Há 10 anos que as ruas de Lamego se enchem todos os anos de artistas emergentes, lamecenses e curiosos. Este ano o ZigurFest acontece de 25 a 28 de agosto e traz novidades como a web app, Som do Espaço, e uma aposta no serviço educativo: “Somos um bom festival para tirar as pessoas da sua zona de conforto.”

“Dez anos de um fim de semana que, entretanto, são quatro dias, dez anos de quilómetros nas pernas, dez anos de lágrimas no canto do olho por recebermos os nossos heróis… Enfim, dez anos de histórias e de uma loucura que às vezes até parece mentira”, é assim que o festival ZigurFest nos lembra que este ano está de parabéns. De 25 a 28 de agosto, Lamego volta a encher-se de concertos, exposições, performances e encontros inéditos, num entrelaçar de artes que se unem para trazer aos habitantes, curiosos e fiéis do festival, quatro dias diferentes, fechando os cartazes de festivais de verão no Norte do país.

Do Teatro Ribeiro Conceição ao Castelo, do Museu à Alameda, o cruzar de artes é uma das características deste festival, como, por exemplo, o cruzamento entre bateria e dança de João Valinho e Marta Viana, as artes plásticas dos artistas da ZONA Luís Plácido Costa e Mariana Simão, as explorações audiovisuais de Boris Chimp 504 e Folclore Impressionista (que estiveram durante uma semana na cidade a trabalhar num filme-concerto encomendado pelo festival) ou a música expansiva das Lantana ou da Medusa Unit (que também vai estar em residência em Lamego).

Nesta 10.ª edição comemorativa, SCOLARI, coletivo vandalismo e Fashion Eternal, chegam com a promessa de “um assalto aos sentidos” para ser amaciado pela música aveludada de Luis Pestana. Marcelo dos Reis e Braima Galissá, dois mestres das cordas, prometem “diferentes bálsamos para todas as maleitas”, partilhando a cidade-palco com músicos admiráveis como os ninjas lisboetas Yakuza, os escultores sonoros Luís Vicente Trio, as muitas percussões de Serpente, a alegria fusionista dos Don Pie Pie e o encontro entre Afta 3000, Wugori e Lyfe, reunidos pela primeira vez para uma encomenda do ZigurFest.

Dez anos são celebrados ainda com uma web app, Som do Espaço, que revitaliza esses espaços criados na cidade por artistas noutras edições, e nos leva a descobrir a cidade, os seus recantos e os seus sons numa série de peças imersivas. E porque esta é uma edição feita de surpresas, o festival traz a JANELA , um novo segmento do festival dedicado à videoarte com curadoria de Nuno Veiga, conversas abertas e workshops para pôr o público a mexer.

Em entrevista ao Gerador, António Silva, um dos responsáveis pela organização do festival, contou-nos como começou esta ideia, o impacto que tem na região e o que podemos esperar desta edição comemorativa, “feita com o coração e doses valentes de comemoração”.

Gerador (G.) – Como surgiu a ideia de criar o ZigurFest em Lamego?

António Silva (A. S.) – A ideia de criar o ZigurFest surgiu de um grupo de amigos que estava numa cidade pequena, onde se passava pouca coisa, e pensou que talvez pudesse agitar as águas de outra forma. Em 2011, a direção do Teatro Ribeiro Conceição fez-nos esse convite de tentar fazer um ou dois dias de música para um público mais jovem. Na altura, bastou-nos esta acendalha para crescer uma vontade ainda maior de fazermos algo diferente. Todos os anos existem sempre altos e baixos muito pronunciados, e alguém diz sempre que é o último ano que faz isto, mas, felizmente, ainda aqui estamos. Desde o início que fazer algo diferente é o que nos move. O apoio e a vontade da Câmara, da cidade, do Museu, do Teatro, de todas as pessoas que fazem o festival, também nos ajuda, claro.

G. – Durante estes 10 anos, qual foi o caminho que percorreram para se aproximar dos lamecenses, e não só de quem é de fora?

A. S. – Independentemente do sítio, a maior parte das vezes parece mais fácil trazer algo para a cidade do que para quem está de fora. Lamego tem um ponto a favor, é uma cidade pequena, a proximidade das pessoas é maior, aqui a rede é muito mais coesa do que num centro urbano. O festival, que inicialmente, era só feito no teatro, passou a ser feito na rua – houve esta vontade de ir ao encontro das pessoas, de fazer da cidade um palco. Chegámos a ter, em jeito de slogan, “em cada rua um palco, em cada palco uma descoberta”. Esta abertura à cidade foi o ponto de viragem, isso e ser um festival gratuito. Tornou-se claro para nós que o festival tinha de ser gratuito, que chamasse um público dos sete aos oitenta e sete, sem haver um custo associado.

G. – São uma rampa de lançamento para muitos artistas não só na área da música, é isso que vos diferencia?

A. S. – Não sei se seremos uma rampa de lançamento. É bom sentir que muitos artistas têm vontade de vir tocar ao festival, e é algo de que nos podemos orgulhar. Temos um bom timing, às vezes um pouco de sorte em apanhar os artistas em ponto de rebuçado e somos o último festival do verão, as pessoas já olham para as coisas de forma diferente e pode dar a ideia de que estamos a catapultar alguém. Mas para nós o ideal sempre foi oferecermos um sítio onde os artistas se sintam bem recebidos e ouvidos. Todos os anos a nossa linha de programação não vai para nomes já estabelecidos e não repetimos nomes. Aliás, em dez anos, nunca repetimos um nome e por isso, todos os anos, criamos uma espécie de viveiro da música emergente.

