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Encontros da Imagem: como olhar as crises globais sem perder de vista a utopia

Sob o tema Territórios do Imaginário | Lugares Encantados, a 36ª edição dos Encontros da Imagem, a decorrer nos distritos de Braga e Porto, convoca a ideia da “aldeia global”, onde a esperança num mundo inclusivo convive com uma realidade marcada pelo conflito.

Texto de Cátia Vilaça

Edição de Tiago Sigorelho

Mãos na Terra de Tânia Dinis | Fotografia de Adriano Ferreira Borges

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O que nos ocorre quando pensamos em guerra? Foi com esta pergunta que a fotojornalista Laetitia Vançon iniciou a visita guiada à exposição Tribute to Odesa and the Other Battlefields, patente no Gnration, em Braga. Às expectáveis respostas centradas na ideia de destruição, Laetitia contrapõe normalidade: o casal a fotografar-se numa piscina nas imediações de um porto de Odessa esvaziado de atividade depois da invasão russa, debaixo do som ininterrupto das sirenes (que Laetitia recolheu mas não incluiu na exposição), ou os jovens que transferem o baile de finalistas para a rua, mesmo ao lado da barreira de sacos de areia que protege os edifícios importantes de Odessa de eventuais ataques. 

Momentos antes da visita, Laetitia Vançon partilhou o seu processo de trabalho numa conversa que contou com a presença da fotojornalista afegã Farzana Wahidy, atualmente refugiada no Reino Unido. Experientes na cobertura de conflitos, chegaram à fotografia por motivos diferentes. Enquanto Farzana queria relatar a guerra civil e a repressão das mulheres no Afeganistão, Laetitia aproximou-se da fotografia como parte do processo de cura após uma perda pessoal. Quando documenta conflitos, procura focar-se no lado humano, na coragem e na esperança. Na vulnerabilidade das pessoas face à brutalidade que as rodeia. E também na resistência, como a do casal que insiste em usufruir da piscina sob as sirenes.

Farzana e Laetitia partilharam também os desafios menos óbvios de trabalhar em cenário de conflito. Para além da confiança, que tem de ser construída em passo acelerado, pode criar-se, do outro lado, a expectativa de que aquele trabalho trará a tão necessária ajuda, sendo, por isso, imperativo clarificar e manter a ética, ao mesmo tempo que se garante ao outro a liberdade de desistir a todo o momento.

Visita guiada à exposição Tribute to Odesa and the Other Battlefields de Laetitia Vançon

Fotografia de Ana Dinis

Tribute to Odesa and the Other Battlefields parte da cobertura do conflito que Laetitia Vançon fez para o New York Times, onde, segundo partilhou com o Gerador após a visita, encontra espaço para abordar esta perspetiva humana, numa lógica de jornalismo lento.

Possibilidades de coexistência

A 36ª edição dos Encontros da Imagem – Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais tem como tema Territórios do Imaginário | Lugares Encantados. Na verdade, são dois temas autónomos em diálogo, como explicou ao Gerador Wiktoria Michałkiewicz, curadora convidada desta edição. Se os Territórios do Imaginário se focam sobretudo em temas como a guerra e as fronteiras, os Lugares Encantados trazem uma componente mais esperançosa, com  alguns artistas a moverem-se entre os conceitos, sublinha a curadora. E mesmo quando se abordam temas difíceis, o objetivo é mostrar perspetivas diferentes daquilo que o público está habituado a ver. É o caso da exposição de César Dezfuli, Passengers, que pode ser visitada na galeria da estação ferroviária de Braga. À primeira vista, é um conjunto de retratos. Mas Dezfuli recolheu também as identidades dos retratados: 118 refugiados que atravessaram a rota do Mediterrâneo a partir da Líbia, com destino a Itália. Para este trabalho, o fotógrafo passou três semanas a bordo do navio de resgate Iuventa, em 2016. O projeto continua, tendo o fotógrafo localizado 105 dos 118 passageiros e fotografado e entrevistado 75 deles, para continuar a contar as suas histórias, agora em solo europeu. Não se trata apenas de contribuir para a estatística, mas de demonstrar de que forma as pessoas “recuperaram a sua humanidade, a sua agência e os seus sonhos”, resume Wiktoria Michałkiewicz.

Apesar do espaço para o sonho e a utopia, a curadora sublinha que há sempre conflitos de poder, pelo que quando se persegue a utopia, é necessário perguntarmo-nos se implementamos essa visão de forma democrática ou como uma nova estrutura de poder. Para a curadora, o festival também dialoga com estas questões, com a necessidade de relembrar as pessoas que sustentar a democracia também implica proteger as nossas liberdades, em vez de as dar por garantidas.

Mão, gesto, repetição

Mãos que seguram molhos de plantas. Mãos calejadas. Mãos a lavrar a terra. Movimentos repetitivos. Corpos femininos curvados pela dureza de trabalhar a terra. Mãos na Terra, a exposição de Tânia Dinis na renovada Casa dos Crivos, no centro de Braga, combina imagem em movimento, fotografia analógica, película 8mm e 16mm, imagens de arquivo e escuta, para nos mostrar o trabalho agrícola feminino no Minho, e também o peso que esse trabalho exerce sobre os corpos. O trabalho de Tânia Dinis oscila entre a fotografia, a performance e o cinema, quase sempre com histórias de mulheres como ponto de partida. De mulheres e do seu trabalho, “muitas vezes um trabalho extremamente duro, muitas vezes invisível perante a sociedade”, descreve a artista ao Gerador. Um trabalho que muitas vezes nem é encarado como tal, por não ser remunerado. Natural de Vila Nova de Famalicão e residente no Porto, os seus projetos têm percorrido os arredores desta geografia, e também a sua própria genealogia. O seu primeiro filme, Não São Favas, São Feijocas, parte da história da sua avó, que trabalhou sempre no campo. Mãos na Terra dá continuidade ao propósito da artista de documentar estes trabalhos agrícolas. Às imagens dos arquivos da Casa Pelicano e da Photographia Aliança (antigas casas de fotografia de Braga), além de arquivos pessoais, Tânia Dinis juntou outras recolhidas em contexto de residência artística. Pela primeira vez, a artista juntou também texto da sua autoria, que a ouvimos narrar na projeção que integra a exposição. Nessas imagens está também a sua avó, com o seu corpo que se foi “curvando para a terra e já não voltou”, ilustra Tânia em conversa com o Gerador. 

Aos dias de hoje, o quintal da avó de Tânia ainda existe e ainda é cultivado, algo que a realizadora já deu por garantido mas hoje sabe que é uma incerteza. “Tu percebes que existe uma quantidade de saberes que influenciam a nossa vida e estão a desaparecer”, resume. Por outro lado, Tânia tem notado uma urgência de várias pessoas e de várias comunidades de se voltarem para estes territórios e não os deixarem morrer. 

Para Wiktoria Michałkiewicz, juntar realidades tão dispersas geograficamente reforça a ideia de que os nossos desafios são globais. “Atualmente não existem eventos locais; tudo está interconectado”, explica, exemplificando com a crise climática ou os conflitos à escala global. “Trata-se de mostrar que se algo acontece a nível local, tem certamente repercussões globais”, frisa a curadora.

Os Encontros da Imagem acontecem em Braga, Vila Verde, Guimarães, Porto e Avintes (Vila Nova de Gaia) até 1 de novembro. A programação completa está disponível aqui.

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