Num país dominado pelo eucalipto – uma “planta perigosa” e “altamente inflamável” –, o Movimento Gaio está a tentar remar contra a maré e a reflorestar o território nacional com espécies autóctones. É isso que quer fazer no hectare da serra da Freita que planeia comprar com os fundos recolhidos através de uma campanha de crowdfunding recentemente lançada nesse sentido. Chama-se “Devolver à serra o que o fogo roubou” e pretende deixar às “gerações que aí vêm” um pedaço de “património intocável”.
Numa conversa por telefone, Teresa Markowsky, cofundadora desta associação, explica-nos como surgiu esta iniciativa e que implicações terá. A responsável revela ainda a história e as prioridades do Movimento Gaio, salientando que “toda a gestão do território está a ser mal feita”.
Gerador (G.) – A associação Movimento Gaio lançou, no final de março, uma campanha de crowdfunding para comprar um hectare de matos na serra da Freita, em Arouca. Como surgiu essa iniciativa?
Teresa Markowsky (T. M.) – Adquirir um terreno para converter numa área com árvores autóctones, uma área bonita já era um desejo da associação há muito tempo. A campanha chama-se “Devolver à serra o que o fogo roubou”. Surgiu a oportunidade de [adquirir o terreno em causa] a um senhor já com uma certa idade, [sendo que essa propriedade fica] mesmo à entrada de um dos baldios em que estamos a trabalhar na serra da Freita. Negociamos. O senhor fez um preço razoável e a associação lançou uma campanha de crowdfunding com este objetivo. O terreno fica logo à entrada da aldeia e, por isso, é de máxima importância retirar os eucaliptos, de modo que esse terreno – e pensando já em encontrar outros terrenos – fique para aqueles que vêm aí, que seja um património intocável. É a forma que consideramos melhor: adquirir terrenos, transformá-los naquilo que eram antes e, assim, recuperar a serra.
G. – Escolheram uma zona que fica próxima de um baldio onde já têm 25 hectares de área reflorestada. Porquê?
T. M. – Fica mesmo à entrada desse baldio. Os baldios são áreas comuns, que são geridas por uma associação de compartes, que são [constituídas] por pessoas da própria aldeia, que vivem ali ou que têm terrenos. Trabalhamos com baldios, mas não podemos fazer parte da associação de compartes se não tivermos uma moradia, um terreno ou uma propriedade. [A aquisição do terreno em questão] fará com que passemos a poder pertencer à associação de compartes e ter uma voz para influenciar mais as pessoas [no sentido do] trabalho que estamos a fazer de recuperação das áreas ardidas, nesses baldios. Aliás, somos a única associação que está a trabalhar na reflorestação na serra da Freita, no município de Arouca. Estávamos a trabalhar antes dos grandes incêndios de 2016, que dizimaram a serra, e nunca paramos. Já temos uma imensa área reflorestada e vamos continuar.
G. – Se não conseguirem adquirir esta nova propriedade, o trabalho feito até aqui, nos tais 25 hectares, fica mais exposto à ameaça de um eventual incêndio?
T. M. – [A propriedade] ficaria abandonada, como ficam a maior parte dos terrenos. As pessoas envelhecem e, muitas vezes, [os terrenos] ficam para herdeiros, que nunca lá vão. Ficam ao abandono, ao desleixo. É do máximo interesse que alguém recupere o terreno, que tem uma linha de água. Cada vez mais, as secas são terríveis não só na serra da Freita, mas em todo o país. Reconverter estes terrenos e recuperar essas linhas de água com árvores decíduas é essencial. A associação vai adquirir o terreno de uma forma altruísta para o dar às gerações que aí vêm. É sempre esse o nosso objetivo: a preocupação com as próximas gerações.
G. – O vosso objetivo é angariar quatro mil euros. Como tem corrido a recolha de fundos?
T. M. – O crowdfunding funciona como uma bola de neve. A campanha foi lançada e as pessoas estão a partilhar. Já temos quase dois mil euros. Está [a correr] bem. As pessoas estão a ser generosas.

