Terminou com uma madrugada de chuva a 27.ª edição do festival Vodafone Paredes de Coura, devolvendo à terra o pó levantado durante os quatro dias de festival, que voltaram a encher de música os ouvidos e a memória de quem marcou presença no chamado Couraíso. Com melhores condições de campismo, um cartaz que limpou bilheteiras e cada vez mais preocupações ambientais, o festival parece melhorar de ano para ano e não fazer tenção de parar por aqui, depois da edição considerada pelo organizador João Carvalho como a melhor de sempre. Mas vamos por partes.

Como já é hábito, a pacata vila de Paredes de Coura começa a perder o adjectivo que a caracteriza durante o resto do ano antes do começo do festival. Na primeira dezena de Agosto, se não for mais cedo, começam a chegar os campistas, para garantir com antecedência um bom lugar no parque de campismo, que gradualmente se enche nos dias seguintes, de tal forma que parece não haver um sítio onde não seja possível montar uma tenda. O aumento de 20% da área do parque de campismo, que este ano ocupou 18 hectares, e certas restrições da organização, como, por exemplo, impedir a demarcação de zonas privadas com fitas, possibilitaram melhores condições de segurança e conforto para todos os campistas. Entre as novidades desta 27.ª edição está também o aumento do número de casas-de-banho ou a criação de uma zona de barbecue grátis.

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Fora as novidades, manteve-se tudo aquilo que vem caracterizando o festival e deixando uma marca em quem por lá passa. O rio Coura, ladeado por árvores, voltou a oferecer a sua água gelada e as suas margens de relva macia, durante o dia coberta pelas mais variadas cores e formas: de toalhas a fatos-de-banho; de colchões de dormir a iates insufláveis.

Todos os anos, a lista de actividades à volta do rio é extensa, e um breve passeio pela margem chega para perceber. Se uns saltam do cimo da conhecida árvore residente ou da ponta de uma das pranchas vermelhas de um lado do rio, do outro vêem-se barcos insufláveis a embarcar ou desembarcar, amigos à conversa com água pela cintura ou ainda o ocasional mergulhador relâmpago, que rapidamente vem molhar a pele e o cabelo para regressar ao sol e ao calor. Há quem aproveite para compensar a falta de sono nocturno, estendido em cima de um barco insuflável, e há quem pegue nos remos para explorar os confins do rio Coura. Há bancas onde se pode ir buscar uma bebida e há uma esplanada no topo da colina.

Tudo isto se junta àquilo que é o cerne do festival: a música. Além do Sobe à Vila, que trouxe, como é hábito, concertos grátis na vila de Paredes de Coura nos dias que antecedem o festival, o palco Jazz na Relva, lado a lado com o rio, apresentou à tarde, durante os dias do festival, um programa diversificado, que trouxe bandas como Madrepaz ou Mazarin, e ainda um debate organizado pelo Fumaça, que contou com a presença do escritor Valter Hugo Mãe. A grande novidade no palco da edição deste ano, para quem gosta de começar cedo o dia, foi a possibilidade de começar todos os dias do festival com uma sessão de yoga grátis às 11h, oferecido pelo Yoga Project de Joana Dias.

Dentro ou fora dele, todos os caminhos vão dar ao rio Coura © Rita Pereira

Por volta das 17h00, começa a esvaziar gradualmente o relvado da Praia Fluvial do Taboão, para dar início às preparações em direcção ao palco Vodafone.fm (palco secundário), que tem o primeiro concerto às 17h45, excepto no primeiro dia de festival, que apresenta um programa ligeiramente mais curto, começando às 18h15 e com concertos apenas no palco principal.

Os bracarenses Bed Legs foram os primeiros a subir ao palco no dia 14 de Agosto, abrindo o primeiro dia de festival com um concerto enérgico, que fez soar o rock e o blues pelo anfiteatro de relva do palco principal. A banda de Braga, que em 2016 tocou no palco secundário, voltou em força ao Paredes de Coura, com o álbum homónimo Bed Legs, lançado em 2018, e com muito prazer por regressar para abrir o festival num palco maior e para um público que, apesar da hora, ia já enchendo o relvado. Em entrevista ao Gerador, Tiago Calçada, guitarrista dos Bed Legs, confessa: “Todos nós desde putos vimos aqui ao festival. Quando viemos tocar em 2016 já foi um sonho realizado, mas nunca pensámos tocar no principal… aconteceu.” Quanto a bandas do cartaz que gostaria de ver, a escolha ficou pelos cabeças de cartaz New Order, com menção também dos portugueses Sensible Soccers.

