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Jeferson Tenório: “Alguns professores têm medo de trabalhar ‘O Avesso na Pele’ em sala de aula”

O escritor brasileiro Jeferson Tenório esteve em Portugal a acompanhar a digressão de O Avesso da Pele, uma adaptação, pelo coletivo Ocutá, do seu romance homónimo publicado em 2020, e integrada na programação do festival de teatro Todos São Palco. Após uma conversa com a encenadora Beatriz Barros em Coimbra, o escritor falou ao Gerador sobre as repercussões que ainda se fazem sentir após a censura ao livro e sobre o momento político do Brasil.

Texto de Cátia Vilaça

Edição de Tiago Sigorelho

Fotografia de Filipe Redondo

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Distinguido com o prémio Jabuti na categoria Romance Literário em 2021, O Avesso da Pele é um retrato contundente sobre o racismo estrutural, narrado por um filho que tenta reconstruir a memória do pai, professor numa escola pública de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul. Através deste olhar, percebemos como o racismo atravessa relações familiares, de intimidade, laborais, e como certos corpos são sempre um alvo. Apesar de premiado e incluído no Plano Nacional do Livro e do Material Didático, o romance seria censurado, em 2024, em três estados do sul do país, uma decisão que continua a ter repercussões mesmo após o seu regresso às bibliotecas escolares.

Ao aproximarmo-nos do final de O Avesso da Pele, há uma frase muito reveladora sobre a geografia do racismo dentro da realidade brasileira: “No sul do país, um corpo negro será sempre um corpo em risco”. Quando falamos de racismo estrutural, estamos a falar de diferentes realidades e de diferentes nuances consoante o território?

Primeiro a gente precisa entender que o racismo estrutural existe porque ele é um elemento do capitalismo. O racismo existe porque ele sustenta o capitalismo. E como é que ele sustenta? Pelo sistema de exploração desses corpos negros. Então, quanto mais negro, mais explorado e mais violentado é esse corpo. E como a gente está falando de estrutura, isso significa que essa estrutura sustenta a sociedade. Temos os trabalhos subalternos, muito parecidos com o trabalho do imigrante aqui. Ao questionar essa estrutura, há um receio dessa sociedade de que essa estrutura seja derrubada. Como é que você sustenta uma sociedade capitalista que precisa da exploração desses corpos?

Dito isso, existem várias formas de perceber esse racismo estrutural. E há também várias formas de atuação desse racismo. Em alguns lugares são mais evidentes, em outros lugares são mais subtis. E em outros lugares pode dar-se a entender que nem existe, mas está lá, na estrutura. No sul do país, e eu estou falando de três estados especificamente - Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul - existe um fenómeno porque são historicamente conservadores, são estados que têm um profundo orgulho de serem descendentes de europeus. Em algumas comunidades no Rio Grande do Sul não se fala português. As pessoas falam alemão, falam outra língua porque nem se sentem brasileiras. E a partir desse orgulho é que se cria justamente essa visão preconceituosa sobre aquilo que não é parecido com eles. Por isso é que no sul, nesses três estados, o racismo é muito mais aparente, é muito mais aberto, e as pessoas não têm vergonha de ser racistas e preconceituosas. E com o avanço do bolsonarismo, nos últimos anos, isso ficou mais evidente ainda. Então, um livro como O Avesso da Pele, quando ele acontece no Rio Grande do Sul, tem um motivo para acontecer lá. São corpos negros que estão sempre em risco. É diferente, por exemplo, quando você vai para o Rio de Janeiro, quando você vai para São Paulo, onde o racismo também é estrutural, mas se dá de uma outra forma, se dá também misturando com a classe social. Na praia (vamos pegar o exemplo do Rio de Janeiro), você tem uma aparente democracia, em que o sujeito mais rico, branco, convive com o sujeito negro que veio da favela, ali naquele mesmo espaço. Mas essa democracia termina ali, porque no momento em que esse sujeito vai para o [hotel] Copacabana Palace e esse menino negro volta para a favela, vemos que essa diferença geográfica já marca uma estrutura racial muito bem definida. E em São Paulo, que é o lugar onde eu moro, você tem uma sensação de diversidade. Porque é um lugar de passagem, é um lugar de muitos imigrantes. É o lugar onde eu me sinto mais à vontade, embora saiba que é um estado onde a polícia é extremamente violenta, e é extremamente violenta nas comunidades. São corpos que não são respeitados, são corpos que não valem nada na visão do Estado. Mas é um lugar onde eu vejo que o racismo é mais subtil e tem a ver com o espaço que você está habitando. E que é diferente do Rio Grande do Sul, dos estados do sul, onde não interessa muito qual é a classe, o que interessa é que você é diferente e, portanto, você é subalternizado.

