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Se um dia um homem cis, branco, hétero não dissesse nada

Ana Vicente fala-nos sobre a importância de expressar indignação perante a desigualdade e o desrespeito enfrentado pelas pessoas LGBTI.

Texto de Redação

©Kristina Flour via Unsplash

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Perante as coisas que se têm escrito na imprensa nos últimos dias por pessoas que supostamente um dia se terão dito aliadas, não vale argumentar. Seria ofensivo para todas as pessoas que essas palavras maltratam e desrespeitam, seria validar o bullying como opinião.

Não gosto de escrever zangada. Não só mexe comigo, como pode fazer-me entregar ao mundo mais ódio, mais fel, mais dor, o que não é fixe.

Mas às vezes tem de ser.

Às vezes, a zanga é a única coisa que é justa entregar.

Estou zangada porque estou cansada de ouvir dos outros (uso o masculino intencionalmente) aquilo que supostamente sou ou tenho de ser. Cansada de procurar uma validação nas pessoas que nem sequer querem ouvir. Estou cansada de agradecer o respeito como se fosse um presente e não algo que me é plenamente devido.

Não precisamos de um homem cis, branco, hétero, rico e privilegiado nos venha dizer o que é uma mulher. Comparar-nos com leite (de soja ou não) não é muito diferente de colocar-nos abaixo de cão.  

Não precisamos disso. E mais importante não queremos.

Muitas vezes, a zanga ajuda-nos a reclamar o que nos pertence. Toda a violência, indiferença, abuso e desrespeito que nos têm sido impostos são nossos, fazem parte do nosso caminho, da nossa superação e do nosso eterno renascer da fénix. Sem romantismos, nós faremos disso o que quisermos e pudermos, não nos entregaremos aos papéis que nos querem atribuir, seja de vítimas, putas, galdérias, manas, coitadinhas, mulheres de primeira e de segunda, integradas ou excluídas.

Aquilo que somos, dizemos nós. E quem quiser ouvir, quem quiser realmente ouvir, talvez tenha a sorte e a alegria de estar ao nosso lado.

A zanga também nos permite definir limites, a começar pela nossa credulidade, que imagina que qualquer pessoa tem essa boa intenção de ouvir e que nos faz gastar o nosso precioso tempo a tentar convencê-la que temos legitimidade para existir. Que desperdício de energia. Uma energia que infelizmente temos de usar quase todos os dias. Uma energia que enriquece a vida de tanta gente, quantas vezes à custa do nosso próprio valor. 

Homens cis brancos, héteros, ricos e privilegiados têm uma opinião sobre o que é uma mulher… esta é a anedota e ainda maior é quando nem sequer percebem. É o cúmulo do mansplaining.

A propósito de Donald Trump, Tina Fey disse, numa entrevista a David Letterman, que o ex-presidente está sempre a imaginar que alguém lhe está a perguntar “o que é que pensas disto?”. E aqui é mais ou menos a mesma coisa. Alguém lhes perguntou o que pensam sobre isto? Por que têm de ter uma opinião que desumaniza as pessoas reais e o seu sofrimento, transformando-as em objeto e tema?

Quando uma pessoa está zangada fica com menos perspetiva, menos mundo, foca-se só naquele objeto da zanga e da raiva. E é por isso que é importante darmos um passo atrás, ganhar espaço, visão e consciência.

A pergunta é: se alguém tem uma opinião que não foi solicitada, qual é a necessidade que não está a ser respondida e o que está por trás? Como é que pessoas trans e um glossário inclusivo e pedagógico se tornam ameaças tão grandes para alguém ao ponto deste ataque?

Sem dúvida que diz muito sobre quem as arremessa. Mas não diz nada sobre nós.

Não há ninguém infalível

Nenhuma de nós, lésbica, gay, bi, trans, queer, qualquer pessoa da nossa comunidade, é infalível. Tantas de nós (todas provavelmente) sentimos dentro de nós preconceito, homofobia, transfobia, confusão e repúdio… e algumas até mostraram isso para si e para outras. Toda a gente tem um percurso, toda a gente pode evoluir naquilo que sente e pensa, toda a gente pode mudar de ideias, pedir desculpa, escolher o silêncio em vez de falar do que não sabe. Qualquer pessoa pode aprender. Mas precisa de humildade. O mínimo de humildade para reconhecer que há outras, muitas outras pessoas muito diferentes de si. Precisa de querer sair do seu lugar de privilégio. Precisa de saber o que é isso e que não vale tudo. Empatia.

“São tempos difíceis para os homens”, gozava uma vez uma personagem da série “Modern Family”. Pensar antes de falar e de agir pode ser difícil, pensar nas consequências e no impacto nas outras pessoas também. Mas não é impossível. Têm de se redefinir e de olhar para si próprios de uma outra forma.

Por isso dêem um passo atrás e deixem estes tempos difíceis para nós. Nós estamos habituadas. As pessoas trans estão muito habituadas.   

Porque se um dia um homem cis, branco, hétero não dissesse nada, imaginem todo o espaço que teríamos para falar e o quanto novas coisas se poderiam criar, o quanto toda a gente poderia aprender. Nós já conhecemos a vossa história, sabemo-la de cor desde tempos imemoriais.

Entretanto permaneçamos juntas, mais fortes que nunca, solidárias, empáticas, livres. As pessoas trans, as pessoas LGBTI enriquecem este mundo que tanta gente quer que permaneça igual e cinzento. Obrigada a todas elas por estarem aqui. Aguentemos, sejamos, celebremo-nos.

Texto de Ana Vicente, publicado inicialmente na esQrever
*As posições expressas pelas pessoas que escrevem as colunas de opinião são apenas da sua própria responsabilidade.*

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