Na última edição de 2018 da Revista Gerador, quisemos voltar às nossas visitas de estudo com o Gil e a Andreia, essa dupla imbatível na descoberta de histórias do arco da velha. Durante uma manhã, visitaram os estaleiros de Vila do Conde com o senhor Ferraz, que ali trabalhou toda a sua vida. Recolheram memórias sobre a construção de barcos em madeira e ainda descobriram superstições, histórias de bruxas e feitiços que pairavam naquele lugar.


O senhor Ferraz ouviu o poeta e escritor José Régio dizer: “Pois é: fechem-se os estaleiros e acaba-se com a cascata de Vila do Conde.” A cascata de que falava eram os sons: os martelos, os gritos, as palmadas, os risos, os chefes e empregados que se mandam, à vez, passear, e que, todos juntos, se tornavam num rumor constante e com qualquer tonalidade de água. Régio tinha razão. Os estaleiros antigos, no centro da cidade, fecharam há muito, e hoje existem principalmente como lembrança. Nos estaleiros novos, pelo menos durante a manhã quente de sábado em que os visitámos, procurámos traços das superstições de que tínhamos ouvido falar: ferraduras na quilha e figas nos mastros. Tudo para dar sorte.

De ladrão de lenha (aos doze anos) a construtor naval de pleno direito (o resto da vida), o senhor Ferraz passou oitenta e dois anos entre os dois estaleiros. Tem a energia de uma pessoa com um terço da sua idade — e teria de ser uma pessoa vivaça. As histórias que conta, que viemos a Vila do Conde para ouvir, existem algures entre a memória e o conto, a saudade e o ato de reviver.

Tal como nós, os estaleiros viviam de histórias. Um barco não é apenas um barco; é mais do que um casco que flutua, mais do que a forma e o material de que é feito. Existe em múltiplas formas desde o desenho, que era feito no chão com as medidas reais que viria a ter, desde as árvores que eram escolhidas a dedo para o elemento em que se transformariam, desde a função que terá e que obrigará a uma dada postura no mar.

“Eu ia com o mestre escolher o pinheiro, que precisava de ter a curvatura certa, que não podia ser sangrado, que se diz da árvore sem resina, já seca”, explica Ferraz. “Uma tábua sangrada dura cinco anos, enquanto uma boa dura vinte”. Entusiasma-se, faz as vozes de vinte trabalhadores ao mesmo tempo, tenta imitar, sozinho, a cascata de Vila do Conde. “Vinha alguém com o macaco para levantar o barco — gritava ‘alivia!’ e depois ‘segura’! E tínhamos nós de segurar o barco, de puxar, de fazer o que fosse preciso. Às vezes à chuva era preciso vir, porque um barco tinha de subir, e isso só se faz com a maré”.

O trabalho era exigente, os tempos eram difíceis e os barcos em construção eram objetos que iam transportar vidas. Havia precauções a tomar desde o início, onde uma ferradura era posta na quilha, para dar sorte, até ao fim, em que durante uma festa em celebração do dia, o barco, depois de agraciado com um ramo de flores e uma garrafa de champanhe, era benzido por um padre, que lhe dizia, à laia de aviso: “Deus te guie!” Vinha então o homem do martelo, os tarolos que impediam a embarcação de se escapar para o rio eram retirados, o barco deslizava para o rio. Atrás das celebrações, parte delas mas à parte, os construtores observavam os movimentos na água. Comentavam entre si, “Precisa de mais boca”, ou, “Está muito leve”.

Os barcos eram o sustento de quem os comprava. Se dois barcos feitos pela mesma companhia para a mesma função, ambos com uma moeda escondida na quilha, num lugar onde não se visse (que era maneira de chamar mais moedas àquele barco), mas davam a um pescador mais dinheiro do que o outro, então os barcos eram visitados por bruxas. Chamadas “mulheres de peito aberto”, vinham durante a noite, com artes misteriosas, completar uma bênção que tivesse ficado malfeita e que pudesse explicar a diferença de lucros.

Mas estas eram considerações exteriores, que nada tinham que ver com a confusão de andaimes e martelos, dos engenheiros que verificavam o estado das embarcações como médicos navais, diagnosticando os seus clientes a pauladas de martelo nas costelas. Um som (imaginemo-lo seco, para uma costela sólida, e cheio de vibrações contrárias, para uma defeituosa) era a diferença entre um barco pronto para desafiar o oceano e um que precisava de conserto — e consertar uma costela com mais de vinte metros exige mester.

“A construção em madeira está a acabar”, suspira Ferraz. “Veja, um barco de alumínio, que não pesa nada, se tem defeito é só encalhá-lo [puxá-lo para terra por meio do que houver, faça sol ou troveje, conforme a necessidade], dá cá o maçarico, solda-se num par de horas. Um barco de madeira é preciso encalhar, ver o que está mal, tirar a tábua, pôr uma tábua nova ou arranjar conserto… Demora um dia ou mais. Vai-me deixar muita saudade. Isso mais do que tudo”.

Perguntámos ao Ferraz se costumava também andar nas embarcações que construía, e ele ri-se. “Nunca!”, diz. “Fui uma vez; ia morrendo.” Faz uma pausa, a sorrir, deixa-nos imaginar uma grande tempestade de mar alto, o barco, com ferradura, bênção, figas amarradas ao mastro, a memória distante de ser interpelado muito seriamente por um padre, e o Ferraz, ambos prestes a sucumbir às ondas. “É que, sabem, atrasei-me. Fiquei muito tempo. Quando cheguei a casa quase me matavam, preocupados como estavam”.

E é assim que nos vamos despedindo. É coisa que demora. Uma tarde com o Ferraz é uma história que se arrasta e espalha. No carro fala-nos de quando conheceu Jorge Amado; passámos pela casa onde viveu José Régio e declama-nos poesia. Queixa-se do carro, que faz barulho (e não é, certamente, nenhum exemplo de um veículo construído com carinho; não tem nenhuma moeda, não foi alvo de qualquer bênção, e talvez por isso se queixe e chie de vez em quando), lembra-se de onde ia e termina o poema. O Ferraz é exemplo de que podem tirar o homem do estaleiro, mas dificilmente tirarão o estaleiro do homem.

Hoje não o podemos levar a almoçar — tem planos com o irmão gémeo, que vem do Brasil —, mas queremos voltar em breve. Talvez visitar os estaleiros antigos, saber onde estava o quê, onde se encontrava Régio quando falou, mas são planos para o futuro. Dependem de tempo, e, lá está, de sorte. Portanto, despedimo-nos e fazemos figas para que seja um até breve.

Esta reportagem foi publicada na Revista Gerador Coisas do Arco da Velha – Novembro e Dezembro de 2018. Pede a tua Revista Gerador aqui.
Texto de Gil Sousa
Fotografias de Andreia Mayer

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