“Não acreditamos em estar em cima do muro num tempo em que os festivais e todas as manifestações artísticas parecem coagidas a não posicionar-se”. É assim que Hélder Beja define, em conversa com o Gerador, o posicionamento do Doclisboa. A programação respalda as palavras do diretor do festival. São 10 os filmes a evocar diretamente a Palestina, sendo que o foco não é o genocídio em curso, mas a história que o precede, incluindo a Nakba (catástrofe em árabe, a palavra usada para descrever o êxodo forçado de palestinianos em 1948 durante a guerra que se seguiu à decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas de dividir o território da Palestina em dois estados). À resistência popular junta-se a resistência cinematográfica: além dos filmes, haverá uma mesa-redonda sobre as dificuldades impostas no acesso aos arquivos cinematográficos palestinianos. A programação conta também com uma conversa com Basel Adra, co-realizador do multi-premiado No Other Land, que retrata a ocupação israelita na sua comunidade, Masafer Yatta, na Cisjordânia. O também jornalista, que continua a relatar as demolições levadas a cabo por Israel no território, estará na Culturgest a 24 de outubro.
A resistência do povo palestiniano, alvo de um genocídio e de um “culturcídio”, como destaca o diretor na mensagem de abertura do Doclisboa, não é a única luta histórica projetada na seleção de filmes. Evoca-se a ditadura militar no Brasil em Anistia 79, a figura de Amílcar Cabral em Amílcar, o colonialismo holandês em The Clearing, os auspícios da independência moçambicana em Os Continuadores da Revolução, e as consequências da Guerra Civil Espanhola em Atlas of Disappearance. A estes títulos junta-se uma retrospetiva dedicada ao cineasta filipino Lino Brocka, condecorado postumamente, ainda que, em vida, os seus filmes tenham sido proibidos. A retrospetiva inclui Insiang, o primeiro título filipino exibido em Cannes, mas também filmes nunca exibidos fora do país.
Ao todo, o público poderá ver 198 filmes de 51 países, onde se incluem 34 estreias mundiais e 32 filmes portugueses. A programação decorre na Culturgest, Cinema Ideal, Cinema São Jorge e Cinemateca Portuguesa, e inclui uma performance no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. A competição internacional terá 11 filmes e sete estreias mundiais. Também a competição portuguesa terá 11 obras, todas elas estreias mundiais. A seleção foi feita num universo de cerca de três mil filmes, entre inscrições e outras obras que a organização decidiu acrescentar à equação.
Não sendo o Doclisboa um festival temático, é um festival “que se preocupa e se interessa pelas possibilidades do cinema”, resume Hélder Beja. E apesar do olhar sobre os mecanismos de opressão do mundo, também há lugar para a esperança. Exemplo disso é o filme de encerramento, Thanks for Coming, que marca também o encerramento da carreira de Alain Cavalier, um exemplo de longevidade, na vida e no cinema, que Hélder Beja espera possa inspirar os mais novos.

Thanks for Coming
Fotografia cedida pelo Doclisboa
Precisamente a olhar para esse futuro, o projeto educativo abcDoc apresenta 14 sessões de cinema em escolas, com espaço para o diálogo com programadores e realizadores, e também as oficinas DOCS 4 KIDS, para crianças e jovens dos seis aos 15 anos, orientadas para a interpretação e exploração de filmes e o estímulo à criação de narrativas. “Eu acredito muito no potencial do cinema, acho que as imagens e a linguagem do cinema têm uma forma muito particular de se relacionar com o mundo e com o presente e de poder ajudar a questionar e a refletir sobre a contemporaneidade”, refere o diretor do festival ao Gerador acerca da iniciativa. Contrariando o imediatismo da atualidade, Hélder Beja identifica no cinema a capacidade de mostrar aos jovens que existe vida para lá de um reels, do Instagram e do Tiktok.
O Doclisboa, bem como o projeto educativo abcDoc, são promovidos pela Apordoc - Associação pelo Documentário, igualmente responsável pelo Doc’s Kingdom, que desde 2000 leva cinema documental a Odemira. Numa vertente menos visível, Hélder Beja identifica no associativismo um papel de preservação do espaço sala de cinema e de combate à falta de diversificação da oferta cinematográfica. Para além de continuar a mostrar, ao longo do ano, os filmes do Doclisboa, Hélder Beja gostaria que a Apordoc pudesse, no médio prazo, ter um papel na exibição de cinema, para que o fim das salas não chegue tão depressa.
A programação completa pode ser consultada aqui.