Numa escola, edificada numa cidade entre montanhas, chega uma nova diretora que pretende revolucionar o ambiente escolar. Depois de um certo desgoverno com o antigo diretor, que pouco ou nada sabia sobre dirigir, este recomeço é um sinal de esperança. A nova diretora não só pretende revolucionar as coisas como então os estudantes as conhecem; promete que vai fazê-lo. Aparentemente, tudo se encaminha para que se atinjam melhores resultados, para que a escola se torne uma referência e os seus estudantes atinjam um nível de excelência. Até que, um dia, se torna evidente que não tem que ver apenas com resultados.

Quando a diretora impõe a utilização de uniformes, diz também que não se pode usar cabelos pintados com cores não-naturais, são proibidos piercings, a maquilhagem é aceite mas só até certo ponto. Até ao ponto em que qualquer pessoa a poderia utilizar e isso pouco ou nada dissesse sobre si. Quando as imposições do uniforme são feitas, distribuem-se uniformes diferentes para rapazes e raparigas — eles usam calças, elas saia; eles usam gravata, elas um laço. C., que é uma pessoa não-binária, vai buscar um uniforme que está marcado como sendo “para homens”. A sua escolha é natural: é o que sente estar adequado à sua expressão de género. A diretora começa, a partir do momento em que vê C. com este uniforme, uma perseguição. Primeiro, para que troque para o uniforme atribuído “a mulheres”, depois para que “pelo menos” use calças um número abaixo das que tem vestidas.

C. é Cal, a primeira personagem não-binária de Sex Education, série original da Netflix que estreou recentemente a terceira temporada, cuja posição relativamente à sua expressão de género traz desconforto a Hope, a diretora. O que inquieta Hope é que Cal não cumpre os seus requisitos de “normalidade” porque o seu sexo atribuído à nascença não corresponde ao uniforme que escolheu. Na verdade, o que inquieta Hope é tudo o que ultrapasse o sistema binário — a linha que criou nos corredores, que pretende dividir o trânsito de estudantes que circulem em direções diferentes, foi uma forma muito pouco subtil de o dizer.

Cada vez que Cal olha pela janela da sala de aula, recorda-se que já não tem por onde escapar. O lugar onde costumava mudar de roupa para as aulas de educação física, uns balneários abandonados dentro do espaço escolar, foram destruídos pela nova diretora. Hope não quer que existam espaços que não consegue controlar, onde os estudantes possam fazer o que quer que seja fora do seu olhar atento (e que está por toda a parte, estilo Big Brother). Acontece que esses balneários eram o lugar seguro para pessoas trans e não-binárias que não se sentiam confortáveis nos balneários em funcionamento. O que aparentemente era uma tentativa de melhoramento da escola, começa a resultar na construção de um território de controlo; é a diretora que dita como é que os estudantes se devem vestir, comportar, relacionar. No limite, o que devem pensar sobre si mesmos.

Paulo Freire, pedagogo brasileiro, via a escola como um lugar onde “não se pode temer o debate” e “a análise da realidade”. Para si, a educação era um ato de amor. O que continua a ser revolucionário na pedagogia de Freire, e que faz com que ainda hoje seja um autor citado internacionalmente e uma referência na educação progressista, é o foco na autonomia dos estudantes e a capacidade de adaptação da escola ao avanço do mundo. Lembro-me de Paulo Freire em cada regresso às aulas. Este ano, em particular. No processo de escrita da reportagem À descoberta das cores resistentes a um preconceito sombrio, que estive a fazer ao longo de três meses para as Bolsas Essenciais do Gerador, a escola surgia frequentemente citada como um lugar que representava tempos sombrios, onde muitas pessoas foram agredidas por colegas, foram envergonhadas em frente à turma por professores, onde algumas pessoas evitavam ir à casa de banho porque receberiam olhares ou comentários por estarem, supostamente, “onde não deviam”.

