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Cristina Branco: da música por engomar

Neste ensaio, Paulo Pires fala-nos sobre a evolução musical e artística de Cristina Branco ao longo da sua carreira, destacando a maturação identitária e a coesão sonora alcançadas na sua trilogia “Menina – Branco – Eva”.

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Falo, metaforicamente, de um branco – apelido da cantora Cristina Branco – multicolor, (teimosamente) por engomar, que aspira a ser menos denso e mais leve, que se pretende transparente e não opaco, que se agita livremente num estendal nómada ao sabor da intuição e do bom gosto, que preserva uma tonalidade “antiga”, basal, mas que, ao mesmo tempo, é cada vez mais poroso, que, por isso, não receia os abismos do novo nem refrescar-se em fontes com renovados matizes. A música da Cristina Branco é um pouco de tudo isto (e muito mais), ao longo de um inquieto e criativo trajecto de 25 anos, mas sobretudo, de modo musical e identitariamente ainda mais vincado e consolidado, a partir da sequência iniciada pelo premiado disco Menina (2016), a que se seguiram os marcantes Branco (2018) e Eva (2020).

Tomei contacto com a obra da Cristina através de uma amiga minha que viveu muitos anos na Holanda, em Amesterdão, e que, numa conversa ao serão, junto à lareira, em Silves numa fria noite de 2008, me mostrou o seu primeiro disco, Cristina Branco in Holland (Live), de 1997. Desde então, confesso que o espanto e o encantamento não pararam de crescer em mim face à sua postura pessoalíssima e elegante no modo de abordar a poesia e a musicalidade daquelas “palavras que nos beijam como se tivessem boca” (O’Neill).

Mas, a meu ver, é com esta trilogia Menina – Branco – Eva que a cantora atinge um patamar de maturação identitária e de coesão sonora/musical nunca antes alcançado, não obstante várias experiências e variações/inovações que foi efectivando, em maior ou menor grau, em trabalhos anteriores, sempre num trânsito estético crescente, e em duplo sentido, entre tradição (o fado, os fados) e contemporaneidade (o registo jazzístico, a world music e outras dimensões de fusão).

Numa visão transversal, várias argamassas alicerçam estes três icónicos discos: na vertente poética, a reflexão e questionamento sobre a essência do feminino, seus labirintos e fascínios, claridades e sombras, mistérios e contradições, dramas e alegrias, forças e fragilidades, verdades e ilusões – no fundo, a(s) mulher(es) ao espelho, em interrogação; na componente instrumental, uma sonoridade fresca e nova, voraz e moderna, de quem está ávido de mundo, a que não faltam, aqui e ali, ironia e dramatismo; e na vertente compositiva, a participação de diversos protagonistas da nova música portuguesa (mais ou menos conhecidos, de diferentes quadrantes estéticos e percursos artísticos), a que se somam vários autores consagrados e outras presenças já habituais na sua discografia.

Essa multiplicidade de vozes e mundividências ganha depois uma cativante unidade, coerência e consistência nesta trilogia – que marca uma clara transição evolutiva na carreira de Cristina (que ela, por seu lado, interpreta como um regresso, mais tarde, à juventude e a uma liberdade maior) –, graças quer à forma fluida como as letras se colam à sua pele, numa verdade natural plena de sensibilidade e bom gosto, quer aos certeiros e sensíveis arranjos aplicados aos temas pela cantora e seu trio de inspiradores músicos (Luís Figueiredo no piano, Bernardo Moreira no contrabaixo e Bernardo Couto na guitarra portuguesa), quer ainda à singular e despretensiosa capacidade da intérprete nascida em Almeirim de agarrar e se apropriar das palavras, de as “atacar” e fazer suas – tal como ela admirava no canto de Amália.

