Hoje, nos Sentidos da Música, a Ana Isabel Fernandes conversa com Genes, que é como quem diz Luís D’Alva Teixeira, rapper do Montijo que lança já no próximo dia 5 de Junho o seu disco de estreia Pessoas.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Esta pergunta é super complicada. Há vezes em que me estou a sentir bem e quero transmitir isso através das minhas palavras. Ou, então,quando estou a escrever uma canção sobre alguém que gosto e só me vêm palavras bonitas à cabeça ou rimas fixes que possam satirizar um bocado o meu sentimento para a canção não ficar muito lamechas. Depois, também, existem momentos em que estou a escrever algo de forma impulsiva porque estou irritado com algo ou com alguém ou porque sinto-me deprimido e, aí, eu sei que vou arrepender-me de metade das palavras que escrevo porque têm um mantra demasiado literal e, por vezes, assustador,confesso. Surgem, no entanto, canções únicas quando estou nesse estado espírito. Não sei, acho que ambos podem ser bastante benéficos desde que a tua irracionalidade não venha da ajuda de terceiros (estupefacientes, drogas). Vejo muitos rappers que usam a droga como desculpa para escreverem canções. Se não és capaz de provar o teu talento sóbrio então não sei o que é feito de ti… Sou a favor de ambos, sem dúvida.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Não sei! Ando, agora, a desafiar-me muito a ouvir música trap para o meu disco, “Veracidade”, para poder ironizar o género, como planeio fazê-lo. Embora seja um género que não me apele muito respeito, é o único tipo de canção que me faz querer saltar e “moshar” e, simplesmente, enlouquecer! Porque acredito que o trap é o novo rock & roll. Esse tipo de música faz o meu corpo mexer mas qualquer boa banda de garage, (muito poucas), me fazem mesmo parecer um doido varrido. A Ana (Viotti) tem algumas fotos minhas, muito doidas, de um concerto dos meus putos, Sunflowers, mas, depois, também estava bastante irrequieto no gig do Night Lovell. Ambos na zdb, curiosamente. Dantes, qualquer música que ouvisse bêbedo fazia o corpo mexer, agora estou muito mais contido e seletivo, não me vou prostituir por qualquer canção.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Essa também é uma pergunta difícil. O meu estado de espírito está impresso em cada canção que escrevo, como se nunca me voltasse a sentir daquela forma nunca mais… O meu tio Samuel Úria estava a palestrar, uma vez, num bar sobre como às vezes demora muito tempo a escrever canções e ,depois ,sente que ficam coisas por dizer… Era um conselho que eu segui cegamente. Às vezes, demoro algum tempo, outras vezes posso demorar horas a escrever uma canção. O importante é que para as canções funcionarem, mesmo, eu preciso de estar sobre um estado de espírito diferente. Cada vez que ele sofre uma metamorfose é uma canção diferente, mas acho que não é uma canção que vai ditar o meu estado de espírito, é mesmo o estado das coisas. Para evocar o meu estado de espírito ouço “merdas” que escrevi e ,por breves momentos, volto a sentir esse estado na espinha e no corpo todo. É imediato, mas não me sinto diferente a ouvir outras canções de outros estados de espírito, só as oiço porque são boas.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Totalmente. Acho que uma canção não passa de pensamentos impressos por um propósito maior que a pessoa. Uma canção tem de ser tudo aquilo que tu queres dizer a ti próprio sem soar repetitivo, sem soar abrasivo, sem soar aborrecido e ,acima de tudo, é preciso haver anáforas daquilo que sentes mesmo ser o cerne do pensamento, aquilo que vai mudar a tua percepção das coisas e ,com sorte, a percepção de outras pessoas que oiçam aquilo que escreveste. Por isso é que os bons pensamentos (boas canções) ficam presas na tua mente durante um bom bocado, às vezes para sempre, ao ponto de se tornarem tão influentes que muitas decisões que tomas baseiam-se naquele derradeiro pensamento. Creio que sim.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Quase a toda a hora. Podem ser utopias ou podem ser aquilo que vejo à minha volta. Podem ser fictícios, (quase sempre), desde que sejam retratos muito fiéis de um espaço onde me imaginaria a co-existir. No primeiro EP que lancei estava a trabalhar num restaurante, chamado Big Bobs, para juntar dinheiro para o Indieota Festaval. Como era verão e trabalhava muitas horas por dia, mal tinha tempo para estar em casa, sentado, a organizar um festival (fazia de madrugada), quanto mais escrever canções… Aproveitava as pausas de almoço e, sempre que escrevia, fingia que estava num sítio melhor, escrevia onde queria estar quando estivesse longe dali. Conforme me sentia no dia, os espaços faziam-me pensar no tipo de pessoas que queria ver naquele espaço específico e, daí. foram surgindo canções. Por isso, sim, quase sempre idealizo molduras que possam embelezar a canção e ,isso, só acontece se estiver num sítio que sei que ninguém conhece.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Isso é uma pergunta engraçada. Desde miúdo que uso as cores para fazer triagem de tons, é complicado explicar haha. Há canções em que abordo o problema de saúde que tenho nas cordas vocais, uma situação que se tem vindo a desenvolver há meses e mal sabia… “Eu estou a tchilar com o Cap do Big Bobs”, eu diria ser uma cor cinzenta, quase negra. Deste novo disco, “Pessoas”, tenho uma canção chamada “June Nash” que é, precisamente, a continuação da última canção que mencionei. Nessa, creio que a situação, por estar mais crítica, merece um branco porque, às vezes, sentia mesmo que estava a morrer. Eu sei que parece dramático para uma pessoa da minha idade, mas eu sou como sou e não há como contornar. Esse Primeiro Ep, parecendo que não, é algo muito distorcido e escuro. Por vezes, o meu estado de espírito, naquelas pausas de almoço. estavam em crise, mesmo… Talvez haja algo mais colorido neste disco, talvez a “June Nash” seja a única canção mais incolor. Vamos esperar para ver…

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

A canção mais especial para mim é a “Chocolate Branco” ,do primeiro EP. Começa doce porque o chocolate branco sempre foi a minha maior tentação. Torna-se agridoce porque, afinal, é uma metáfora de uma rapariga que parece gostar de mim a sério e parece ser honesta quando diz que me ama. Torna-se amarga, ressabiada, quase azeda quando essa rapariga revela-se uma autêntica desilusão. Perturbação alimentar…

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Bem, o suor de uma pessoa faz-me lembrar “She splits me up” dos Crocodiles, alguém especial. O cheiro desses “niggas” que me estão a farejar e que me estão a espiar ao longe, a copiar o meu “gwap”, faz-me lembrar “Lookin”, do Playboi Carti, cujo verso recordo: “fuck these niggas / bitch ass niggas / Look at these niggas”. Odores.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Claro que sim, isto leva-nos de volta à pergunta sobre a música por trás da consciência. Cada música é um período específico da tua vida, é um estado de espírito diferente que deve ser preservado e recordado quando sim. A partir do momento em que esses pensamentos são preservados tu tornas-te imortal através desses pensamentos. Quando eu morrer quero os meus pensamentos na minha campa. Quero que eles sejam todo o meu legado enquanto ser vivo. Quero que esses pensamentos inspirem outros estados de espírito e que renovem a percepção de futuras gerações. Isso ou que façam download e que paguem uma quota mínima e justa eheh. Extrair pensamentos custa, yah?!

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Vera Marmelo