Ivo Canelas é um ator português que estudou no The Lee Strasberg Theatre and Film Institute, em Nova Iorque. Desde então fez vários trabalhos em televisão, teatro e cinema. Já conta com um Globo de Ouro e o prémio Caminhos do Cinema Português, ambos na categoria de melhor ator de cinema. Mais recentemente participou em duas séries norte-americanas: “Emerald City” e “Into The Badlands”.

Da Cozinha do Bairro, um café no Restelo, vê-se um pátio rodeado por prédios. Com música ambiente agradável, comida deliciosa e funcionárias simpatiquíssimas esperava pelo Ivo Canelas. À hora marcada fui para o pátio e lá estava ele à minha espera. Montei o tabuleiro de jogo num muro branco, que nos dava pela cintura, e decidimos jogar em pé. Daria outra dinâmica e movimento ao jogo. O sol brilhava e aquecia-nos. Expliquei as regras do jogo e começamos mais uma partida da nossa Pergunta da Sorte. O Ivo lança o dado e avança 4 casas. Fomos parar ao Sê Criativo, a casa que lança um desafio que o convidado tem de resolver de forma criativa.

Sê Criativo: Muahahahah Hora do desafio!!!

Ivo Canelas (I): Ui…

Andreia Monteiro (A): Então, o que eu te vou propor tem a ver com o teu passado. Tinhas uma banda de covers, não era? Os Cosmic Joke?

I: Sim.

A: Vou propor que nos cantes alguma coisa da tua banda.

O Ivo decidiu cantar um excerto de Creep dos Radiohead, ouve tudo aqui:

A: Superado o desafio…

I: Continuamos! (risos)

Desta vez o dado faz-nos avançar 5 casas e leva-nos à Pergunta Rápida, onde temos cartas com perguntas de sim ou não que têm de ser respondidas sem pensar muito.

Pergunta Rápida: Filmes ou séries?

I: As duas coisas.

Seguimos para bingo e avançamos mais 5 casas. Calhamos no número 14, onde nada acontece.

I: Sigo?

A: Sim.

Agora sim, sai o número 6 que nos leva até mais um Sê Criativo! Por entre gargalhadas o Ivo vai lendo o que está escrito no cartão desta casa.

Sê Criativo: Pensa no teu maior defeito. Agora desenha-o e eu adivinho qual é.

I: Muito bem (risos).

A: Portanto, tens aqui a folha e as canetas. Agora é só desenhar.

I: Desenhar o meu pior defeito? Isto não é fácil. Hummm… Como é um defeito vou pôr assim neste castanho esquisito. Esta é a cor dos defeitos, não é?

A: Sim (risos).

O Ivo tira a caneta e começa a pensar no que vai desenhar. O que será que vem dali?

I: Não vou pôr o meu maior defeito, vou pôr para ai o meu sexto maior defeito (risos), a contar do primeiro maior defeito. Então vá, já sei! Vais adivinhar isto em dez segundos.

A: Ai é?

I: É.

O Ivo começou a esboçar aquilo que parecia ser um carro. Este foi o resultado final:

Desenho do maior defeito, por Ivo Canelas

Agora cabia-me tentar adivinhar o dito sexto defeito.

A: Tem a ver com conduzir. És um mau condutor?

O Ivo diz que não e esboça os traços finais.

A: Conduzes muito depressa.

I: Sim! Viste? Das duas uma, ou tu és muito boa ou sou eu que desenho muito bem (risos).

A: Eu acho que é essa última hipótese. Eu percebi logo que era um carro, por isso correu bem.

I: Muito bem! Continuo?

A: Sim.

O dado entusiasma-se, cai do muro e rola pela calçada do pátio. Mas temos que deixá-lo operar, não se pode interferir com o seu caminho. Sai o número 1, que nos leva à casa da Pergunta da Sorte, em que posso fazer a pergunta que escolher na altura.

Pergunta da Sorte: Para além de ator, o teu Instagram mostra-nos que és um grande fotógrafo. Como nasceu essa paixão e o que mais gostas de captar nas tuas fotografias?

I: Muito obrigado, um grande fotógrafo (pausa para o riso tímido) é um grande exagero (risos). Mas gosto muito de tirar fotografias. Gostava de acreditar que gosto de fotografar tudo, mas não é verdade. Cada pessoa tem o seu ponto de vista único, portanto é condicionado àquilo em que eu reparo. Mas em que é que eu reparo muitas vezes? Reparo em coisas que não batem certo, visualmente ou culturalmente. Para mim não são evidentes. Gosto muito de fotografar coisas que eu não percebo, que não sei o que significa ou o que é exatamente. Também gosto de fotografar coisas feias, ou seja, não necessariamente um retrato bonito, que é difícil fazer. Mas às vezes interessa mais a estranheza das expressões do que a beleza evidente. Depois, claro que gosto dos cães e gatos como toda a gente (risos). Gosto muito do movimento e os animais têm isso, como são mais rápidos do que nós diverte-me fotografá-los em movimento quando zaragateiam ou andam à pancada. Já são várias coisas.

