Valério Romão e Gonçalo M. Tavares escrevem contra a ideia de livro. Não lhes basta contar uma história, abordar um tema ou ser original. Querem pôr a literatura em risco, obrigá-la a sair do trilho, a procurar um ritmo e uma forma que estejam à altura da desordem do nosso tempo.
Isso sente-se com nitidez nos seus livros mais recentes. O Desfufador avança pela sátira, pela epidemia e pela acumulação delirante de sintomas contemporâneos. O Fim dos Estados Unidos da América escolhe a peste, a iminência de guerra civil e uma espécie de epopeia para pensar o império, a pobreza, a violência e a deriva política da sociedade. Em ambos, a literatura não surge como refúgio. Surge como campo de batalha.
A proximidade entre os dois talvez não esteja apenas nas abordagens, mas na suspeita que parecem partilhar: a realidade já não pode ser descrita por uma literatura demasiado obediente, demasiado realista, demasiado domesticada. Para escrever este tempo, já não basta descrevê-lo. É preciso deformá-lo o suficiente para que espelhe o real.
Os Estados Unidos, presentes nas duas obras, aparecem não como cenário exótico, mas como o grande laboratório dramático do presente, onde a desigualdade se torna obscenamente visível e onde a ideologia se transforma em espetáculo. Os Estados Unidos são uma versão aumentada do nosso tempo.
Também é curioso que ambos recorram ao contágio. Não falo apenas da epidemia ou da peste, mas da ideia de que o presente é contagioso no pior sentido. Contagiam-se discursos, impulsos, medos, radicalismos, fantasias de poder, masculinidades, conspirações, gentrificações. Já não vivemos apenas num mundo em crise. Vivemos num mundo em propagação.
Mas o que os torna verdadeiramente extraordinários não é apenas a leitura do zeitgeist. É a ambição literária. Os dois dão prioridade à linguagem em fricção, ao excesso que não pede desculpa, ao humor no fio da navalha, ao palavrão e ao erudito. Há muitos livros que parecem querer apenas acompanhar o tempo. Estes dois querem enfrentá-lo. E sabem que, para isso, é preciso escrever de outro modo.
O que estes dois livros têm em comum é uma recusa. A recusa de escrever como se o mundo ainda fosse legível da mesma maneira. A recusa de tratar a contemporaneidade como uma gaveta certinha. A recusa de aceitar que a literatura deva responder ao caos com compostura.
Num momento histórico em que a realidade parece disputar à ficção o monopólio do absurdo, Valério e Gonçalo tomam a decisão de não encolher a literatura para a tornar mais manejável, antes expandem-na para que ela consiga equiparar-se a este novo planeta. Ao contrário da política, da economia, da sociedade, a literatura têm a responsabilidade de se reinventar para continuar viva.
Ainda bem. Porque há tempos em que escrever bem é pouco. E este é um deles.