A mesma Gaza que se tornou hoje palco de escombros e cadáveres foi o lugar escolhido,em 1911, pelo famoso ator e diretor libanês Jurj Abyad para apresentar Hamlet pela primeira vez em árabe. Uma cidade que se preparava na altura para se tornar um dos centros culturais mais ativos da região. Como seria o teatro palestiniano hoje se tivesse continuado a desenvolver-se longe do colonialismo? Se não tivesse vivido a catástrofe palestiniana de 1948, a Nakba? Que diria este teatro sem a procura constante de uma Palestina livre? Que Hamlet? Que Shakespeare? Que liberdade teria incorporado?
Entre os lugares que desapareceram em Gaza depois de 7 de outubro está Rashad Al-Shawa, um centro cultural, construído nos anos 1980. O edifício bombardeado pelas forças israelitas - um projeto peculiar do arquiteto Sa’ad Mohaffel com trabalho da artista Laila Shawa – albergava o maior teatro em Gaza. No dia em que foi arrasado, já não eraum teatro, mas literalmente uma casa de muitas famílias. O seu palco transformou-senuma cama gigante partilhada onde muitos dormiam, não de aborrecimento, mas num espetáculo real de dor e cansaço. Talvez não seja isto que vem à mente quando pensamos em teatro e transformação. Rashad Al-Shawa tornou-se numa outra casa desaparecida.
“Uma casa tem medo antes de ser bombardeada?”, pergunta a escritora palestiniana Hanadi Skaik. E um teatro, antes de ser bombardeado, tem medo ou continua a dar medo?, pergunto eu.
Conforme uma nota de solidariedade do Teatro da Liberdade de Jenin, esta semana, o Teatro Nacional Palestiniano Al-Hakawati em Jerusalém, foi informado de uma decisão do tribunal distrital para cessar a sua atividade.
Al-Hakwai tem medo ou continua a dar medo ao ocupante com o seu habitual espanto?
Duvido que um teatro palestiniano alguma vez tenha tido medo. O Teatro da Liberdade, por exemplo, continuou sempre a funcionar apesar de atores e diretores terem sidoaprisionados ou até assassinados. Continuou, mesmo destruído. Atualmente, com a ocupação do campo de refugiados de Jenin onde o teatro está sediado, está a funcionar num outro lugar. Em 2023, durante o espetáculo Danteel, houve um corte de eletricidade e iniciou-se uma invasão do campo pelas forças israelitas, mas o espetáculo continuou à luz de velas, quase indiferente aos tiros lá fora.
Uma peça quis ser, e foi.
O que pode um teatro? Na Palestina, pode. Pode continuar mesmo com a arma apontada àcabeça. Talvez a questão devesse ser: o que pode o público? Pode continuar a estar sentado, encarnando a palavra sumud, um tipo de resistência especificamente palestiniana. É a firmeza, constância, a persistência. É o ficar, a resistência na resistência.
Imagino o aconchego de um público cujo batimento cardíaco acelerado contrasta com o seu estado paralisado por escolha, fazendo uma peça acontecer. Corpos que resistem a um vazio forçado nas cadeiras do teatro, insistindo em colar uma pele, amiga ou desconhecida, para partilhar a inquietação de um espetáculo durante uma invasão. Se calhar esta é a força do teatro que nenhum ocupante pode roubar: um público todo junto,criando o poema daquele momento, um poema que recita cada vez que tentam tirar-lheaquele lugar muito seu nas cadeiras em frente do palco: há um teatro dentro de nós que nos lembrará sempre como se desobedece.
Na primeira intifada, Hamlet foi um dos livros proibidos pela ocupação israelita. Nele,Shakespeare dizia: “Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer?”
E continua: “talvez sonhar — eis o problema.”
Nota: esta crónica foi escrita no embalo das III Jornadas de Teatro "Cenas de Guerra ou Encenar a Catástrofe" organizadas pelo Teatro Art’Imagem