Cristina Branco olha, assim, para si mesma através das letras e composições de outros, mostrando-nos que, no fundo, a música não serve para nos dar roupagens, mas para nos deixar descobertos, mais desnudados. E esse grau de exposição é ainda mais evidente quando as linhas melódicas das suas canções se ancoram nas texturas sonoras urdidas primorosamente pelo triângulo amoroso piano-contrabaixo-guitarra portuguesa, formação-base que a cantora adoptou desde o disco Alegria (2013) até à actualidade. E aqui reside um dos traços mais idiossincráticos e, por isso, atractivos deste agrupamento a que Branco dá voz: a depuração, a essencialidade e o realismo minimal(izado) da sua sonoridade, tal como ela efectivamente é, em que todos os intervenientes estão extremamente expostos, com menos “rede” (só há mãos e cordas), e em que, ao mesmo tempo, há mais espaço para ouvir a voz (e para os silêncios). Sem percussões (penso nas tentadoras baterias) nem electrónicas.

O primeiro single do disco Menina, “E às vezes dou por mim” (de André Henriques e Filho da Mãe), é um exemplo paradigmático de duas outras características estilísticas da sonoridade deste trio que tem acompanhado a Cristina. Por um lado, a assunção de uma espécie de tensão-base (das cordas, das teclas) que é propulsora e intensificadora da canção, e que desemboca no refrão, “abrindo” a melodia como um rio que, após correr incessantemente, desagua, ansiosamente ou não, no vasto mar. Já dizia o poeta Jorge Sousa Braga: “É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós.” Por outro, torna-se evidente a propensão experimental e o espírito de desconstrução que presidem à arquitectura dos arranjos de inúmeras canções, patentes nas intros, transições/bridges, variações, linhas melódicas paralelas, interlúdios, respostas, desenho dos silêncios, dinâmicas dialógicas entre voz e instrumentos (e destes entre si), desfechos.

Menina encerra ainda outras preciosidades: o belíssimo tema “Quando julgas que me amas” (poema de António Lobo Antunes e música de Mário Laginha), talvez a canção atmosfericamente mais delicada e intimista do disco, interpretada em pinças e de modo minimalizante por Branco, acompanhada pelo piano e contrabaixo; ou a faixa “Saber aqui estar”, com ecos familiares do universo dos Deolinda (pela dupla Pedro da Silva Martins e Luís José Martins), numa espécie de lúcido manifesto em favor da não acomodação, do risco, do errar melhor, da capacidade de sair da ilha para ver melhor a ilha (mas também de permanecer na ilha): “saber aqui estar é bom / e saber não estar também”; “tenta, tenta só mais um pouco”; “sair daquilo que pensas”.

Outra canção na mesma linha (a única versão deste álbum) é “Ai, esta pena de mim”, de Amália Rodrigues (letra) e do guitarrista José António Guimarães Serôdio (música), gravada inicialmente em 1968 – em que agora a banda optou, por contraponto à versão amaliana, por abordar o tema num duplo registo: na primeira parte, de modo despido e com maior lentidão, só com voz e contrabaixo, acentuando, pelo despojamento instrumental e cadência rítmica, a carga dramática da letra; e na segunda metade, de forma mais ritmada e andante, em jeito de fado corrido, com toda a banda a seguir a cantora.

Uma nota ainda para algumas deambulações criativas que pontuam dois temas do mesmo disco: “Alvorada” e “Não há ponte sem nós”. No primeiro, a abordagem vocal mais “teatralizante” de Branco e as dinâmicas entre o teclado Hammond de Figueiredo (que na primeira parte tem uma função harmónica e rítmica, de acompanhamento, e no refrão opta por notas longas para “espraiar” mais a canção) e a guitarra portuguesa de Couto (no início marcando os acordes, timbricamente quase como um ukulele, e no refrão recorrendo a escalas e variações saturando mais esta secção por contraste com as notas longas do teclado). Já no segundo tema aludido, novamente um diálogo cúmplice entre piano e guitarra, quer no incipit,quer nas demais secções A da canção, quer no desfecho, com uma abordagem minimal, entre pontilhista e gotejante.

