bonita. Passa por refletir padrões. O familiar, amoroso e de trabalho; esta questão do estatuto do homem que, apesar da realidade ser melhor, ainda continua muito presente", explica o encenador.

Viver numa redoma onde os conflitos existem é algo visível nas personagens. Interpretada por Bruno Bernardo, Diana Nicolau, Inês Ferreira da Silva, José Mata, Luís Lobão e Madalena Almeida, é na casa dos Helmer, o casal, que tudo, ou grande parte, acontece.

A influência cultural, os tons secos e o universo frio são caraterísticas que se fazem sentir, ver e ouvir. De "luz" se fala na peça. De momentos de fruição e de reflexos gastos se vê. O diálogo difunde-se nas cores da casa, do escritório, do quarto ou divisão meia sombria e escondida, onde a criada e a ama se difundem numa só. As crianças que não se vêm também estão presentes. Não no espaço. Na mente do espetador essa presença é também tida em conta e os artistas que interpretam cada personagem contornam essa mesma realidade.

A peça que parte da Europa do Norte é, pelo olhar de João e de todos aqueles que o acompanham, muito "nossa". Lisboa é o destino, o ponto de chegada e o ponto de partida.

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Uma Casa de Bonecas, fotografia de Diogo Simão

"É tão bom estar feliz", diz Nora pela voz de Madalena Almeida. É de tensão que até a frase mais "frágil" vive. Procurar o realismo, a partir de cada plano que decorre, seja ele central ou secundário, assume-se como Humanidade. João explica que era também essa Humanidade que pretendia alimentar a peça. É percorrendo a ´base poética' de uma casa orquestrada pelxs mais pequenxs que a história dxs adultxs se torna real.

Contando com a coprodução do Teatro da Trindade INATEL e da LAMA Teatro, passando pelo passado e o presente, Uma Casa de Bonecas tem um longo futuro a percorrer.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia de Diogo Simão

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