Seguimos para a próxima e avançamos 4 casas. Mais uma Pergunta da Sorte!

Pergunta da Sorte: Para além de fazeres a ponte de Brooklyn em patins, que mais desportos gostas de praticar?

I: Gosto muito de desportos em geral. Gosto imenso de andar de patins em linha, correr. Gosto de nadar, apesar de não ser grande nadador. Gosto de basquete, de kitesurf, skiingfrisby. Gosto de imensos desportos em geral. Vamos em frente!

E não é que se volta a lançar o dado e ele ganha vida rolando pelo pátio novamente?

I: Oi, espera, espera, espera. Não se pode tocar. Calhou dois.

Chegamos a uma nova casa, a do Pessoal, onde são feitas perguntas sobre a vida pessoal do artista.

Pessoal: Qual foi a coisa que te disseram que mais te marcou até hoje?

Esta, caro leitor, é uma pergunta que requer o seu tempo para refletir. Enquanto pensa, o Ivo arruma os cartões com as perguntas das casas temáticas.

I: Isto não é fácil.

Mais um baralhar de cartões, mais um pensamento ou outro e chegamos à resposta.

I: O meu pai há algum tempo disse-me para nunca parar de pensar. No sentido de nunca parar de fazer perguntas, de me questionar e de aproveitar cada momento para o fazer. Não nos distrairmos dessa possibilidade de fazer perguntas, de pensar, nem desperdiçarmos essa oportunidade. Em frente?

A: Sim (risos).

Desta vez os dados ditam que avancemos 3 casas, indo parar a uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Qual foi a primeira coisa que pensaste quando chegaste ao estúdio nos Estados Unidos?

I: Eu nos Estados Unidos nunca gravei. Ou seja, os estúdios em que eu entrei de séries americanas eram na Irlanda. A maior parte dos estúdios deles estão na Europa. Hungria, Irlanda, Budapeste e Dublin. Epah, a sensação é maravilhosa. Pelo cliché da dimensão e depois, porque o realizador foi muito generoso. Esteve ali uns cinco minutos sem nada para fazer e deu uma pequena tour aos cenários da série em três ou quatro estúdios. A dimensão e a beleza dos cenários era incrível. Foi muito excitante.

Ora mais uma voltinha ao dado. Duas casas à frente e nada, apenas fomos parar ao número 32.

I: Não se passa nada no 32! (risos) – querido leitor, é para ler com entoação dramática, ok?

Mais duas casas e nada! Apenas o número 34.

I: Dois. Nada, nada no 34! (risos) – agora, leitor, faz favor de manter a entoação dramática e acrescenta uma pitada de sentimento, ou para quem gosta de música, uma oitava acima.

Sai outra vez o número 2 no dado, mas agora lá decide deixar-nos continuar a jornada das perguntas. Chegamos a mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Qual foi a maior dificuldade por que já passaste a nível profissional?

I: Provavelmente quando sentes que tens uma menor capacidade de comunicação com outros setores do projeto e talvez só te apercebas disso a meio. É complicado gerir o teu trabalho, o ser criativo, sem uma comunicação e entendimento fluídos entre ambas as partes. Quando isso não acontece é difícil levares o barco a bom porto.

Cinco casas à frente e surpresa, surpresa, mais uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Que imagem têm dos atores portugueses nos Estados Unidos e o que tens feito para tentar entrar cada vez mais nas suas produções?

I: Não sei o que é que o mercado dos Estados Unidos poderá achar dos atores portugueses. Sei que quando andava na escola, no The Lee Strasberg Theatre and Film Institute, em Nova Iorque, havia vários portugueses lá. O feedback era de que nós seríamos uma mistura curiosa do ponto de vista da representação, entre o lado árabe e um certo perigo e exotismo associados. Um certo mistério, uma delicadeza misteriosa, mas possível de explodir a qualquer momento. Enquanto os brasileiros e italianos são naturalmente mais explosivos, nós mais calmos como uma granada. É mais essa energia. O que é que eu tenho feito? Tenho feito castings e enviado castings lá para fora. Ano sim, ano não, vou a Nova Iorque ou L.A. na altura dos episódios piloto, que são um mês ou dois em que há mais castings. Pronto, é tentar como toda a gente e ver se alguém repara, agarra e dá uma oportunidade.

Mais uma vez lança-se o dado e 4 casas à frente temos mais uma pergunta Pessoal.

Pessoal: Qual é o teu talento escondido?

