(Os nomes e vários detalhes foram alterados para proteger a identidade dos intervenientes)
Recentemente, participei numa reunião terapêutica com uma colega psicoterapeuta e outro colega assistente social, ambos de um projecto que utiliza o sistema psiquiátrico “Open Dialogue”. Connosco estava Joana, pessoa no centro das preocupações, sozinha, algo pouco habitual nestas sessões, uma vez que é encorajada a participação frequente da rede social de suporte.
Joana já tinha tido duas sessões com os meus colegas, uma em casa dela, outra online, de acordo com o princípio da mobilidade (reunir onde a pessoa tiver preferência).
Joana tinha uma filha de 7 anos e era original de Aveiro mas, há cerca de 1 ano, veio residir para uma casa abrigo numa vila Ribatejana. Precisou de fugir do parceiro que lhe batia e ameaçava. Os pais de Joana eram toxicodependentes e mal chegou a conhecê-los. Perdeu o pai quando tinha dois anos e a mãe acabou a viver na rua, quase sempre sem rasto. Acabou também por perdê-la na adolescência.
Joana cresceu com os avós maternos, um irmão mais velho e um primo também mais velho, dependente do álcool e do jogo. Os dias de Joana eram passados em permanente sobressalto. A sua avó repreendia o primo muitas vezes e Joana nunca sabia como ia ser a sua reação. Umas vezes, quando estava sóbrio e não tinha perdido no jogo, respondia carinhosamente à avó, dava-lhe abraços e brincava com ela. Outras vezes, quando já tinha bebido ou algum outro contratempo o tinha afectado, levava tudo à frente. Batia na avó e batia em todos se fosse preciso, na Joana também. Joana começou a passar muito tempo isolada no seu quarto. Na escola, era vítima de bullying e discriminada pelos professores que sabiam da sua história familiar e olhavam para ela de lado. Frases como “não sais da cepa torta” ou “o que é que estavas à espera?” eram proferidas várias vezes, provocando um sentimento de culpa por cima da vergonha que já sentia.
Quando fez 21 anos, Joana casou-se, teve uma filha e, durante cerca de dois anos, viveu numa ilusão de felicidade. Desde a sua adolescência que tinha começado a consumir substâncias, maioritariamente haxixe, tendo-se colocado em inúmeras situações de risco, uma delas terminando nas urgências psiquiátricas após uma tentativa de suicídio, tendo-lhe sido diagnosticada uma perturbação bipolar.
Depois do casamento, sentiu acalmia e vivia feliz nesta nova ilusão, fumando os seus charros e até aprendendo uma nova profissão como cabeleireira. A sua vida voltou a transformar-se num inferno quando o companheiro começou a mostrar sinais de agressividade, acabando por lhe bater várias vezes, algumas com a sua filha recém nascida nos braços. Queria sair desta relação mas não sabia como, ainda para mais precisava de sustentar a sua filha pelo que aguentou cinco anos nesta relação abusiva até ter conseguido pedir ajuda e escapar.
A casa abrigo onde a colocaram foi outro inferno. Teve de resistir cinco meses até conseguir sair e arranjar um emprego part-time que lhe permitiu alguma independência. Contudo, os seus comportamentos mantinham-se erráticos, continuava a fumar charros para “preencher o vazio” que sentia e para “ficar numa bolha”. Muitas vezes fazia-o com a sua filha em casa, sentia-se exausta e sem capacidade para dar atenção permanente à sua filha. Deixava-a a ver televisão no quarto e isolava-se na sala.
A filha mostrava sinais de tristeza e isolamento na escola e foi o psicólogo da escola que alertou a nossa equipa.