Bed Legs abriram a edição de 2019 do Vodafone Paredes de Coura © Hugo Lima

O palco foi em seguida tomado pela voz suave e melodias melancólicas da australiana Julia Jacklin, “from the blue mountains of Australia”, como a própria se apresentou ao público, numa altura em que se preenchia já o espaço quase até ao topo da colina. O ambiente acalmou ao som de músicas como “Don’t Know How to Keep Loving You”, enquanto escurecia a paisagem e a temperatura descia. Mas o calor voltou assim que pisaram o palco os brasileiros Boogarins, num concerto “Doce”, como a canção que guardaram para o final do concerto, e em que o sorriso do vocalista Fernando Almeida aquecia as letras das músicas do mais recente álbum Sombrou Dúvida, lançado há pouco mais de 3 meses.

Parcels com natureza morta atrás, mas bem viva à sua frente © Hugo Lima

Os sorrisos e o calor mantiveram-se para o ponto alto da noite: a chegada ao palco dos Parcels. Com o público já bem aquecido, os australianos trouxeram uma dinâmica e uma boa disposição contagiante, que levou a saltos, muito canto conjunto e crowd surf ao som de canções como “Tieduprightnow” ou “Withorwithout”, num concerto em que a banda dançou em palco e não poupou elogios ao público e ao festival.

Todos os olhos acompanhavam Matt Berninger © Hugo Lima

Os The National fecharam o primeiro dia de palco principal com um concerto que voltou a acalmar os ânimos e a pôr o público a cantar em conjunto as letras de “Graceless”, “The Day I Die” ou “Fake Empire”, enquanto o vocalista Matt Berninger passeava pelo palco, assinava discos de fãs, oferecia o lenço que trouxe ao pescoço, pegava em cartazes ou atirava mais um copo ao ar. O after hours continuou noite fora com o vigor dos congoleses KOKOKO! e o já habitual DJ Set de Nuno Lopes.

Gonçalo Formiga, dos Cave Story, que abriram o segundo dia de festival © Hugo Lima

O segundo dia voltou a abrir bem e com uma banda portuguesa, desta vez com os Cave Story, no palco Vodafone.fm. A banda das Caldas da Rainha voltou a tocar no palco secundário, onde já tinha tocado em 2017, agora com o álbum Punk Academics, lançado pouco tempo depois da última visita a Paredes de Coura. “Viemos menos nervosos, com o novo álbum, com um set diferente e com um ambiente mais familiar. O tratamento foi o mesmo, somos sempre muito bem recebidos”, confessam ao Gerador. Em relação aos favoritos do cartaz, alguns dos nomes escolhidos pela banda foram Deerhunter, Patti Smith, Connan Mockasin ou Black Midi.

Khruangbin levaram consigo o público ao final da tarde do segundo dia © Hugo Lima

Os concertos começaram então a dividir-se entre os dois palcos: o principal e o secundário. O palco principal foi primeiro ocupado pelas franjas pretas, guitarra sedutora e ritmos virtuosos dos americanos Khruangbin. O trio do Texas espalhava a melodia de canções como “Maria También” pelo anfiteatro natural do palco grande, enquanto a australiana Stella Donnelly entretinha o público do palco secundário com histórias engraçadas, letras e canções catchy, danças próprias e intervenções pertinentes.

Stella Donnelly: da Austrália, com humor © Hugo Lima

Seguiram-se os noruegueses Boy Pablo, com um indie-pop característico, quando os canadianos Alvvays já ocupavam há alguns minutos o palco principal, seguindo uma onda semelhante de indie-pop que marcava o final de tarde do segundo dia de festival. Fazia-se noite e mantinha-se o indie: subiam ao palco os regressados Car Seat Headrest, dois anos após a última vinda a Paredes de Coura. Pouco tempo depois, Avi Buffalo fechava o palco secundário até ao after hours.

New Order vieram para um dos concertos mais aguardados do cartaz © Hugo Lima

Chegava então um dos grandes cabeças de cartaz desta edição: os New Order. Num concerto com direito a tributo aos Joy Division e a Ian Curtis, os New Order mostraram que a idade passa despercebida quando se faz a coisa bem. “Blue Monday”, “True Faith” e ainda êxitos dos Joy Division como “Love Will Tear Us Apart”, “Transmission” e “She’s Lost Control” foram algumas das músicas que fizeram cantar, dançar e saltar o público que enchia completamente o relvado do palco principal.

O concerto final foi reservado para os Capitão Fausto, que brindaram o público ainda vibrante de New Order com um concerto especial, em que os portugueses tocaram sobretudo músicas do último disco, mas também a muito desejada pelos fãs “Teresa”. A fechar o dia, a actuação ao vivo de Acid Arab no after hours manteve a energia do segundo dia de festival até altas horas da noite.

