Pergunto-me de que material somos feitos? O que temos por dentro e fora da pele, em cada órgão, em cada célula, em cada átomo. O que há para além de nós, fora da pele, ao alcance dos olhos, dos ouvidos e do olfacto? Átomo por átomo, molécula por molécula, célula por célula, formam-se relações, formam-se sistemas, forma-se um corpo. Pessoa a pessoa, comunidade a comunidade, formam-se sociedades e formam-se culturas. Da mesma forma que não há células sem átomos, também não existem pessoas sem relações.
O oxigénio está para as células assim como o diálogo está para as relações. A construção do Eu individual e da identidade é feita com base no diálogo com a alteridade e no sentido que vamos construindo dessa relação / diálogo em forma de narrativa. Uma narrativa em constante transformação.
Disse Mikhail Bakhtin, filósofo Russo da linguagem, que “para a palavra (e consequentemente para o ser humano), não há nada mais terrível que a ausência de resposta”. Desde a primeira lufada de ar após o nascimento que o bebé entra em relação, entra em diálogo. Diz Bakhtin que nesse diálogo aberto e sem fim, “a pessoa participa totalmente e durante toda a sua vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, com o todo o seu corpo e com todas as suas acções” (minha tradução).
O diálogo, neste sentido, não é feito só de palavras, é um processo comunicativo e interactivo com corpo e com alma. Poderia dizer-se então que, ser dialógico, implica ser responsivo, abrir o discurso, expandir as ideias, escutar, construir ou, melhor ainda, co-construir significados, pontes e avenidas. A qualidade oposta seria a monologia, o discurso que fecha, que oprime, que impõe autoridade ou, melhor dizendo, que é autoritário, totalitário.
Todos conhecemos exemplos, em pequena ou em grande escala, de monologias. Voltando a Bakthin, “não há nada mais terrível que a ausência de resposta”. Sendo um processo dinâmico, eu acrescentaria a terribilidade e a impotência da incapacidade de responder.
Nas conhecidas experiências “still face experiment”, investigadores pedem para uma mãe ou um pai que brincam e interagem normalmente com o seu bebé para pararem qualquer tipo de resposta ou expressão facial/corporal durante dois minutos, ficando em frente ao bebé, inexpressivos e silenciosos durante esse tempo. Muito rapidamente, é possível observar o aumento de tensão no bebé, que primeiro começa por fazer tentativas e brincadeiras para obter uma resposta, evoluindo depois para um estado de stress e desorganização evidentes, incluindo dificuldades com a sua própria postura corporal. Edward Tronick, um dos investigadores envolvidos nestas experiências, fala-nos do efeito “the good, the bad and the ugly”. Good é quando os bebés têm a resposta dialógica, apropriada e no tempo certo, no fundo, quando os pais e crianças interagem de forma saudável e espontânea. Bad é quando existe uma falha temporária na resposta (como acontece na experiência) mas que rapidamente é reparada, não causando danos significativos na criança. Ugly é quando as falhas acontecem persistentemente e quando não existe reparação, não dando oportunidade à criança de regressar ao “good”, ficando presa num círculo traumático e com graves consequências.
Embora pareça evidente os danos que este tipo de relação pode causar, é irónico observar que muitos dos serviços de saúde mental acabam por repetir este tipo de padrão, impondo discursos monológicos e fechados nas pessoas que mais precisam de ajuda.
A incapacidade destes serviços em incutir agência (tornar agente) e empoderar os seus utentes é, em certos casos, alarmante.
Enquanto se continuar a dar prioridade ao “fazer”, aos números e à técnica em detrimento do “estar”, da relação segura e do dialogismo, continuaremos a perpetuar os traumas, a dependência e o mal estar mental.
Disse Saramago, nalgum dos seus escritos, que precisamos percorrer longos caminhos e longas distâncias para finalmente entendermos o que está perto. De forma semelhante, é preciso um trabalho pessoal intenso e uma formação relacional longa e exigente para finalmente percebermos algo que parece tão simples, como a importância de nos relacionarmos com alguém em sofrimento de forma humilde e curiosa, numa posição de não-saber, aberta, segura e geradora de confiança e crescimento.
*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico
- Sobre João G. Pereira -
João G. Pereira é psicólogo, doutorado em Psicoterapia pela Middlesex University e psicoterapeuta registado no United Kingdom Council for Psychotherapy. Iniciou a sua vida profissional em Lisboa e Barcelona tendo-se fixado, posteriormente, no Reino Unido, onde viveu e trabalhou durante 10 anos, maioritariamente em departamentos de psiquiatria do sistema nacional de saúde (NHS). A sua desilusão com o sistema psiquiátrico tradicional levou-o a estudar sistemas mais relacionais e humanistas, tendo acabado por juntar-se à Fundação Romão de Sousa e ao seu projecto “Casa de Alba”, que dirige desde 2013. Desenvolveu o sistema de Comunidades Terapêuticas Democráticas em Portugal e esteve na origem do movimento “Open Dialogue” português, inspirado pelas suas visitas à Lapónia Finlandesa, Norte da Noruega e Nova Iorque. Também em Portugal foi Professor Auxiliar Convidado na Universidade de Évora e colaborou em estudos Pos-Doc de Filosofia Psiquiátrica na Universidade Nova. Tem interesse particular no desenvolvimento da relação terapêutica e na intersecção entre a psicanálise relacional, a filosofia e as neurociências afectivas, em particular na área da mentalização, que levou à sua acreditação no British Psychoanalytic Council. É actualmente Presidente da International Network of Democratic Therapeutic Communities, supervisor e professor de psicoterapia no Metanoia Institute em Londres. É autor de vários artigos em jornais científicos, tendo co-autorado e editado os livros “Schizophrenia and Common Sense” da Springer-Nature e “The Neurobiology-Psychotherapy-Pharmacology Intervention Triangle” da Vernon Press.