Entrei nesta sessão sem ter conversado previamente com os colegas e sem saber absolutamente nada sobre a Joana e a sua história. A regra número 1 do Open Dialogue é não falar sobre as pessoas sem elas estarem presentes. Os colegas e a Joana contaram como estava a correr o trabalho e fizeram um resumo desta história. Ouvi com muita atenção e depois disse-lhe que ia trocar umas impressões com os colegas. Outra das regras fundamentais do Open Dialogue é a presença de dois ou mais terapeutas na reunião para que seja possível alternar entre diálogo (com a rede) e meta-diálogo, ou seja, reflexões sobre a sessão em frente à pessoa e à sua rede de apoio. Após uma breve pausa, disse qualquer coisa assim: “Carla e Miguel, ao ouvir a Joana senti um grande peso no peito (colocando a mão no peito) e um nó na garganta”. Respirei fundo, com tristeza, e perguntei “O que é que vocês têm sentido nas reuniões?”. A Carla respondeu “João, eu também senti isso na primeira reunião, um grande peso, mas senti também a força enorme e a resiliência da Joana”. Depois de mais umas curtas reflexões, perguntámos à Joana se queria comentar sobre o que ouviu. Entre outras coisas, a Joana foi dizendo que “senti um grande alívio após a primeira sessão”, “senti-me menos sozinha e senti uma grande força”, “sempre me tinha sentido avaliada e sozinha nos vários outros apoios que tive”. A Joana partilhou também que já passava vários dias em que conseguia dominar os consumos, que já sentia confiança e motivação para procurar um trabalho e que já tinha também visto um curso que lhe interessava.
Num momento mais avançado da sessão, quando Joana partilhava, aparentemente sem emoção, as suas dificuldades com a violência do primo na infância, eu inclinei-me para a frente, olhei-lhe nos olhos, respirei fundo e disse “nunca sabia com o que podia contar”. Nesse momento, Joana encheu-se de lágrimas e, com ela, eu também me emocionei. Foi um encontro entre os nossos cérebros direitos, afinação afectiva (attunment) e expansão da via de confiança epistémica. Joana confiava em nós e nas nossas intenções, podia assim aprender connosco e evoluir.
Muito mais coisas se passaram mas, em resumo, fizemos algo muito simples que parece que, em 20 anos de sistemas psiquiátricos, não tinha sido conseguido: criar uma relação de confiança. E criámos essa relação de confiança pela autenticidade da nossa presença, pelo interesse genuíno que demonstrámos pela Joana, pela total ausência de julgamento ou tentativa de avaliação. Conseguimos essa confiança e motivação porque não nos focámos apenas no diálogo externo e na comunicação verbal (hemisfério cerebral esquerdo) mas também, e especialmente, nos diálogos internos e nas emoções (hemisfério cerebral direito).
Muito haveria por dizer sobre a delicadeza desta dança de palavras, sobre as pausas, as desacelerações e os silêncios, mas talvez o mais importante tenha mesmo sido tratar a Joana como uma pessoa normal. Uma pessoa normal a viver circunstâncias extraordinárias; e que, nessas circunstâncias, desenvolveu formas de lidar com o sofrimento, sofrimento que alguém, que certamente nunca terá a sua confiança, se lembrou de chamar “doença”.
*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico
- Sobre João G. Pereira -
João G. Pereira é psicólogo, doutorado em Psicoterapia pela Middlesex University e psicoterapeuta registado no United Kingdom Council for Psychotherapy. Iniciou a sua vida profissional em Lisboa e Barcelona tendo-se fixado, posteriormente, no Reino Unido, onde viveu e trabalhou durante 10 anos, maioritariamente em departamentos de psiquiatria do sistema nacional de saúde (NHS). A sua desilusão com o sistema psiquiátrico tradicional levou-o a estudar sistemas mais relacionais e humanistas, tendo acabado por juntar-se à Fundação Romão de Sousa e ao seu projecto “Casa de Alba”, que dirige desde 2013. Desenvolveu o sistema de Comunidades Terapêuticas Democráticas em Portugal e esteve na origem do movimento “Open Dialogue” português, inspirado pelas suas visitas à Lapónia Finlandesa, Norte da Noruega e Nova Iorque. Também em Portugal foi Professor Auxiliar Convidado na Universidade de Évora e colaborou em estudos Pos-Doc de Filosofia Psiquiátrica na Universidade Nova. Tem interesse particular no desenvolvimento da relação terapêutica e na intersecção entre a psicanálise relacional, a filosofia e as neurociências afectivas, em particular na área da mentalização, que levou à sua acreditação no British Psychoanalytic Council. É actualmente Presidente da International Network of Democratic Therapeutic Communities, supervisor e professor de psicoterapia no Metanoia Institute em Londres. É autor de vários artigos em jornais científicos, tendo co-autorado e editado os livros “Schizophrenia and Common Sense” da Springer-Nature e “The Neurobiology-Psychotherapy-Pharmacology Intervention Triangle” da Vernon Press.