G. – O que é que o ZigurFest traz a Lamego e à região?

A. S. – Somos um bom festival para tirar as pessoas da sua zona de conforto, porque para as pessoas e para o interior é um conceito muito estranho que implica saíres da tua zona de conforto. Trazemos essa vontade de deixar as pessoas inconformadas e gostamos sempre de deixar um desafio não só a nós que produzimos o festival, mas a quem vem e não conhece os artistas e o tipo de música, à cidade que consegue incorporar este festival no seu quotidiano sem qualquer tipo de percalços ou antagonismos, sempre com o espírito perfeito.

G. – O festival acontece numa região composta por uma população mais envelhecida. Como é que esta população mais velha recebe o festival?

A. S. – Até agora o feedback tem sido sempre ótimo! Temos tido a sorte de, nessa semana, também estarem a acontecer as festas da cidade de Lamego, portanto há um clima de celebração e comunhão muito presente, há muita movimentação na rua, não somos completamente disruptivos na vida diária dessas pessoas. Vai sempre entre a curiosidade, estupefação e interesse genuíno. Um dos sítios que começámos a trabalhar mais recentemente foi no bairro do castelo, talvez a zona mais envelhecida da cidade, e no primeiro ano em que fizemos nessa zona, tivemos muita gente a ver os concertos das suas janelas e a descer à rua para perceber o que se passava. E quando não gostam também gostamos que o digam. As pessoas também gostam de ver a sua cidade a mexer-se um pouco, cheia de pessoas novas, de regressos e novidades. São as pessoas que nos recebem melhor e dão mais força.

G. – Este ano também têm uma web app, Som do Espaço, que ajuda os visitantes do festival a conhecer a cidade. Podes explicar-nos como vai ser?

A. S. – Chama-se Som do Espaço porque vem de uma rubrica que criámos há quatro ou cinco edições. Na altura estendemos o convite a cinco artistas para, inspirados num espaço da cidade, público, monumento ou até uma rua, criassem uma peça que, em primeira instância, iria ser apresenta no local em género de instalação. A ideia era criar uma impressão digital sonora desses sítios. De forma a que não se perdesse essa dimensão sonora, decidimos reunir essas peças numa app, que é ativada por geolocalização, ou seja, chegando à cidade, o visitante recebe uma notificação a dizer o que pode ver em cada sítio e funciona como um guia sonoro da cidade. Este ano vamos apresentar mais duas peças, uma do Francisco Oliveira (apresentada no Museu de Lamego) e uma do Filipe Marado (apresentada nos dias do festival).

G. – O festival tem também uma componente educativa, com o “serviço educativo”…

A. S. – Desde 2019 que trabalhamos com duas educadoras de públicos mais jovens que, este ano, vão desenvolver um programa de serviço educativo para todos os públicos – mais uma vez a ideia de que queremos chegar a todos os públicos em vez de segmentá-los. Elas desenvolveram um programa que está aberto ao público e vai decorrer no Museu de Lamego. No dia 26, será uma peça orientada para as artes plásticas, em que vamos disponibilizar uma tela gigante onde todas as pessoas podem deixar a sua marca e a peça que resultar daí será duracional. No dia 27, será criada uma peça com base nas tapeçarias que estão no interior do museu. Temos ainda dois workshops, um da Marta Viana sobre expressão corporal, e outro do Manuel Molarinho, que vai estar a fazer um workshop de utilização de loops e outros pedais para criar música. Este ano, pela primeira vez, vamos ter duas sessões de conversas abertas, uma logo no primeiro dia e outra no último. Por um lado, vamos falar do que é isto de desenvolver públicos no interior e, por outro, vamos falar com artistas para perceber como foi para eles ultrapassar este último período e qual foi o papel de organizações como o Zigurfest e outros festivais e entidades que têm apoiado os artistas nestes últimos meses. Mais uma vez será tudo de entrada livre, mas limitado à lotação possível em pandemia e as inscrições para os workshops poderão ser feitas no site.

G. – Este ano têm a “JANELA”, é um novo segmento do festival dedicado à videoarte com curadoria de Nuno Veiga. É uma preocupação vossa, introduzir outros tipos de arte nos festivais?

A. S. – Sim, cada vez mais. Não meios artísticos sem ligação, mas queremos ter diferentes linguagens em conversa, porque sentimos que cada vez mais há expressões que têm traços em comum, independentemente de serem visuais ou musicais. O próprio programa já espelha isso e creio que o caminho nos próximos anos será esse: cada vez mais interceções e diálogos entre expressões artísticas diferentes.

G. – São 10 anos e vocês dizem que esta é uma edição feita com o coração e doses valentes de celebração, o que podemos esperar?

A. S. – Quando escrevemos isso, estávamos todos a pensar no mesmo. É com o coração porque este último ano e meio ensinou-nos a não contar com o melhor cenário possível, é o mais seguro, porque até à última apode correr mal. Foi tudo feito com o coração porque queríamos muito que esta edição acontecesse e por isso acho que esta edição vai ser muito catártica, para nós, para os músicos e para o público, pode haver uma confluência de energias muito positiva e agradável. Acreditamos sempre que o nosso festival é especial e, este ano, pelas condições todas que o mundo passou, vamos sentir aquela carga a sair dos ombros, queremos encontrar-nos uns aos outros, ver concertos. Quem já conhece o festival sabe porque é sempre bom e diferente, quem não conhece é uma ótima altura para ver uma cidade toda em festa, em comunhão com pessoas muito bem-dispostas e que gostam de ouvir música e acho que este ano temos uma programação bastante interessante e desafiante, tanto para músicos como para o público. E estamos a celebrar 10 anos!


Texto por Patrícia Patrícia Nogueira
Fotografia de Vera Marmelo

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