Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Miguel Villa de Freitas

Carta do Leitor: GranTurismo de esplanadas

A Carta do Leitor de hoje, chega-nos pelas mãos de Miguel Villa de Freitas, que reflete, com Itália como pano de fundo.

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Siena

Um dos primeiros textos que escrevi sem falar de Deus foi para um Alfa Romeo vermelho, da cor exata dos estigmas de Santa Catarina de Siena. 

Conduzia-o pela Toscana fora: ele sofria horrores, e todo o texto era (é) um embaraçoso espólio de clichés e anacronismos: prados abundantes em lavradores, lavradores portugueses que eram italianos e ceifavam à medida que o monstro metálico roncava prados fora, cada vez mais alto, até que os lavradores interrompiam a labuta, o frenético pontinho vermelho aparecia, eles seguiam-no com o olhar, de novo desaparecia no horizonte, e os lavradores retomavam a labuta como se nada tivesse acontecido.

Com quatro americanos ao meu lado a discutir carinhosamente as marketing strategies de Silicon Valley torna-se-me especialmente difícil arrancar com o Alfa Romeo — o motor engasga-se no ruído e afoga-se na mentira.  

Reconstruí-lo é um 31 dos diabos, inglória tarefa que urge:

▪︎ chaves de orgulho 

▪︎ porcas de paciência

▪︎ maçaricos de solidão 

e

▪︎ o raríssimo óleo do silêncio que só há no fundo do mar, na garganta dos peixes-lanterna

À conta da minha imbecilidade, já estourei à volta de 156 Alfa Romeos. Escolho sempre mal o local das minhas corridas: esplanadas de siliconvalleyeses que, de certeza absoluta: 

— hey Siri, where do locals eat italian pizza in Siena?

(eu jamais faria isso);

e depois peregrinam, com muita autenticidade, para restaurantes tripadvisormente elegidos por outros silliconvalleyeses.

Confesso que, para este segundo dia em Itália, esperava um autódromo-esplanada cheio de lavradores (ou labradores, que bom), mas o único lavrador aqui sou eu.

Interrompo as minhas sachadas para ouvir monstros a roncar:

— so, this big CFO had a shitload of friends

e depois retomo a labuta como se nada tivesse acontecido.

Bolonha

Estou, como sempre que escrevo, de perna traçada para o caderno, cabeça inclinada para a mão esquerda.

Está escuro. As luzes: velas espessas como os candeeiros de Azeitão, murchos e diluídos quando eu:

ranho + olhos húmidos = tudo em quadros de Van Gogh.

No meu campo de visão — a torre Garisenda — se tomba de testa é um grande estardalhaço medieval, e a americana com as mãos na samsonite violeta escrutina todos os transeuntes, um silêncio de morte entre ela e o marido, um silêncio de morte na mesa dela que, mesmo cheia de pão, vazia:

ELA — migalhas — ELE

E eu a ver. Que aflição. Que não chegue eu, nunca, a este estado de mutismo, que não me sente eu nunca comigo mesmo e uma samsonite violeta.

Hoje está a doer-me existir. Gostava de ter umas arcadas para o coração, uma moldura bonita para um nada, como este pórtico que me abriga no Café Maxim enquanto dardejo de ódio o careca que decora, sem exceção, todos os rabos de todas as mulheres, umas meninas até. Que nojo.

Que belo cigarro. É um luxo poder fumar em Bolonha sem estar morto. Os mortos têm regalias destas: está sempre escuro, mas podem fumar sempre que lhes apetece. A cena é que  fumar às escuras não tem graça nenhuma.

Se hoje pudesse ser qualquer coisa, seria a samsonite violeta que os americanos estiveram a agarrar do início até metade do pãozinho que desperdiçaram, não, o empregado do Café Maxim acabou de tropeçar com a bandeja: uma poça de vidros e Aperol Spritz, e está a gritar baixinho, portanto retiro o que disse: se hoje pudesse ser qualquer coisa seria o chão (estou a tremer tanto, não faço ideia porquê), e sendo o chão apanharia toda a pancada deste empregado raivoso: farto de Bolonha, farto de trabalhar, farto do Café Maxim, farto das minhas perguntas num italiano encalacrado:

Quanto costa?

Quanto gosta?

farto de americanos que escondem os cacos do casamento numa samsonite violeta, de maneira que manda um coice na samsonite violeta, ela abre-se como uma rosa, e de lá de dentro brota um Aperol Spritz que acaba desfeito no chão.

Tantas tantas voltas para dizer que hoje não me importava de estar fora de mim.

Se quiseres ver um texto teu publicado no nosso site, basta enviares-nos o teu texto, com um máximo de 4000 caracteres incluindo espaços, para o geral@gerador.eu, juntamente com o nome com que o queres assinar. Sabe mais, aqui.

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

12 Maio 2026

A real decadência europeia

10 Maio 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Diogo Cândido sobre o ensino superior

8 Maio 2026

Dia Mundial da Migração dos Peixes com celebração dedicada no rio Alviela

8 Maio 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

1 Maio 2026

Está a chegar o Cultivar, o novo simpósio dedicado à gastronomia e cultura alimentar

1 Maio 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

27 Abril 2026

Menos candidatos, mais desistências: problemas estruturais persistem no ensino superior

24 Abril 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

21 Abril 2026

Multilinguismo? O controlo da diversidade cultural na UE

20 Abril 2026

Bons Sons regressa em agosto com a resistência como mote

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

20 abril 2026

Futuro ou espaço de incerteza? A visão de Diogo Cândido sobre o ensino superior

Para muitos jovens o ensino superior continua a ser o percurso natural, quase obrigatório, para garantir um futuro melhor. Apesar disso, nem todos os que escolhem seguir este caminho encontram uma realidade correspondente às expetativas. Neste projeto, procuramos perceber, através de uma reportagem aprofundada e testemunhos em vídeo, o que está realmente a em causa no ensino superior em Portugal. O que está a afastar os jovens? O que os faz ficar ou sair? E, sobretudo, que país estamos a construir quando estudar se transforma num privilégio ou num risco.

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0