O disco Branco, por seu lado, revela-se um trabalho mais maduro, de charneira, ao passo que Menina assumia-se ainda como uma transição para algo novo, que estava ainda por vir em modo pleno. Com 12 faixas, este álbum é, na minha opinião, um dos discos mais bem conseguidos da música portuguesa cantada no feminino dos últimos vinte anos – poderia juntá-lo, nessa lista restrita, a’O Primeiro Canto (1999), de Dulce Pontes, ao Leva-me aos Fados (2009), de Ana Moura, ou ao 2 de Abril (2022), d’A Garota Não. Todos eles trabalhos onde não existem canções menos conseguidas, dotados de setlists cativantes e irrepreensíveis, e em que a qualidade das letras e dos arranjos e a performance vocal surgem num nível claramente diferenciador, marcante e, sem dúvida, referencial para tudo o que venha a ser produzido nestes universos musicais híbridos de onde brotam obras superlativas.

Neste álbum fala-se do que é normal na sua multiplicidade e complexidade, da actualidade, do que está a acontecer nas ruas e nas vidas das pessoas – sem filtros ou véus. É um disco que, mais uma vez, convoca múltiplos protagonistas na vertente composicional e apresenta várias linguagens, em que o fado, o jazz e as influências do Brasil e de África se entrecruzam com aquela coerência e organicidade finais a que este peculiar quarteto já nos habituou. Diria que há menos densidade e peso neste disco (relativamente a trabalhos anteriores), mas há mais luz, frescura, leveza (aqui e ali idílica e luxuriante), silêncio (tirar sons, destapar coisas) e profundidade musical. Leveza e complexidade podem, assim, coabitar na mesma casa, segundo Branco e seus inquilinos.

Em Branco, Cristina exponencia os seus elegantes recursos interpretativos, dando a cada canção o que esta requer, e os seus músicos desdobram-se e reinventam-se criativamente entre as dimensões melódica, harmónica e rítmica, invertendo e trocando de papéis, ora intensificando, ora contendo, e extraindo dos seus instrumentos, sem preconceitos nem ideias rígidas, todo o potencial expressivo e plástico possível.

Um dia perguntaram a Cristina Branco numa entrevista como se definia enquanto artista, ao que a cantora respondeu: “Alguém que leva este ofício da música muito a sério, mas com a leveza de quem carrega um balão pelos ares, com a graça de quem está bem assim.” Esta poderia ser, perfeitamente, a imagem-metáfora e o mote ideal para este inspirado(r) disco.

Com quatro faixas fortíssimas logo a abrir (“Este corpo”, “Eu por engomar”, “Aula de natação” e “Namora comigo”), Branco revisita temáticas como: o cansaço/desencanto perante o que resta quando já se viu e experimentou tudo (“E agora vou calar este corpo / Já não peço o que falta / Por não ter o que falta”); o desgaste resultante da inexorável passagem do tempo numa óptica de aceitação do quotidiano; trajectos de vida salpicados por uma tonalidade humorística; e o amor nas suas dimensões pueril e mundana/desenfreada.

Certas canções são muito dominadas pelo visualismo em termos de arquitectura instrumental (“Este corpo”, “Casa”), não faltando introspecções, solidão, histórias que ficaram na iminência de acontecer, mágoas carpidas. “Perto”, com letra e música de Afonso Cabral, é, na minha óptica, uma das faixas mais belas deste Branco, iniciando-se com os passos dos músicos e destacando-se um refrão de enorme beleza, em que Cristina Branco espraia todo o seu talento na interacção emocional e interpretativa com o verbo.

A tensão instrumental, percutiva, continua igualmente a ser uma tónica em várias canções de Branco, sobretudo na secção do refrão (“Este corpo” ou “Rossio”), e a guitarra portuguesa de Couto atinge mesmo assinaláveis níveis de inventividade nos arranjos, com especial ênfase para temas como “Este corpo”, “Aula de natação” ou “Namora comigo”, onde abundam cativantes camadas melódicas, variações, contrapontos e progressões harmónicas. E, tal como em Menina, é novamente uma canção mais enquadrada na atmosfera fadística que é escolhida para encerrar o alinhamento, aqui pela mão de Luís Severo.