G. – Que avaliação faz o Movimento Gaio do papel do Estado na proteção da serra da Freita?
T. M. – Não gosto de criticar. Começámos a fazer este tipo de trabalho por ver a indiferença do Estado perante não só os incêndios, como, depois, a desflorestação. Acredito mais em movimentos civis bem dirigidos e com formação – esses conseguem fazer [o trabalho] imediatamente no terreno – do que em projetos e naquelas candidaturas que geram muito dinheiro, em que é tudo muito florido, aparece muita gente, mas depois não acontece nada e as coisas ficam por ali. O tipo de trabalho que fazemos tem de ser contínuo, sempre no terreno e, como ninguém nos paga, [temos de ter] ainda mais motivação e inspiração para fazer o que deve ser feito.
G. – Quanto ao Movimento Gaio, esta associação surgiu em 2010. Que cenário e objetivos estiveram na sua origem?
T. M. – Eu e o meu marido gostávamos muito do Parque Nacional da Peneda-Gerês e era aí que íamos sempre nas férias para usufruir da sua beleza. Em 2010, o parque ardeu. Foi um dos maiores incêndios num parque nacional, que não tem guardas-florestais, nem tem implementado um serviço florestal. Começamos a entender que o parque estava disfuncional, porque, caso contrário, não teria ardido da forma como ardeu. Surgiu uma revolta muito grande e, naquele momento, decidimos fazer um movimento e criar um projeto para recuperar áreas ardidas. Tentámos no Parque Nacional e fizemos várias plantações, mas era muito difícil, os protocolos eram muito complicados. Depois, surgiu a oportunidade de vir para a serra da Freita e trabalhar com baldios. Estamos envolvidos na rede Natura 2000,[no âmbito da qual] é proibido plantar eucaliptos em baldios. Por isso, tínhamos mais condições [para levar a cabo o trabalho] e ficamos por ali.
G. – Com quantos sócios e voluntários contam hoje?
T. M. – Temos à volta de 200 sócios, mas tivemos sempre muito voluntariado, tanto nacional como internacional, de outras organizações não governamentais, que têm visto a simplicidade e a forma como trabalhamos. Mesmo na altura do confinamento, conseguimos ter grupos de voluntários que nos foram ajudar. Continuamos a trabalhar com todas as precauções. A grande preocupação foi sempre envolver a população local. É muito difícil, mas, neste momento, contamos também com muitos voluntários daquela zona.
G. – Até agora, o Movimento Gaio já reflorestou 29 hectares de terrenos na serra da Freita. Esse trabalho foi feito através de crowdfunding ou de outros instrumentos?
T. M. – Não foi por via de crowdfunding. Por exemplo, construímos um tanque numa das plantações e montamos um sistema de rega [com o apoio] de uma organização não governamental, que já tinha trabalhado connosco durante vários anos. [Além disso], temos tido apoio de empresas, como a STIHL [fábrica alemã]. Há também o dinheiro das quotas e o trabalho dos voluntários. Trabalho mais altruísta é impossível.

G. – Têm também um foco na construção de reservatórios de água. Em maior detalhe, o que fazem nesse sentido?
T. M. – Sim, foi a nossa preocupação depois dos incêndios: criar tanques para a montagem de sistemas de rega gota a gota, nos períodos mais secos – as plantas sofrem imenso, porque não há chuva – e para o abastecimento de helicópteros em caso de incêndio.
G. – A seca que Portugal tem vivido nos últimos meses mostra que não estamos a fazer o suficiente para gerir de forma eficiente os recursos hídricos? O que está a falhar?
T. M. – As secas que têm acontecido em todo o mundo são resultado da desflorestação, do corte intensivo de florestas e de árvores autóctones para [serem plantados] eucaliptos, que sugam toda água. Está montado um quadro terrível. Temos quase 90 % do território de Portugal reflorestado com eucalipto, uma planta que não é a nossa, é perigosa, é altamente inflamável e suga toda a água. Já para não falar do que se passa lá em baixo, no sul. Toda a gestão do território está a ser mal feita. Fazemos o que podemos, naquela parte da serra da Freita.
G. – Mas teria de haver uma ação mais coordenada e em maior escala?
T. M. – Claro, isso tinha de ser tomado como prioridade, não só em Portugal, como em todos os países.

G. – Quais os próximos passos para o Movimento Gaio?
T. M. – Os nossos recursos são limitados. [O trabalho em questão] exige um esforço muito grande da nossa parte e queremos fazer mais e melhor. Um apoio estatal faria com que o nosso trabalho pudesse ser feito de outra forma ainda melhor. A nossa preocupação, neste momento, não é andar a reflorestar muito terreno, mas, principalmente, manter os 29 hectares que já temos reflorestados. Neste momento, estamos a fazer [também] a limpeza de matos voluntariamente. Seria muito bom ter mais apoio e reconhecimento da autarquia.