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Entrevista com António Fernandes, Presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco

No âmbito da Agenda Descobre o Teu Interior, o Gerador conversou com António Fernandes sobre as potencialidades do Instituto Politécnico de Castelo Branco e sobre a sua importância para a região.

Texto de Gerador

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Durante a investigação para a realização do Livro Aberto sobre o Interior 2023, o Gerador teve oportunidade de conversar com representantes de dois institutos politécnicos do interior do país. Publicamos agora a primeira dessas entrevistas, realizada a António Fernandes, presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco, instituto esse que conta com cerca de 4600 estudantes, um número que tem vindo a aumentar consideravelmente nos últimos anos, sendo 75% dos estudantes provenientes de outras regiões do país, especialmente aqueles que ingressam nas Escolas Superiores de Saúde e de Artes Aplicadas.

Gerador: Para contextualização, quantos funcionários e quantos alunos tem atualmente o Instituto Politécnico de Castelo Branco? Tem informação sobre a percentagem de alunos que são naturais da região e da percentagem de alunos que vem de fora para estudar cá?

António Fernandes: Atualmente o IPCB tem cerca de 210 professores de carreira e 220 trabalhadores não docentes. A estes números acrescem os professores contratados a termo e a tempo parcial que vêm à Instituição assegurar a lecionação de algumas unidades curriculares. Quanto a estudantes, temos cerca de 4600 estudantes, sendo de destacar que em 2018 estudavam no IPCB cerca de 3800 estudantes. Foi um aumento muito considerável e importante para a Instituição. Os nossos estudantes são provenientes de todo o país. A percentagem de estudantes de fora é maior nas Escolas Superiores de Saúde e de Artes Aplicadas. Nas outras 4 Escolas superiores do IPCB a predominância de estudantes de fora é mais baixa. Ainda assim, cerca de 75% dos estudantes do IPCB são de fora da região.

G: Houve, este ano, um aumento de 14% nas colocações em licenciaturas no Instituto Politécnico de Castelo Branco. A que pensa dever-se este aumento? Quais são, na sua opinião, os pontos fortes e potencialidades deste instituto?

AF: Na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso (CNA) foram colocados no IPCB 660 novos estudantes, tendo 74% escolhido o IPCB como 1ª opção na candidatura. 11 licenciaturas preencheram todas as vagas logo na 1ª fase do CNA. O IPCB surgiu claramente destacado, ocupando a 4.ª posição das instituições (politécnicos e universidades) que mais aumentaram o número de novos estudantes colocados. Registou-se um aumento de 14%, muito superior ao aumento de 0,7% a nível nacional ou de 6% a nível das regiões com menor procura e menor pressão demográfica (onde estão incluídas 17 instituições), num ano onde o número de candidatos diminuiu 3,9% face à mesma fase do ano anterior. Recorde-se que na 1ª fase do CNA de 2021 foram colocados 578 novos estudantes no IPCB. 

Relativamente à 2ª fase do CNA, com um aumento de 31%, o Politécnico de Castelo Branco foi a instituição que registou o maior aumento de colocados na 2.ª fase do Concurso Nacional, face à mesma fase do CNA 2021, considerando todos os politécnicos e universidades portuguesas. Foram colocados nesta fase 243 estudantes nas licenciaturas, quando, em 2021, foram colocados 185 estudantes.

Só nas licenciaturas, o IPCB conta com 1263 novos estudantes colocados, considerando todos os contingentes de acesso e ingresso no ensino superior.

Para além dos estudantes colocados nas licenciaturas, o IPCB conta com cerca de 400 novos estudantes nos Cursos Técnicos Superiores Profissionais (CTeSP) e nos mestrados, número que tenderá a aumentar com os colocados na 2ª fase de candidaturas, que se encontra a decorrer.

O IPCB apresenta uma oferta formativa muito ampla permitindo uma grande opção de escolha por parte dos potenciais estudantes. Acresce que a especialização e exclusividade de algumas áreas poderão justificar os resultados obtidos. 

G: E quais os maiores desafios do IPCB?