Capitão Fausto subiram ao palco com a casa cheia © Hugo Lima

O terceiro dia abriu com os portugueses First Breath After Coma, regressados para tocar desta vez no palco principal, seguidos pelo folk e rock psicadélico de Jonathan Wilson, que apresentou visuais à altura da qualidade do som. Os Deerhunter foram os terceiros a pisar o palco principal, quando o anfiteatro estava já cheio, e abriram a porta aos ingleses Spiritualized, que, como o nome sugere, encantaram com um space rock místico.

Father John Misty regressou a Paredes de Coura (a última vinda foi em 2015) para fechar o terceiro dia, com a voz e o estilo característicos, além de mais dois álbuns: Pure Comedy (2017) e God’s Favorite Customer (2018).

 Father John Misty de volta ao palco principal © Hugo Lima

No palco secundário, os concertos dos belgas Balthazar, do neozelandês Connan Mockasin e dos londrinos Black Midi não deixaram cair a qualidade dos outros dias, com especial destaque para os Black Midi, pela segunda vez em Portugal e com apenas um álbum lançado, que encheram o palco Vodafone.fm.

O quarto e último dia de festival começou no palco secundário com uma banda ¼ portuguesa — os Time for T —, que fez soar o seu folk rock quando o sol ainda brilhava alto. “This has been a dream of us to come and play and this year the lineup is amazing”, revela Joshua Taylor, baixista dos Time for T, em entrevista ao Gerador. A banda composta pelo português Tiago Saga (vocalista e fundador da banda), pelo inglês Joshua Taylor (baixo), pelo espanhol Juan Toran (guitarra) e pelo brasileiro Felipe Bastos (bateria) trouxe ao palco o novo álbum, com data de lançamento marcada para Outubro de 2019, num momento em que a banda começa a afinar cada vez mais a música que quer fazer. “We’re kind of honing our tastes together because we are four people from four different countries, so that in itself has a lot to work with, a lot of influences, a lot of different things that we all want to achieve personally. And then to come together as one music, as one song or an album… now we are just getting there”, confessa o baixista dos Time for T.

O público do palco secundário continuou de pé e em grande número para testemunhar a voz melodiosa e presença em palco da sul-africana Alice Phoebe Lou, o som distinto dos portugueses Sensible Soccers, que lançaram este ano o novo álbum Aurora, e ainda os sintetizadores e as batidas jazzy do britânico Kamaal Williams, num concerto que misturou o hip-hop e o jazz para fechar o palco secundário até horas tardias.

O palco secundário, mais acolhedor, mas igualmente cheio © Hugo Lima

O palco principal foi aberto mais uma vez por uma banda portuguesa. Desta feita, subiram ao palco os portugueses Ganso, para a sua estreia em Paredes de Coura. Mitski foi enchendo o relvado com performances em palco, mas no último dia de festival o público aguardava apenas por um nome, que vinha celebrar da melhor forma os 50 anos passados desde o Festival de Woodstock: com apenas 3 sílabas, o nome era o de Patti Smith. A cantora e compositora americana entrou em palco ao som de palmas, gritos e assobios, que ecoavam pelo anfiteatro na sua capacidade máxima, repleto de pessoas que esperavam para ver o ícone da música. Os longos cabelos brancos ondulando, o blazer e o colete, e o rosto enrugado, mas sorridente, preencheram o palco até começar a soar a música e a sua voz, ainda a mesma apesar da idade, fazer calar e escutar. Pelo meio, a cantora comoveu-se com o público e vice-versa, gritou palavras de união, cantou Jimi Hendrix, Lou Reed, Rolling Stones e pôs centenas ou milhares de pessoas a cantar em coro a letra de canções como “People Have the Power” ou “Gloria”.

O cenário compunha-se no último dia de festival © Rita Pereira

O concerto seguinte veio virar a sonoridade para o hip-hop e o grime, com a actuação interventiva de Freddie Gibbs & Madlib. A noite terminaria no palco principal com os Suede. A banda muito popular nos anos 90 trouxe um britpop com muita energia, que satisfez o público mais velho, num concerto em que o vocalista Brett Anderson não parou um segundo.

A noite e o festival terminariam no palco secundário com as actuações da rapper londrina em ascensão Flohio, seguida pela DJ canadiana Jayda G.

Parcels abraçavam-se e o público despedia-se calorosamente © Rita Pereira

Assim acabou a edição de 2019 do Vodafone Paredes de Coura, devolvendo o pó à terra e o silêncio à vila de Paredes de Coura. Em 2020, o festival tem já data marcada para os dias 19 a 22 de Agosto, com a promessa da organização de ter um cabeça de cartaz no primeiro dia de festival, que costuma ser o dia de aquecimento, mas também de continuar as melhorias na zona de campismo e no recinto do festival, fazendo cada vez mais por merecer o nome que lhe vão dando: Couraíso.

Texto de Francisco Cambim
Fotografia de capa de Hugo Lima
Texto escrito com o Antigo Acordo Ortográfico

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