Todos os anos surgem, nesta época, dois grupos de discursos rivais. A maior parte das pessoas tende a encarar o período natalício como um momento de magia, de união, de carinho e de reflexão. Apanhadas pelo consumismo das prendas e das refeições, esgotam as energias em volúpias de prazer do dar e do receber, culminando esta energia apenas na noite do dia 25 – e recomeçando, ainda que num tom ligeiramente mais tranquilo, na última semana do ano. No entanto, também existem aqueles que percecionam no Natal um tempo de hipocrisia, de hipervalorização do material, de liquidez baumaniana que penetra as relações e na qual se edifica um complexo campo de emoções artificiais que obrigam todos a ficarem contentes sem quaisquer razões fundamentadas.
Admito que estou mais próximo do primeiro grupo de sujeitos. Para mim, o Natal sempre foi especial, fruto de uma espera de centenas de dias que termina quando começo a visualizar as decorações típicas, a ouvir as canções da temporada, a inalar os cheirinhos das doçuras e a compreender empaticamente a afeição e, por vezes, a paciência depositada na escolha das prendas e na realização dos seus embrulhos. O dia 24 (e também o 31) é fulcral para a minha identidade, e quem me conhece saberá imediatamente a justificação para isso: trata-se do dia em que envio uma mensagem a todos os meus contactos apelando à sua felicidade. Uma mensagem original, com palavras que tento não repetir e que não caiam na monotonia da etiqueta ou do protocolo, mas que antes sejam uma missiva promotora do afeto e um bilhete para festejar os valores da família, da amizade e da humanidade que nos aproxima.
Talvez seja uma das minhas maiores “fraquezas” enquanto sociólogo a incapacidade de olhar para a época natalícia como uma produção extremamente bem conseguida do capitalismo; todavia, provavelmente tal acontece porque não sou daqueles que interpreta este sistema como o pandemónio exclusivo das injustiças. Não é possível branquear as lógicas capitalistas que criam, reproduzem e reforçam, frequentemente, desigualdades em todos os setores das nossas vidas – do económico ao da habitação, da saúde ao ambiental –; mas elas também fomentam a diversidade de produtos e a inovação que possibilita o avanço da técnica e da ciência. A história é isto mesmo, quase nunca feita de heróis puros e de vilões integralmente malvados, mas antes, na esmagadora maioria, entre os dois extremos descritos.
O Natal é também esta ambivalência, sendo certo que podemos afirmar o mesmo de uma Páscoa, ou de um Carnaval, ou dos Santos Populares. Eu prefiro pensar o natalício como o ponto em que nos deixamos ser contemplados pelas auras da jubilação na qualidade de recompensas pelos esforços empreendidos em semanas e semanas de correria. Afinal, os momentos são aquilo que fazemos deles – e há muita vontade oculta nos seres humanos de abraçar, beijar e agradecer perante o imenso autoconstrangimento aplicado nos nossos quotidianos.