Numa das histórias desta reportagem, alguém contava que um professor perguntou-lhe por que “jogava noutra equipa” em frente de toda a turma. Outra pessoa contava como tentava ir à casa de banho antes de ir para a escola e aguentava o máximo para só ir novamente em casa, ao final do dia, porque tinha medo de ser agredida por colegas. Outra contava que quando partilhou com a psicóloga da escola que se sentia atraída por pessoas do mesmo sexo, esta respondeu “então deves ser pedófila”. Há histórias que se afastam no tempo, mas que se cruzam nas repetições que não deviam acontecer ainda hoje. Se a escola é a segunda casa de todas as pessoas que lá estudam - por vezes o lugar onde fazem a única refeição do dia, onde tomam o único banho, onde procuram o conforto que não têm no lugar onde habitam -, a escola tem de contemplar as múltiplas formas de existência que a compõem. A escola tem de ser o porto-seguro, o lugar onde se quer estar.

No primeiro artigo de opinião que escreveu para o Gerador, Alexa Santos relembrou o quão importante é pensar nas crianças e jovens LGBTQI+. Com recurso a uma frase de Ana Cristina Santos, coordenadora do estudo Diversity and Childhood, de que Alexa também faz parte, menciona “a total ausência de questões LGBTI+ na formação académica e curricular” de “grande parte dos profissionais” envolvidos na implementação da Lei da Autodeterminação. A falta de formação especializada em questões LGBTQI+ é comum às mais diversas áreas dentro do contexto escolar, o que faz com que muitas das vezes não exista uma resposta imediata, não se saiba como reagir e se repercuta microagressões mesmo que, por vezes, sem intenção. E se queremos escolas que acompanhem o progresso do mundo, precisamos de ver mudanças no que à formação dos profissionais diz respeito. Professores e funcionários.

Vai haver sempre conflitos nas escolas — não estivessem crianças e jovens numa fase de aprendizagem sobre si mesmas e sobre como lêem o mundo. Há um lugar de confronto essencial para nos formarmos, para percebermos quem queremos ser, no que acreditamos. Mas o confronto não pode nunca questionar os limites dos direitos humanos.

No guião de Sex Education, existem todas as personagens-tipo que eventualmente poderíamos encontrar numa escola como Moordale. Todas elas, a dado momento, se confrontam umas com as outras e discordam nos mais diversos assuntos — há até as que se ignorem nos corredores da escola, as que critiquem a forma como outras se vestem, as que achem absurdo que alguém acredite em seres alienígenas. Mas quando Hope começa a pôr em prática o plano de transformação da escola, todas as pessoas se unem. Juntam-se por uma razão absolutamente essencial: não permitir que a escola deixe de ser um lugar de liberdade, onde há vidas que valem mais do que outras, onde quem não se encaixa num sistema binário é forçado a encaixar.

O que espero neste novo início de ano letivo não é menos do que o que espero a cada recomeço: uma escola para todas, todos, todes. Onde todas as pessoas possam existir, onde a resistência não tenha de ser uma inevitabilidade e uma resposta a um contexto hostil, onde os adultos não exijam menos do que um espaço digno para as crianças e jovens. Um lugar onde ninguém questione o seu valor.

-Sobre Carolina Franco-

A Carolina Franco é jornalista no Gerador. Nascida no Porto, em 1997, aprofundou o seu interesse e conhecimento na cultura e na arte enquanto estudou na Escola Artística de Soares dos Reis. Licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Lusófona do Porto, viveu quatro meses em Ljubljana, na Eslovénia, onde teve a oportunidade de ser envolvida pela cultura pós-jugoslava e estudar Ciências Sociais. Entre 2018 e 2019 frequentou a pós-graduação em Curadoria de Arte da Universidade Nova de Lisboa – FCSH. Graças a estas experiências, tornou-se mais interessada no papel da cultura na sociedade em geral e nas comunidades locais – uma relação que procura aprofundar cívica e profissionalmente.

Texto de Carolina Franco
Fotografia da cortesia de Carolina Franco
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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