I: Bom, eu em viagem sou excelente a organizar as malas das pessoas na parte de trás de um carro. Mas assim ao nível do espetacular. (risos) Consigo com facilidade encaixar um puzzle de três ou quatro pessoas milimetricamente acondicionado na parte detrás de um carro. Isso acho que é um talento escondido e não é muita gente que o conhece. Além desse, acho que tenho jeito para plantas, para jardinagem. Pelo menos não morrem todas no primeiro ano na minha mão. Já são dois talentos escondidos.

A: Não é fácil não morrerem.

I: É verdade.

A: Lá em casa não há nenhuma que sobreviva.

I: Ai é? Vocês limpam-nas todas?

A: Sim, é mais ou menos isso.

I: Um, dois, três, quatro, cinco. És tu!

Quase a chegar à casa final avançamos mais 5 casas e segue uma Pergunta da Sorte.

Pergunta da Sorte: Continuas apaixonado pelo teu trabalho? Com a mesma intensidade?

I: Sim, sim. Quer dizer, a força é capaz de ser diferente. Acho que geres a força de maneiras diferentes com a idade. Talvez a força seja diferente e a paixão seja a mesma. Mas a força, giro-a de forma diferente. Mas sim, gosto muito deste trabalho. – o Ivo sorri-se (aquele sorriso cá para dentro quando gostamos muito de alguma coisa, sabes leitor?)

Estamos perto, pertíssimo, da casa Gerador. Lança-se o dado e… sai o número 2, que nos dá direito a mais uma pergunta!

I: É o Pessoal?

A: É sim.

I: Ah, já estou a ficar um perito nisto!

Pessoal: O que mais repudias numa pessoa e o que mais gostas?

I: Detesto a mentira. O que mais admiro? Admiro muito um tipo específico de frontalidade. Há vários tipos de frontalidade e talvez a mais comum seja um bocadinho agressiva ou áspera, às vezes. Depois, há uma frontalidade que há poucas pessoas que são capazes de a ter e se calhar eu também não sei fazer bem. É uma frontalidade calma e assertiva quando se dizem coisas que o outro obviamente não irá gostar, mas que são ditas de uma forma que permite ao outro ouvi-las sem ter de se defender imediatamente. E se calhar, por ouvi-las, consegue fazer alguma coisa com essa frontalidade. São duas características que eu deteto. Eh lá! Estamos a chegar ao fim!

A: Estamos.

I: Agora atiro e…

E o quê, caro leitor? Então vamos lá aqui fazer um ponto de situação. Falta uma Pergunta da Sorte e a casa Gerador. Qual a probabilidade de ainda termos direito a mais perguntas, que não seja a que marca o final deste jogo, feita pelo convidado anterior? Sim, é para fazer a continha. Se tiveres matemática dá para treinar para o teste, se já não tiveres dá para ginasticar a massa cinzenta. Conta feita? Muito pequena, não é?

A probabilidade pode ser pequena, mas existe e neste caso falou mais alto.

I: UM!

E assim temos direito a mais uma Pergunta da Sorte!

A: Ainda vamos a mais uma (risos).

I: Isto é mesmo para render, estás a ver?

Pergunta da Sorte: Numa entrevista disseste que “a vida é mesmo sobre saber largar”. O que fazes para estares preparado para largares aquilo que tens?

I: São opções, não é? Se vais para um lado não podes ir para o outro. Se bem que há coisas que, independentemente do lado para onde vás, não tens de largar. Tens de te afastar, mas não tens de largar. Na amizade, no amor podes ganhar uma distância, mas está lá. Portanto não tens de largar. Mas geres, vais gerindo, e esperando que estejas a fazer as escolhas certas e mais balançadas entre a tua vida pessoal e profissional. Porque ambas se tocam e influenciam uma à outra, por isso é bom que decidas bem para as duas. Ambas te vão tocar, especialmente neste trabalho em que elas se alimentam, ou o oposto, esfaimam-se quando não são bem tratadas. E agora ganhei? Ganhei, obviamente…

A: Sim, ganhaste! Ganhaste mais uma pergunta da convidada anterior (risos).

Assim chegamos à casa Gerador, a casa final do jogo, onde o entrevistado deixa uma pergunta para o próximo convidado e responde à pergunta do anterior. Ainda se lembram da pergunta da Grada Kilomba? “Qual foi o último espaço que visitaste, com peças de arte, com música, com palavras, ou com livros que te transformou? Que te mudou por dentro e porquê? O que é que mudou?”. Podes rever a pergunta da Grada, também, aqui.

Vê o vídeo em baixo para saberes qual a pergunta que o Ivo deixou para o próximo convidado da Pergunta da Sorte! Vemo-nos em breve! ;-)

Entrevista por Andreia Monteiro