Dois denominadores comuns acabam, assim, por perpassar, em maior ou menor grau, todo o álbum: a reflexão sobre a passagem do tempo; e o questionar permanente do adquirido – “O tempo dá / O tempo tira / O tempo cobra” são versos cantados no tema “Eu por engomar”. Equilíbrio, coerência, arrojo e diversidade retratam bem Branco, numa confirmação daquilo em que este quarteto é sublime: na fluidez e consistência sonoras globais, nas atenuações e incrementos de intensidade, no domínio exímio das gradações, transições e silêncios.

Mas este belíssimo disco não é apenas um objecto sonoro. É uma obra conceptual que também se afirma pela dimensão visual, resultante do trabalho plástico e cinemático da realizadora e fotógrafa Joana Linda, que assina o tríptico de videoclipes, gravados na Madeira, relativos aos primeiros três temas do disco.

Essa relevância concedida ao conceito artístico é igualmente visível no disco Eva, de 2020. Mais um trabalho com um título autorreferencial, remetendo para Eva Haussman, alter ego criado pela cantora (com existência, por exemplo, nas redes sociais) há mais de 15 anos, num momento de isolamento e silêncio na Dinamarca. É, mais uma vez, o “retrato de alguém em tempo de mudança” e a assunção do corpo e mente femininos como lugares de resistência. A necessidade de desnudar determinadas coisas da sua vida e da sua personalidade, fazendo da música um passaporte para a catarse, atinge neste álbum um expoente maior. É um exercício de exposição da intimidade, de transparência e verdade, de confronto consigo mesma e os outros.

Eva é um disco que celebra a libertas da mulher como premissa maior, a não sujeição a regras e modelos fossilizados e a ideias esclerosadas; que canta a nudez e a coragem de quem chegou a um ponto da vida em que não necessita de validação do outro para continuar em frente nem tem receio de se confrontar consigo própria e com a realidade que a circunda: “nunca mais ter de me explicar com delicadeza”. Um álbum que é também uma prova de esforço (como a vida), uma limpeza dos excessos que se carrega e uma autêntica purgação do ser para expelir certos elementos e acolher/iluminar outros – daí Cristina se referir a este objecto discográfico como o seu maior exercício de psicanálise até hoje.

Temas bem conseguidos do ponto de vista composicional e musical, e que são faróis deste disco, como “Delicadeza”, “Quando eu quiser”, “Prova de esforço” ou “Mau feitio” – os quatro com videoclipes gravados em Loulé no âmbito de uma residência artística promovida pela autarquia, a qual tive a felicidade de coordenar e acompanhar de perto –, acabam por sintetizar bem essa ideia central em que Cristina Branco insiste e aprofunda: o corpo e a mente da mulher como lugar de emancipação e livre-arbítrio (“só quando eu quiser”; “quero fruir da minha forma e matar a minha fome”), auto-estima (“sei que o meu amor sou eu”), resistência (“hei-de me salvar”; “a vida é uma prova de esforço”) e crescimento (“já não me trava o medo de falhar / brinco com o fogo até me queimar”, “também eu preciso [de] dar umas voltas à vida”).

O videoclipe do tema “Delicadeza”, em que Cristina faz uma incursão “arqueológica” aos meandros dos trabalhos dos dias, a 230 metros de profundidade (30 metros abaixo do nível médio das águas do mar) na mina de Sal-Gema em Loulé – numa espécie de antinomia entre a leveza do título da canção e a dureza do contexto escolhido para a filmagem –, não deixa de ser metaforicamente ilustrativo do anteriormente dito. O que se trata aqui, no fundo, é do esforço e coragem necessários para descer às profundezas (do ser) e para enfrentar demónios e anjos, para o reencontro com o que estava perdido, empoeirado, esquecido, para resistir e ao mesmo tempo crescer e evoluir para outros lugares. Mas também de ascensão (no elevador da mina), de uma Eva que sai da escuridão para se erguer e procurar uma luz, um caminho novo/renovado.