AF: Em termos de desafios para o IPCB, que considero para os próximos anos, sintetizo-os em cinco pontos: 

1. Especialização e diversificação da oferta formativa focada em novos públicos, adultos e jovens, com especial destaque para as áreas STEAM*, com ligação às organizações, empresariais e institucionais, promovendo níveis de empregabilidade mais elevados, implementando novos métodos de aprendizagem que combinem com o desígnio de transição digital da sociedade;

2. Consolidação e valorização da investigação com a dinamização de ambientes de I&D+I que melhorem a transferência de conhecimento e tecnologia para a comunidade; 

3. Reforço da cooperação institucional valorizando o IPCB enquanto centro de ciência, tecnologia, inovação e competências; 

4. Sustentabilidade organizacional, com a aposta em modelos de governação e gestão sustentáveis e transparentes, promovendo a utilização eficiente dos recursos; 

5. Melhoria das infraestruturas.

G: Acredita que se tem assistido, por parte dos alunos oriundos do litoral, a uma maior procura de politécnicos localizados no interior do país? O Instituto Politécnico de Castelo Branco tem utilizado algumas estratégias no sentido de aumentar esta procura? Se sim, quais?

AF: Há alunos do litoral que nos procuram por razões relacionadas com a nossa oferta formativa. O IPCB tem, em alguns domínios, uma oferta formativa algo específica e este poderá ser um motivo para que alguns dos estudantes do litoral possam escolher o IPCB para a sua formação.

G: E quanto a alunos oriundos de outros países, tem-se verificado um maior interesse e procura dos estudantes internacionais pelos politécnicos localizados no interior do país? Como é no caso do Politécnico de Castelo Branco?

AF: Globalmente, as medidas enquadradas na dimensão “Internacionalização” têm tido uma concretização muito satisfatória. Temos tido um aumento considerável na captação de estudantes internacionais, tendo o IPCB atingido em 2019 a capacidade máxima anual de acomodação destes estudantes. Presentemente estão matriculados no IPCB 550 estudantes internacionais e este valor tem-se mantido nos últimos anos. A este dado acresce a manutenção de níveis elevados de mobilidade internacional envolvendo staff, estudantes, docentes e trabalhadores não docentes. Por outro lado, tem havido um reforço das relações com instituições internacionais, particularmente do Brasil e de Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. A participação ativa em projetos internacionais, com cerca de 10 novos projetos por ano, é algo também muito importante.

G: Poderia partilhar um pouco connosco sobre as unidades de investigação que existem no IP de Castelo Branco? Quais as unidades que existem e qual o panorama geral da investigação no instituto?

AF: O IPCB tem presentemente 6 Unidades de Investigação e Desenvolvimento criadas em final de 2017 e registadas na FCT: 

  • AGECOMM – Unidade de Investigação Interdisciplinar – Comunidades Envelhecidas Funcionais
  • CERNAS – Centro de Estudos em Recursos Naturais, Ambiente e Sociedade 
  • CIPEC - Centro de Investigação em Património, Educação e Cultura
  • DISAC - Digital Services, Applications And Content
  • QRural - Qualidade De Vida No Mundo Rural
  • SHERU - Sport, Health & Exercise Research Unit

Estas UID são compostas por mais de 180 investigadores (Investigadores Integrados e Investigadores Colaboradores) e por ano tem havido uma produção científica do IPCB de cerca de 150 artigos indexados à base SCOPOS.

É importante salientar o reforço da atividade de Investigação, Desenvolvimento e Inovação, sendo de destacar os resultados encorajadores da avaliação da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) às UID do IPCB. Em termos de resultados concretos verificou-se um aumento muito significativo da produção científica com afiliação do IPCB.  Desde 2020 que o IPCB integra o Scimago Institutions Rankings, alcançando em 2021 a 23ª posição entre as IES em Portugal, subindo uma posição relativamente a 2020. Na subcategoria de investigação, o IPCB subiu 3 posições em relação ao ano anterior, ocupando agora a 24ª posição. Na subcategoria de inovação, ocupa a 18ª posição, subindo 3 posições em relação ao ano anterior. Na subcategoria de impacto societal, o IPCB ocupa a 16ª posição entre as IES portuguesas.