Em 2024, os governos dos estados de Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul procuraram retirar o livro das escolas. Como se explica que estas realidades convivam quando falamos de um livro que venceu o prémio Jabuti e integra o Plano Nacional do Livro e do Material Didático, num país onde existe legislação promotora de uma educação antirracista [Lei 10.639, que torna obrigatório o o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira, incluindo a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional]? 

A gente precisa avaliar o contexto brasileiro, no contexto em que O Avesso da Pele foi censurado. Ele foi censurado em 2024, já com a ascensão da extrema-direita, do bolsonarismo. O Brasil sempre foi um país racista, preconceituoso, mas que ganhou representatividade no governo, no ex-presidente. E, com isso, as pessoas se encorajaram a não esconder mais esse racismo. E um livro como O Avesso da Pele, que fala sobre violência policial, fala sobre racismo estrutural, denuncia a precariedade do ensino, fala de famílias negras e, de certo modo, critica o espaço do sul, isso tudo também causa uma reação. E essa reação veio do Rio Grande do Sul. Foi uma diretora que resolveu fazer um vídeo denunciando O Avesso da Pele como um livro pornográfico, um livro impróprio para alunos. E sendo que a gente sabe que o livro não é isso, muitas pessoas vieram a público defender o livro, e não só o livro, mas o conhecimento em si. O livro acabou sendo retirado de algumas escolas em três estados, e depois de uma luta jurídica o livro volta para essas escolas, para essas bibliotecas. Mas passado já dois anos da censura, o que eu percebo é que hoje o livro ainda causa temor nos pais. Alguns professores têm medo de trabalhar O Avesso na Pele em sala de aula.

Têm medo das repercussões ainda hoje?

Medo da repercussão, medo de serem questionados, medo de serem processados. Alguns livros meus, muitas vezes, não chegam na sala de aula. Já soube que há bibliotecas que escondem o meu livro. Colocam em caixas e deixam escondidos. Então, esse é o saldo, digamos assim, dessa espetacularização da censura. Foi um grande espetáculo da censura para dar como exemplo, para dizer: “olha, cuidado quando forem mexer com esse livro”. 

O livro demonstra de uma forma cabal o que é viver com o racismo em todas as dimensões da vida, incluindo nas mais íntimas e nas relações familiares. Pelas reações que tem tido ao longo destes anos, acha que o livro conseguiu chegar, pelo menos, a alguns setores da branquitude?

Eu acho que é onde o livro mais chega porque as pessoas negras, quando leem O Avesso da Pele, elas se identificam, se reconhecem. E, para algumas, não é uma novidade o que acontece. Para as pessoas brancas é uma novidade. “Como que eu nunca pensei que pessoas negras passavam por isso?” É uma revelação quando elas têm acesso a O Avesso da Pele. Então, acho que o livro funciona muito mais como uma tomada de consciência da branquitude, como se as pessoas ao ler O Avesso da Pele, começassem a perceber como o racismo está infiltrado nas nossas vidas, nas práticas, e muitas pessoas brancas acabam reconhecendo que também exercem o racismo. Sem saber, elas também acabam reproduzindo o racismo. Então, no fundo, eu acho que eu acabei escrevendo esse livro como uma espécie de educação também, para educar as pessoas. Porque muitas vezes as pessoas são racistas não porque elas querem, mas porque não sabem, porque cresceram dentro de uma sociedade racista. Então acho que O Avesso da Pele acaba trazendo um pouco também didaticamente o que é o racismo.

No livro temos dois professores, o professor Henrique e o professor Oliveira, que deixam marcas fortes nos seus alunos. Na sua experiência como professor também já se cruzou com muitas figuras como estas? 

