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A importância da arte hoje

João Garcia Miguel destaca a evolução da Arte ao longo da história e a sua importância na expansão da consciência humana, ressaltando a necessidade de compreender e preservar a ligação entre as artes, o espírito e a matéria, além de enfatizar o papel das artes aplicadas na intervenção social e coesão.

Texto de Redação

©Mário Rainha Campos

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Segundo a História nos dá a conhecer, a Arte foi uma das primeiras manifestações da nossa consciência de sermos humanos. Há mais de cinquenta mil anos surgia, para lá da nossa animalidade, uma forma de representar o mundo a partir de uma expressividade relacionada ao corpo e à percepção das coisas, que tornava possível à humanidade perdurar no tempo. Desde então, foi sendo atribuído aos artistas o papel de representar o instante, retratando acontecimentos da vida e glorificando guerreiros e políticos. Atualmente não existe já esta necessidade de mimetismo, razão provável para que o papel das Artes seja hoje - talvez mais que nunca - difícil de entender. O que não nos deve demover de o tentar fazer, de pensar que fazer arte é, hoje, mais importante e essencial pela simples razão que é necessário expandir a nossa consciência e abrir novos mundos interiores que, em diálogo neste espaço de uma realidade comprimida e digital, nos possam trazer alternativas para a vida nos seu todo.

Se olharmos para trás, percebemos que valores como a dignidade, a igualdade, a fraternidade - tão postos à prova no momento atual com a intensificação de conflitos e de crises - são, desde sempre, professados pelas artes, partindo de uma noção de relação umbilical entre as nossas duas consciências: a humana e a coletiva.

Compreender e restaurar esta ligação entre as artes, o espírito e a matéria é, pois, o caminho para entendermos o corpo e a ética, tão essenciais hoje ao equilíbrio, à ecologia e à democracia. A imaginação - provavelmente o maior ativo da área artística - tem também um papel na medida em que é uma espécie de atrator de força magnética que conduz ao futuro e dá origem ao pensamento artístico: a capacidade de criarmos imagens, linguagens, formas de expressão interiores que são depois partilhados com outros no espaço comum do social. É o que, de alguma maneira, nos pode fazer caminhar todos juntos, com dignidade.

A Companhia João Garcia Miguel, que fundei em 2002, e que é onde mais destacadamente tenho colocado em prática esta noção de arte enquanto ferramenta de intervenção social, é hoje um coletivo de trabalho dedicado à criação artística e à performance. Distinguimo-nos, acredito, pela forma como abordamos e preservamos o nosso passado histórico - recorrendo muitas vezes a produtos artísticos de figuras que marcaram as artes - e como os interpretamos à luz dos nossos dias. Nesse sentido, quase que professamos um renascimento, uma fusão de tempos e espaços. É que um objeto artístico contemporâneo pode ter como ponto de partida um texto do séc. VI, uma imagem do século XIII ou uma música do século XX e com eles conviver de forma harmoniosa. É nesta conjugação de tempos que, de forma mais evidente, percebemos a nossa própria contemporaneidade e nos aproximamos de diversas formas de ver e sentir o mundo, exponenciando a nossa sensibilidade para com o que nos rodeia. É um diálogo entre tempos, oferecido ao espectador através da performance, que é a primeira zona onde a linguagem se desenvolve e de onde saem os códigos para o espaço comum. Esta performance tem tanto de passado - um campo mórfico que lhe dá sentido - como de futuro, ao carregar em si múltiplas possibilidades de códigos e vocabulários, para além das linguagens que conhecemos. É, por isso, uma zona de experimentação onde o ser criador se manifesta. É uma zona de experimentação associada ao campo das artes desde sempre - novos meios expressivos, novas tintas, novas linguagens - tudo isso é experimentação, da qual a performance é o expoente no século XXI. É a partir do ato performativo que a Arte pode antecipar a realidade, acompanhar o evoluir das sociedades e contribuir na construção de uma sociedade distinta da que temos hoje. Será que é possível?

João Garcia Miguel com os intérpretes do espetáculo "O Meu Nariz é Árabe", do qual é encenador | ©Mário Rainha Campos

É claro que o campo artístico é algo em permanente reconfiguração, que exige tempo e profundidade de preparação, quer por parte dos jovens a iniciar o seu percurso, quer por quem já está no “terreno”. E se é certo que existem muitas entidades no meio artístico com propostas formativas adaptadas à realidade, também é verdade que falta, ainda, uma prática letiva mais próxima às saídas profissionais e laços mais profundos com performers e outros artistas já estabelecidos que consigam acompanhar o ritmo da mudança. A somar, há o enorme desafio que é passar da teoria e da prática para a dimensão da realidade artística factual: apresentar espetáculos perante o olhar do público. Onde o corpo, a fisicalidade, e as condições psicológicas se interpõem como algo a superar. E superar é procurar o mestre e ultrapassá-lo, em cada detalhe, palavra, gesto, coreografia. Para o ultrapassar até ao nosso amado centro.

Entender o papel das Artes no passado e no presente é, pois, essencial para melhor construir o futuro do setor. O trabalho de um artista assenta sempre no trabalho de outros que já aqui chegaram e cujo trabalho toca cada um de nós de forma diferente. Todos nós, artistas, faremos um dia parte da memória, seremos memória coletiva sobre a qual outros irão trabalhar. Por isso, uma ideia de registo documental é também absolutamente fundamental para a compreensão e futuro das artes. Porque preserva as experiências, a investigação, a experimentação de terceiros, permitindo estendê-la no tempo e fazê-la chegar a outros artistas, criadores, investigadores à frente no curso do tempo. É o registo documental do presente - o guardar e preservar o que se faz e se pensa, os desvios do sentir e do organizar das intuições cruzadas com as expressões de linguagem - todos esses detalhes que o fazem existir. É esse registo nas memórias, nos corpos e no espaço que permite criar espíritos curiosos, inventivos, criativos e artísticos capazes de reinventar e recriar o mundo a cada instante e depois devolvê-lo ao espectador. Permite o hábito da criação, ainda, gerar um fator de esperança nesta ideia, neste dar valor ao que fazemos e na crença que esse hábito de criar em permanência terá relação com alguém no futuro. E que esse espírito de criação avive a consciência: de que todos nós trabalhamos na construção de uma humanidade sem cessar.

João Garcia Miguel em "Ode Marítima Remix", espetáculo no qual é encenador e intérprete | ©Mário Rainha Campos

Ao longo do meu percurso tenho vindo a dar voz à Arte como aqui a defendo: procurando uma voz. Fazer parte de um coro. De um entrecruzado de vozes. E fazer isso enquanto agente de intervenção, de integração e de coesão social. Esta dimensão das artes aplicadas ao contexto público é algo muito importante para mim. Daí que esta relação entre o conhecimento do corpo e a construção da humanidade a cada instante, me pareça um dos grandes objetivos da Arte nos dias de hoje. O futuro das artes nisto reside, disto depende: expandir a consciência da nossa humanidade.

O Gerador e a Companhia João Garcia Miguel são parceiros.
Texto de João Garcia Miguel

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