Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Shenia Karlsson

Vieses inconscientes do racismo

Nas Gargantas Soltas de hoje, Shenia Karlsson adverte-nos para possíveis momentos insconscientes de racismo.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

“Todos nós passamos por experiências ruins, não há cor no sofrimento, é tudo igual. Se calhar todas essas experiências que tu disseste que passaste foram boas, talvez por isso tornaste-te a mulher forte que és, guerreira. Já pensaste nisso?”

Mulher, branca e portuguesa ao dirigir-se á melhor amiga, uma mulher negra e cabo-verdiana durante uma conversa em que a segunda relatava as situações de racismo e as dores que carrega até os dias de hoje.

Caros leitores, sinto-me uma mensageira de más notícias, mas realmente preciso dividir com todos interessados nesta leitura, a considero pedagógica em muitos sentidos. Embora já tenha experiência clínica o bastante para não me surpreender, confesso que tais falas são como um soco no estômago. É uma fala muito problemática e, durante este artigo, vamos descobrir o motivo de ser tão violenta, carregada de racismo implícito e velado, e o pior, aconteceu numa relação de intimidade e suposto afeto. Veremos que esses elementos de proximidade não são garantia para que uma relação se dê de forma desigual e com hierarquias de humanidade, o racismo é persistente e coexiste nesse jogo.

Num cenário em que o preconceito, o racismo e a xenofobia tendem a crescer em Portugal, a vigilância e a responsabilidade aumentam, especialmente no que tange a disseminação de informação. Eu, particularmente, reconheço que a informação em si não dê conta da complexidade de tais fenômenos, compreendo a existência de uma formatação de mentes que foram forjadas historicamente e contra esse facto demanda-se um esforço exorbitante.

 “Não acho que ela tenha perfil para esta vaga, ela é difícil, dura nas palavras, é reativa, não consigo comunicar de forma saudável com ela. Eu não a contrataria para esta função.”

Mulher branca e brasileira, líder numa empresa ao falar numa reunião de equipe sobre uma mulher negra e brasileira, possível candidata para uma liderança. Um exemplo de aferição de estigmas acerca da mulher negra sem levar em consideração sua qualificação.

O conceito de “vieses Inconscientes” embora amplamente disseminado em ambientes corporativos e institucionais, aponta a existência das chamadas crenças implícitas como um fator determinante na expressão explícita do preconceito, e podemos, sim, lançar dele para explicar também relações de intimidade.

Este conceito advém da tradição americana dos estudos das cognições. A primeira pesquisa deu-se em Harvard, e teve como produto o TAI (teste de associação implícita). Em termos práticos, o teste tinha como objetivo principal medir o grau de preconceito de uma pessoa branca a partir da associação que ela faz entre pessoas negras e adjetivações negativas.

Com o passar do tempo, surge um mercado de profissionais e soluções para diminuir o tal preconceito implícito e melhorar as relações institucionais, e investir em imagens positivadas de pessoas negras bem-sucedidas, foi uma das ações que prometiam melhorias. Decerto, sabemos que a representatividade é fundamental para a mudança de mentalidade de uma sociedade pois a imagem, influencia, sim, na forma que pensamos o mundo e consequentemente pessoas. Ademais, numa sociedade auto declaradamente diversa, deveria, sim, refletir essa diversidade em todos os espaços.

A pergunta é: será que a aquisição de habilidade em positivar pessoas negras garante relações de alteridade? Em relações de intimidade, as hierarquias e desumanizações desapareceriam? Nos ambientes corporativos, as disputas e hierarquizações de corpos que produzem exclusões e privilégios estariam capacitados a transcender o que está mentalmente introjectado?

Freud dizia que “o ego não é senhor em sua própria casa”. A forma que fomos socializados transborda a linha do individual. Os exemplos trazidos aqui neste texto revelam que o inconsciente fala bem mais alto. A dimensão mais importante do racismo é a psicológica, essa dá sustento a todas as outras dimensões e não podemos simplificar. Os vieses inconscientes devem ser reconhecidos como uma realidade nociva, producente de toxicidade e sofrimento, um dos subprodutos do racismo estrutural.

A mudança individual de mentalidade é o início do caminho, uma estrada longa de esforços, vigilância, mudança de atitude e de humanização. O antirracismo não é uma plena garantia e não deve ser romantizado, é uma luta cotidiana travada em diferentes frentes. O mais importante dessa reflexão seria a capacidade de identificar tais atitudes como nocivas e combatê-las.

É preciso enfrentar o problema com coragem!

- Sobre a Shenia Karlsson -

Preta, brasileira do Rio de Janeiro, imigrante, mãe do Zack, psicóloga clínica especialista em Diversidade, Pós Graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio, Mestranda em Estudos Africanos no ISCSP, Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no Instituto da Mulher Negra de Portugal, Co fundadora do Papo Preta: Saúde Mental da Mulher Negra, Terapeuta de casais e famílias, Palestrante, Consultora de projetos em Diversidade e Inclusão para empresas, instituições, mentoria de jovens e projetos acadêmicos, fornece aconselhamento para casais e famílias inter racias e famílias brancas que adotam crianças negras.

Texto de Shenia Karlsson
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

7 Abril 2026

Valério e Gonçalo vão à luta

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

27 Janeiro 2026

Museu dos sapatos

13 Janeiro 2026

A Europa no divã

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Camila Romão sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0