O certeiro refrão lírico de “Delicadeza” transmite, aliás, duas ideias centrais no imaginário e postura da cantora: a apologia da independência do indivíduo, onde não haja lugar a manipulações delicadas, subtis e engenhosas pelo outro/colectivo (que nem José Régio num poema intemporal: “Ninguém me diga: ‘vem por aqui’!”); e a não identificação com a “obrigação” de ter de se explicar e dar satisfações à sociedade, e de ter de defender tímida e polidamente as suas posições.

Perpassando os três discos, há sempre um ímpeto de experimentar, de questionar, de “dar o passo perante o abismo [e] não saber o que vem a seguir”, como Cristina diria certa vez. Para se libertar, para se refrescar, para estar sempre a inventar o seu (e o nosso) futuro. Desfila perante nós uma constante procura, a insatisfação, a fuga do óbvio, o romper dos cânones: “Faz a tua diferença / ou pelo menos tenta”, canta ela no já referido tema “Saber aqui estar”, do disco Menina.

E aqui como não enfatizar o notório e crescente trabalho de pesquisa e aprofundamento vocais da Cristina quando se ouve estas canções? Do fado, do qual nunca se separou completamente, ficou-lhe uma poética que se traduz na forma de olhar para as palavras, de as acolher e mergulhar nelas, de as intensificar e lhes conferir verdade. Mais do que potência, amplitude ou técnica pura e dura, o seu processo criativo centra-se sobretudo na apropriação, imersão e busca de uma interpretação própria, ou seja, na forma de contar e modular a história e, ao mesmo tempo, de flutuar na música. Ter múltiplas gavetas na sua cabeça e saber exactamente (e controlar possessivamente) o que quer com/na/da sua voz (maior ou menor emoção, movimento, teatralidade), quer seja num registo mais introspectivo e solene, quer seja quando os versos são mais ligeiros, leves ou festivos, assumindo também esta dimensão no canto. Sempre com respeito pelas palavras, numa entoação que exala elegância, classe e um balanço feliz e criativo entre contenção e intensidade. E para isso Cristina Branco sabe que é preciso experiência, idade e densidade – para se poder acertar no centro das palavras.

A cantora ribatejana é esse alguém que mergulha, de olhos fechados, num quadro multicolor de Pollock – aquele que, através da técnica do dripping (gotejamento), sem cavaletes nem pincéis, pintava com a tela colocada no chão para se sentir mais dentro do quadro – e se deleita com isso, que abraça, sem rótulos ou receios, a liberdade criativa, que fala (amorosamente) de pessoas, de humanidade, de espelhos, de ser mulher. Alguém que se lança para o (des)conhecido e constrói um lugar sempre novo para a sua emoção na sua voz “normal”. Além de conseguir convocar universos e referências bem diferentes, ao mesmo tempo aprofunda e assegura um lugar muito seu, um estilo que está ancorado sobretudo na excepcionalidade do seu instrumento de eleição: a voz.

Para ela o foco consiste na busca da organicidade, no assumir da responsabilidade de – perante a música como algo que interpreta a vida como ela é, na sua complexidade e diversidade – dar um sopro vital a uma história, mensagem, estado de espírito. O desafio maior, entre liberdade e sede de aprender, é, assim, sempre a de uma operária em construção: edificar, fazer mais e melhor, entrar dentro das letras e músicas que acolhe, desenhar um quadro sobre o outro que é também, necessariamente, uma janela para si mesma.

