Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Texto de Leitor

Carta do Leitor: Ainda arde

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de Guilherme Teixeira da Silva, que nos fala do flagelo dos incêndios e das suas repercussões.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Novamente incêndios. Meus sentidos pêsames a todas as vítimas dos incêndios. A tristeza que me toca, chama-se reincidência. Quando para esse looping? Disse uma vez Pepe Mujica, “o bicho humano é o único animal que tropeça 20 vezes na mesma pedra”. Assistimos outra vez a uma severa temporada de incêndios, no meu caso assisti ao vivo, a cores e fumo. Resido na Covilhã e, por qualquer canto, travessa ou viela desta cidade, era possível perceber o que estava acontecendo, a nuvem pyrocumulos tornou a bucólica paisagem da Serra da Estrela em dantesca.

Grandes áreas do território português são anualmente queimadas por incêndios florestais, a degradação da paisagem é contínua e progressiva. Ao apagar das chamas, apontam-se culpados, os média publicitam os factos, orientam-se meios de combate mais eficientes, mas raramente os esforços são direcionados para as consequências. Normalmente as áreas ardidas não são objeto de reabilitação ou recuperação, ficam abandonadas à sua sorte e autorregeneram-se de forma descontrolada. As consequências não esvanecem no ar com abrandar dos fumos, perduram além da extinção dos incêndios. Estamos a encarar a situação de maneira reativa. Para pôr travão a reincidência, primeiramente torna-se fulcral, “perceber que se o fogo é um processo ecológico, os incêndios são uma construção social, pois têm origem na interdependência entre os sistemas humanos e naturais” (Tedim & Leone, 2017, p. 398). À ocorrência, frequência, intensidade, severidade etc., dos incêndios estão relacionadas com as ações e influências da humanidade sobre o ambiente. A intervenção antrópica provoca constantes mudanças das características originais do meio ambiente, refletindo no comportamento dos incêndios, tornando os incêndios mais robustos e mais difíceis de serem debelados.

Traduzindo em bom português, certamente escutou “foi fogo posto, é preciso pegar esse piromaníaco”. Dados estatísticos da Autoridade Florestal Nacional sugerem que entre 20% e 30% dos incêndios são propositais, os chamados fogos postos. Os incêndios intencionais, por fogo posto, podem não representar um grande número, mas não significa que a maioria dos incêndios não sejam oriundos das atividades humanas. Aproximadamente 90% das ignições dos incêndios em Portugal decorrem das intervenções do homem. Estradas, motores, geradores, linhas e postes de transmissão elétrica de alta tensão, beatas de cigarro, resíduos metálicos e vidros, entre outras causas de ignição. É justamente a intervenção antrópica que faz soar os alarmes de catástrofes, a ação humana negligenciada com o ambiente, pode deflagrar incêndios e potenciar consequências caóticas. A realidade atual é composta por uma paisagem marcada por interações urbano-florestais, com o campo próximo da cidade ou vice-versa, acentuando as proporções dos incêndios.

A repetição da frase “fogo posto” empregada nas ruas, na Assembleia, em Belém e em São Bento, é um estratagema. É sabido e notório o esvaziamento e abandono do interior, o desordenamento do território, a substituição da flora autóctone em detrimento de eucalipto e outras espécies invasoras, a falta de educação e gestão florestal/ambiental, gases com efeito estufa, aquecimento global etc. (fique à vontadinha para aumentar essa lista). Temos que encontrar alternativas para o “é o que é”. O fogo que arde, neste caso não é o do conhecimento, que Prometeu ofereceu aos humanos segundo a alegoria mitológica. No entanto, parece-me que assim como o titã, estamos condenados a um ciclo de dor e sofrimento.

Se quiseres ver um texto teu publicado no nosso site, basta enviares-nos o teu texto, com um máximo de 4000 caracteres incluindo espaços, para o ge***@*****or.eu, juntamente com o nome com que o queres assinar. Sabe mais, aqui.
Texto de Guilherme Teixeira da Silva

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

3 Outubro 2024

Carta do Leitor: A esquizofrenia do Orçamento

12 Setembro 2024

Carta do Leitor: Por filósofos na sala de aula

29 Agosto 2024

Carta do Leitor: GranTurismo de esplanadas

22 Agosto 2024

Carta do Leitor: Prémios, diversidade e (in)visibilidade cultural

1 Agosto 2024

Carta do Leitor: Sintomas de uma imigração mal prevista

18 Julho 2024

Carta do Leitor: Admitir que não existem minorias a partir de um lugar de (semi)privilégio é uma veleidade e uma hipocrisia

11 Julho 2024

Carta do Leitor: Afinar a curiosidade na apressada multidão

3 Julho 2024

Carta do Leitor: Programação do Esquecimento

23 Maio 2024

Carta do Leitor: O que a Europa faz por mim

16 Maio 2024

Carta do Leitor: Hoje o elefante. Amanhã o rato

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0