Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Disco Riscado: A cultura é a primeira a desbravar esse terreno incompreensível da esperança**

*Esta é uma crónica do Luís Sousa Ferreira, inicialmente publicada na Revista Gerador de setembro. No final…

Texto de Redação

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

*Esta é uma crónica do Luís Sousa Ferreira, inicialmente publicada na Revista Gerador de setembro.

No final de julho, o país acordou para as assimetrias territoriais. Números preliminares dos Censos2021 conseguiram trazer para o debate público as questões relativas à equidade do país. Percebemos que somos menos a viver em Portugal e que só 25 municípios, dentro dos 308 continentais, conseguiram segurar o seu balanço populacional. Exceto casos raros, os municípios não-costeiros não conseguiram aumentar a sua população e alguns perderam cerca de 10 % em 10 anos.

Estes números refletem não só a debandada da última crise, mas também uma crónica falta de estratégia para o interior do país. Durante a pandemia, foram evidenciadas as mais-valias de viver fora dos grandes centros urbanos, como a garantia de espaço e o contacto mais privilegiado com a natureza. No último verão, na impossibilidade de viajar para fora, ficámos a passear por Portugal. Descobrimos a pólvora: Surpreendidos por existirem efetivamente muitos tesouros escondidos, mas principalmente por desconhecermos o nosso país.

O desenvolvimento de um país não se vê só pela dinâmica dos seus grandes centros, mas pela forma como trata o seu espaço rural. Basta viajar um pouco pela Europa para ver exemplos de como há futuro para o interior. Estes lugares são guardiães do que nos é essencial, desde que as cadeias produtivas estejam ativas e as florestas mereçam ser chamadas disso. Contudo, neste momento, confundimos as invasões da grande indústria agrícola e a manutenção das monoculturas com exemplos de viabilidade do campo.

Enquanto o país debate o 5G, parte do seu interior não tem rede telefónica condigna ou sinal de Internet estável. Estes são bens essenciais que nos permitiriam trabalhar a partir de qualquer lado. O aumento do custo de vida nos grandes centros poderá ajudar muitos dos seus habitantes a questionarem se faz sentido permanecer por lá. Mas sem estas garantias mínimas, é inviável pensar na inversão do sentido do êxodo. São precisos incentivos do estado central e local, bem como das próprias comunidades, para dotar os lugares das condições mínimas para atrair novos moradores. A falta de oportunidades laborais é, efetivamente, um problema. Contudo, mesmo quando as há, como no caso da saúde, as vagas demoram a ser preenchidas. O que falta, essencialmente, são perspetivas positivas. Estratégias capacitantes e mobilizadoras que mostrem caminhos e lugares de oportunidade.

Todos queremos viver onde as coisas acontecem. E isto nada tem que ver com escala, até porque temos uma capacidade finita para absorver estímulos. Tem principalmente que ver com a sensação de que a vida não nos está a passar ao lado, que estamos a viver o hoje e nos sentimos parte de um todo, de uma comunidade. Não podemos estar presos a modelos de representatividade, a contar a história que não é nossa e, infelizmente, ainda é esse o lugar que reservamos para os territórios periféricos de Portugal.

O investimento sustentável na cultura potencia também a atratividade dos territórios e a fixação de mão de obra qualificada de uma forma generalizada. Para Portugal pode parecer uma miragem, mas a cultura é estratégica para o desenvolvimento económico da Europa, é a garantia de trabalho de centenas de milhares de pessoas. Neste momento, as áreas culturais empregam mais do dobro de trabalhadores do que as indústrias automóvel e de telecomunicações juntas e, antes da pandemia, cresciam a um ritmo bem mais acelerado do que a média da União Europeia, representado 4,4 % do PIB da UE.

Investir na cultura ajuda também a combater a extinção de ecossistemas culturais locais, alicerçados na transmissão oral. Todos os dias desaparecem pessoas que são verdadeiros documentos do que somos, sem terem conseguido passar o seu testemunho. Corpos impregnados de histórias, paisagens e modos de fazer. A cultura popular é a razão de um turismo com sentido e é, acima de tudo, testemunho de uma existência verdadeira em comunidade. Por outro lado, há um património edificado riquíssimo ao abandono. Vários países europeus estão a vender casas nos territórios de baixa densidade por um 1 euro. Se nada de real fizermos, muito em breve estaremos a pagar para se viver nesses lugares. Não defendo isso, antes muito pelo contrário. É na valorização do território que está o caminho.

Nos últimos meses, estive a trabalhar no Aldear a convite da Bússola. Um projeto promovido pela CIM [Comunidade Intermunicipal] do Tâmega e Sousa, que ativa 11 aldeias dos 11 municípios que a constituem. Ao longo de vários meses, 15 estruturas culturais nacionais, interessadas em projetos colaborativos, trabalharam com largas dezenas de estruturas culturais das comunidades. Daqui sugiram espetáculos, percursos e oficinas. A celebração final foi apenas uma resposta visível de um trabalho mais profundo, alicerçado na valorização do conhecimento local e no encontro. Sem representações nem cristalizações, trabalharam a partir das memórias, anseios e vontades de hoje. Mas o que mais destaco deste projeto é o seu caráter laboratorial. Na mesma dimensão que mostra às comunidades que o que elas têm para dizer é importante e que aqueles lugares têm futuro, mostra aos artistas que aqueles lugares são matéria efetiva de trabalho.

Sou regularmente convidado como jurado para a seleção de propostas artísticas que concorrem a financiamentos. Sinto que, de uma forma geral, as propostas dos jovens artistas estão guetizadas em si mesmas, alheias das referências e necessidades dos territórios. Alterações climáticas, transição digital, desertificação, envelhecimento, migrações, democracia, cultura de massas e respetivos monopólios económicos, são alguns dos atuais desafios da humanidade e muitos artistas ainda estão focados na «relação do corpo no espaço»… É certo que somos um país com público desvinculado da criação artística contemporânea, faltam-nos hábitos e referências. Só que a empatia tem de surgir nos dois sentidos. Ser contemporâneo é falar do hoje, das necessidades, dos anseios e da esperança que nos move. Tudo vai depender se os jovens têm ou não a consciência do que está em jogo no presente e no futuro. A cultura tem de desbravar o terreno incompreensível que somos nós.

**título de Maria Inês Santos

-Sobre o Luís Sousa Ferreira-

Formado em design industrial, é o diretor do 23 Milhas e fundador do festival Bons Sons. Não acredita que a cultura em Portugal precise de uma revolução, mas sim de uma mudança de prisma. É o autor da crónica «Disco Riscado» na Revista Gerador.

Texto de Luís Sousa Ferreira
Fotografia de Raul Pinto
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

Publicidade

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

11 Março 2024

Maternidades

28 Fevereiro 2024

Crise climática – votar não chega

25 Fevereiro 2024

Arquivos privados em Portugal: uma realidade negligenciada

21 Fevereiro 2024

Cristina Branco: da música por engomar

31 Janeiro 2024

Cultura e artes em 2024: as questões essenciais

18 Janeiro 2024

Disco Riscado: Caldo de números à moda nacional

17 Janeiro 2024

O resto é silêncio (revisitando Bernardo Sassetti)

10 Janeiro 2024

O country queer de Orville Peck

29 Dezembro 2023

Na terra dos sonhos mora um piano que afina com a voz de Jorge Palma

25 Dezembro 2023

Dos limites do humor

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Camila Romão sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0