Mas uma intérprete não vive plenamente sem os fazedores das paisagens sonoras instrumentais em que se espraia e deambula criativamente (e vice-versa). À voz de Cristina junta-se o piano como guia e pêndulo, o contrabaixo como base-almofada e a guitarra portuguesa como adorno criativo. Este quarteto prima por três características que fazem dele um dos colectivos musicais mais interessantes e singulares da cena nacional: coesão sonora, consistência interpretativa e cumplicidade humana. Esta rara unidade, feita de talento, respeito e admiração mútuos, manifesta-se, em estúdio e ao vivo, nas coisas mais simples e também nos grandes empreendimentos musicais, como tantas vezes tive oportunidade de comprovar.

Move-os uma atenção sensível e plena de bom gosto à filigrana, ao detalhe, à nuance, à improvisação oportuna e cirúrgica, à forma de modelar as aberturas, os desfechos, as transições, aos silêncios plenos de sentido, às palavras e sua substância, sonoridade e ressonância, à delicadeza, àquela contenção que não é sinónimo de menor expressividade (e que alternam com explosões bem temperadas), a uma simplicidade elegante em que, não poucas vezes, “less is more”, despojando e limpando para superlativizar o resultado final.

Escrevo estas linhas finais revisitando, em loop, o tema “Leva” (do disco Eva), o qual me toca particularmente, exemplo perfeito da beleza da simplicidade, aqui sem grandes inventividades ou floreados na construção da canção. Versos tranquilos, lúcidos e confiantes, escritos pela Márcia e cantados-esculpidos pela Cristina como só ela o sabe fazer. Com aquela verdade de quem sabe que vai ficar e onde vai ficar, mesmo que nem tudo seja para compreender; e de quem acredita que “hás-de ter o que alcançar” e que “no momento que atravessares / vais saber de cor / que o teu amor / é o melhor que tens para dar”. Fazer da sede e da dor o motor para avançar: haverá algo mais real?

Em Setembro de 2023, surge Mãe, um álbum em que esta cantora-perscrutadora regressa à casa-mãe do fado, opção porventura pouco expectável nesta fase da sua carreira (até a julgar pelos discos anteriores), ou não. Na verdade, o universo fadístico sempre foi a sua referência maior e o seu principal porto de partida para outras viagens do corpo e do espírito. Este novo disco, o 18.º em 26 anos de percurso artístico, é, de facto, um mergulho maduro e amadurecido no fado tradicional como Cristina nunca experimentou, entre temas da tradição e propostas originais com contributos de luxo. Aprendizagem e (re)descoberta, numa aproximação musical que, mais uma vez, conjuga, de modo diferenciado, reverência e arrojo, algo a que já nos habituou. Aliás, o seu inspirado(r) e brilhante concerto realizado no CCB, em Lisboa, no passado dia 2 de Fevereiro, no âmbito do ciclo “Há Fado no Cais” promovido pelo Museu do Fado, só veio sublinhar o ADN maior deste projecto em quarteto: uma coesão, fluidez e inventividade, como que em filigrana (não há, talvez, termos mais adequados), plenas de verdade e beleza – um caso muito singular no panorama musical português.

*Texto escrito ao abrigo da antigo Acordo Ortográfico.

Sobre Paulo Pires

Paulo Pires é gestor cultural e programador. Tem um percurso profissional de mais de 20 anos nas áreas da cultura, artes, criatividade e mediação.
Foi assessor cultural da Presidência da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, adjunto da ex-Ministra da Cultura, assessor do Director-Geral das Artes, director de Departamento de Cultura e Turismo da Câmara Municipal de Coimbra, director artístico do Convento São Francisco, programador no Município de Loulé e coordenador da programação cultural no Município de Silves, entre outras funções. 
Actualmente, é chefe de Divisão de Investigação e Dinamização Cultural na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, I.P..
Autor da obra Escrytos – crónicas e ensaios sobre cultura contemporânea (2017), editada por João Paulo Cotrim - estando no prelo um segundo volume para este ano -, assina inúmeras palestras, moderações, cursos e artigos de opinião sobre estas temáticas.
Escreve regularmente no Ípsilon/Público, Gerador, NOVO, Observador e Expresso.

Texto de Paulo Pires

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