Eu só estou aqui, em Coimbra, em outubro de 2026, por causa de professores que eu tive ao longo da minha vida, professores que não desistiram de mim. O professor às vezes está tão cansado que ele simplesmente desiste. Desiste dos seus alunos, só dá a sua aula e vai para casa. E eu tive alguns bons professores que acreditaram em mim e me disseram que eu poderia escrever, me apresentaram à literatura, me fizeram me apaixonar pela literatura. Devo muito a esses professores, especialmente a dois professores. Um se chama Divino Salvador, professor que eu tive no sexto ano do ensino médio, que me ensinou a jogar xadrez, me falou sobre como o universo funcionava, falava sobre a gente ter coragem na vida. Eu tinha a impressão que ele não dava aula de ciências, ele dava aula sobre a vida. E, mais tardiamente, um professor de literatura, muito parecido com o Henrique, que, na faculdade, foi uma grande referência para mim e que hoje é meu amigo. Então eu tive, sim, professores que me salvaram. Eu posso usar essa palavra: os professores me salvaram de ter tido uma vida difícil, medíocre.

Esta entrevista vai ser publicada já depois da segunda volta das eleições presidenciais no Brasil, mas gostaria de lhe perguntar quais são, neste momento, os seus receios e também as suas esperanças para os próximos quatro anos.

Bom, independentemente do que vai acontecer no dia 25, quem ganhar essa eleição vai definir o Brasil pelas próximas décadas. Estamos diante da eleição mais importante, mais importante do que a ascensão do bolsonarismo. Porque quando o Bolsonaro chegou ao poder, foi uma surpresa. Nós não esperávamos que o Bolsonaro vencesse. Ele começa como uma grande piada e essa piada vira o presidente.

E a composição das câmaras não era como é agora.

Não é como agora e mais ainda: existe hoje um conhecimento e um apoio dos Estados Unidos, ou seja, se o Flávio Bolsonaro vencer, não vai ser mais algo improvisado, como foi com o governo Bolsonaro. Ou seja, o Bolsonaro estava entendendo como é que faz para você criar um Estado autoritário, utilizando ferramentas lá da década de 1970, colocando militares, tendo um discurso autoritário. Mas agora não. Agora, se o Flávio Bolsonaro chegar ao poder, ele tem todos os instrumentos, e vai ter o apoio dos Estados Unidos para conseguir fazer o que quiser. Para mudar a Constituição, vai ter uma Câmara junto com ele, o Senado junto com ele. Então, é realmente crucial para o destino do Brasil esse momento. É um momento muito perigoso. E caso o Lula vença, também vai ser um governo bastante difícil. E vai ser um governo que pode até não conseguir chegar ao seu final, justamente porque a grande maioria vai ser uma maioria conservadora e ultraconservadora. Então, realmente, o que me dá esperança é que pelo menos 49, 50% dos eleitores não concordam com esse país autoritário. Então, se houver tentativas de golpe ou de autoritarismo, também haverá muita luta. É isso que me dá esperança.

A ascensão da extrema-direita está a acontecer em sucessivos países da América Latina, acontece na América do Norte, acontece na Europa, em geografias muito diferentes. Na sua perspetiva, os mecanismos que levam a que esta ascensão aconteça de forma tão ampla têm similitudes nestes lugares ou há diferenças relevantes consoante os contextos?

Há um movimento de um avanço da extrema-direita em todo o lugar. Na verdade, a extrema-direita sempre esteve à espreita, mas ela tem ganhado terreno e contornos, espaço, poder. Acho que estamos nos encaminhando para o fim de alguma coisa. Não sei se é o fim da humanidade, mas estamos nos encaminhando para o fim de alguma coisa, porque esses movimentos autoritários também se autodestroem. Movimentos autoritários não duram muito tempo, ou quando duram, eles se autodestroem. Só que essa autodestruição pode ser o fim da humanidade. É sobre isso que a gente está falando. E quando o escritor Ailton Krenak, que é um intelectual indígena, escreve um livro chamado Ideias para Adiar o Fim do Mundo, ele não nega que o fim está chegando. O que ele propõe é como a gente faz para adiar isso. Então é muito nesse sentido que eu tenho pensado. É um movimento que não é uniforme, esse movimento da extrema-direita, mas é o movimento que tem ganhado espaço e me parece que nos encaminha para a crise climática, para a falta de moradia, para a xenofobia, para o modo como a gente lida com o diferente, com o outro. Então, me parece que isso tudo tem ganhado terreno de maneira muito rápida. Na minha visão, a gente vai chegar ao fim de alguma coisa, mas a nossa luta e a nossa persistência é para conseguir adiar isso para o mais longe possível.

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