Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Opinião de Catarina Maia

O que significa, para ti, ser mulher?

Nas Gargantas Soltas de hoje, Catarina Maia fala-nos sobre a identificação da mulher na sociedade

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Perguntaram-me recentemente o que significa para mim ser mulher. E fiquei sem resposta. “Não sei”, respondi, enquanto procurava por qualquer coisa que pudesse acrescentar a estas míseras duas palavras. Repetí-as, apenas.

Simone de Beauvoir dizia que não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres. Judith Butler diz que, então, segundo essa lógica, não importa aquilo com nascemos entre as pernas. Tornamo-nos mulheres. Nascemos outra coisa qualquer. Uma tábua rasa de género, que a sociedade depois molda à sua medida? Ou algo mais semelhante aos que nascem ditos homens, que depois aprendemos a contrapor?

Há mulheres, daquelas que nascem com vulva, vagina e útero, que acham que são mesmo mulheres. Não querem mais nenhuma definição. Sentem-se mulheres, são-no com todos os clichês a que têm direito e exigem que isso seja reconhecido. Há mulheres, daquelas que nascem com pénis, que acham mesmo que são mulheres. Também o sentem com todos os clichês a que têm direito, mas nem sempre vêem esse seu direito respeitado.

Muitas vezes as mulheres-que-se-tornam-mulheres, daquelas que nascem já com todo o arsenal vulvístico, não gostam de ser colocadas na mesma caixa do que aquelas que se vão tornando mulheres por outras vias. Porque as vivências são diferentes, o estigma é diferente, porque aquelas mulheres que nasceram com pénis viveram uma parte da sua vida percepcionadas como homens e isso deveria dar-lhes outro tipo de denominação. Mas, serão as experiências das mulheres que muita gente vê como “mulheres a sério” também todas uniformes? De todo. Mas há um denominador comum, algo visto por muitas como desvantagem em termos de oportunidades ao longo da vida, que se distingue da desvantagem de quem sente que nasceu no corpo errado.

Temos, por outro lado, homens que vivem o mesmo desafio: nasceram com vulva. No trabalho de consciencialização sobre a endometriose, uma doença que acomete todas as pessoas que nascem com vulva (e, em casos raríssimos, homens que nascem com pénis), procurei incluir pessoas trans no meu discurso. Porque pretendo que a informação lhes chegue, porque merecem validação das suas dores e porque acredito e defendo que temos o direito a apresentar-nos à sociedade de acordo com o género com o qual nos identificamos. Tornamo-nos mulheres, diz Beauvoir. Pelos vistos, nem todas.

Há, no entanto, quem exija que esta comunicação seja feita sem que o termo “mulher” saia da equação. Porque as mulheres, as que nascem com vulva, sentem-se constantemente apagadas, invisíveis, e não apreciam ser reduzidas ao sexo com que nascem — acham ofensivo que as identifiquem como pessoas que nascem com vulvas porque sentem que é importante ser-lhes reconhecida a condição de mulher, com tudo de bom e mau que isso implica.

Eu compreendo isso. Há, aliás, muitos temas que abordo que se cingem a uma questão de género. Como mulher cisgénero, posso falar apenas da minha experiência e reconheço que mulheres cisgénero são, e foram ao longo da história, descredibilizadas em termos das suas dores, apenas porque são mulheres. Por outro lado, pessoas trans que nascem com vulva lidam com a imposição de uma invisibilidade cruel que tem efeitos nefastos.

Então, como resolver isto? As opiniões dividem-se. Há quem diga que o género não importa, mas importa. É por causa do género que estas discussões se acendem e que certas minorias, das que não encaixam no padrão que a sociedade definiu, são marginalizadas. O género pode ser uma construção social, mas ele existe e não vai deixar de existir tão cedo. Eu ser capaz de me assumir como uma coisa é importante para mim. Seja mulher, seja homem, seja gender fluid, non-binary ou algo que nem eu própria encaixe nestes papéis, eu sinto necessidade de me identificar para ser vista. Mais do que isso, devo a outres o direito de se identificarem como mais sentido lhes fizer.

Eu me identifico como mulher, mas continuo sem saber o que é que isso significa para mim. E continuo em constante aprendizagem sobre esta matéria, tentando ter um discurso inclusivo e ouvindo as histórias das mulheres que nasceram a ser chamadas como tal, mas também as de quem não se sente confortável nas caixinhas que a sociedade definiu.

-Sobre Catarina Maia-

Catarina Maia estudou Comunicação. Em 2017, descobriu que as dores menstruais que sempre tinha sentido se deviam a uma doença crónica chamada endometriose, que afecta 1 em cada 10 pessoas que nascem com vulva. Criou O Meu Útero e desenvolve desde então um trabalho de activismo e feminismo nas redes sociais para prestar apoio a quem, como ela, sofre de sintomas da doença. “Dores menstruais não são normais” é o seu mote e continua a consciencializar a população portuguesa para este problema de saúde pública.

Texto de Catarina Maia

As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

10 Março 2026

Depois vieram os trans

24 Fevereiro 2026

Protocolo racista, branquitude narcísica

10 Fevereiro 2026

Presidenciais e Portugal – algumas notas

27 Janeiro 2026

Museu dos sapatos

13 Janeiro 2026

A Europa no divã

24 Dezembro 2025

Medo de assentar

10 Dezembro 2025

Dia 18 de janeiro não votamos no Presidente da República

3 Dezembro 2025

Estado daquilo que é violento

26 Novembro 2025

Uma filha aos 56: carta ao futuro

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0