G: Acredita que os politécnicos têm sido bem sucedidos no seu objetivo de maximizar o seu papel enquanto pólos agregadores de população no interior do país? Na sua opinião, como podem ter cada vez mais sucesso nesta missão?

AF: O papel das IES nos territórios, pela relevância do seu contributo no desenvolvimento equilibrado e sustentado das regiões, é absolutamente fundamental. Em regiões periféricas assume redobrada importância. A formação académica é um determinante (positivo) do desenvolvimento cultural, social, científico e económico. A maiores níveis educacionais correspondem, em regra, a melhores perspetivas de competitividade e desenvolvimento sustentado. A melhoria do nível de qualificação dos portugueses e a intensificação da investigação científica e do nível tecnológico da economia, têm tido reflexos na inovação empresarial e no reforço da empregabilidade em sectores especializados. É nesta perspetiva que considero absolutamente fundamental o papel do Politécnico de Castelo Branco nesta região através de uma ainda maior ligação ao tecido empresarial e institucional e a aposta em iniciativas conjuntas, a vários níveis: ensino, investigação, prestação de serviços, eventos culturais, artísticos, desportivos, tecnológicos, que melhorem a dinâmica de atração, captação e fixação de jovens e técnicos qualificados na região. A região só terá a ganhar com um IPCB mais moderno, mais especializado, mais sustentável, com mais estudantes e com mais impacto no desenvolvimento da região e na valorização das pessoas.

G: Qual a sua percepção em relação à fixação dos estudantes na região após a conclusão dos estudos no IPCB?

AF: Muitos estudantes do IPCB após a conclusão das formações acabam por se fixar na região desenvolvendo negócios ou trabalhando por conta de outrem. O Centro de Empresas Inovadoras de Castelo Branco enquanto espaço de acomodação de novos projetos empreendedores tem tido, na sua maioria, novos projetos empresariais promovidos por diplomados do IPCB. Há outros casos de sucesso ao nível de novas empresas que aqui se instalaram, particularmente na área das competências digitais, que absorvem todos os diplomados. Em outras áreas, saúde ou artes e música, é um pouco mais difícil, face às áreas de formação. 

G: Existe uma relação de proximidade entre o Instituto Politécnico de Castelo Branco e a Câmara Municipal? Quais os principais protocolos estabelecidos entre as duas entidades? Existe algum tipo de colaboração/parceria para a promoção de medidas que visem a atração de população estudantil para a região e, consequentemente, para o Instituto Politécnico?

AF: As duas instituições desde sempre colaboraram em diferentes domínios. Muitas das iniciativas organizadas pelo IPCB como conferências nacionais e internacionais têm tido o apoio financeiro da Câmara Municipal. Em alguns casos, a Câmara Municipal também tem recorrido ao IPCB no âmbito de prestação de serviços especializados. Uma ajuda importante recente foi o apoio financeiro para a requalificação do Campus da Talagueira, integralmente suportado pela Câmara Municipal de Castelo Branco.   

G: Qual a sua opinião em relação à possível alteração a nível nacional da denominação  "Instituto Politécnico" para "Universidade Politécnica"?

AF: Tenho uma opinião muito concreta. A alteração da designação de Institutos Politécnicos para Universidades Politécnicas é absolutamente necessária. Isto porque, a expressão Universidade é a denominação global aceite, e promove a afirmação nacional e internacional do sistema Politécnico. Por outro lado, a alteração permitirá mitigar um estigma social ainda existente na sociedade relativamente aos institutos.

Sobre António Fernandes

António Fernandes é Doutor em Gestão pela Universidade da Beira Interior (UBI), Mestre em Ciências Económicas pela mesma instituição e licenciado em Engenharia Química pela Universidade de Coimbra. Desde outubro de 2021 que é membro da Assembleia Municipal de Castelo Branco, sendo, também, professor do ensino superior nas áreas do planeamento e gestão de operações, qualidade, inovação, empreendedorismo e desempenho organizacional. Desde maio de 2018 que é presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco (IPCB), tendo tomado posse para o segundo mandato em julho de 2022.

Esta entrevista foi realizada no contexto da Agenda Descobre o Teu Interior, em outubro de 2022.

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