De portas fechadas desde o início do estado de emergência, são muitos os espaços ligados à fruição cultural que fazem contas à vida sem terem a possibilidade de perspectivar como serão vividos os próximos meses. Se no início a resposta foi passar ao online, com transmissões em directo e recurso ao arquivo já disponível, num segundo momento, e já com o início do desconfinamento, a abordagem passou a ser de espera, com tempo para uma reflexão sobre como se iriam adaptar tendo como horizonte a reabertura de portas ao público.

A decisão é necessariamente complexa e gera debate, sobretudo depois da reabertura de teatros, cinemas, entre outras estruturas ligadas à cultura e às artes. Já esta quinta-feira, dia 30 de julho, o tema foi abordado em Conselho de Ministros, sendo que que o setor já fica a conhecer as condições para a reabertura dos seus espaços.

De acordo com a informação vinculada, bares e discotecas poderão reabrir, mas apenas com as mesmas regras que vigoram sobre os cafés, pastelarias e casas de chá. O que isto significa é que não só terão as 20 horas como horário de encerramento, não podendo funcionar à noite, como também não poderão operar como espaços de dança e de convívio próximo.

“Permanecem encerrados os bares, outros estabelecimentos de bebidas sem espetáculos e os estabelecimentos de bebidas com espaço de dança, mas passam a poder funcionar como cafés ou pastelarias, sem necessidade de alteração da respetiva classificação de atividade económica, se cumpridas as regras da DGS e os espaços destinados a dança permaneçam inutilizáveis para o efeito”, lê-se no comunicado do Conselho de Ministros.

Estes estabelecimentos poderão usar os seus espaços exteriores para montar esplanadas e, se tiverem pistas de dança, estas poderão ser ocupadas com mesa, desde que sejam respeitadas as normas de distanciamento social estabelecidas pela Direcção-Geral da Saúde. No entanto, não poderão servir refeições como restaurantes, cingindo-se apenas a refeições ligeiras.

À espera de uma mudança
Partimos para esta reportagem no seguimento de uma outra publicada na passada semana, intitulada De portas abertas, espaços e projetos culturais fazem leitura dos tempos que se vivem, que dava conta do que os espaços já reabertos têm feito para se adaptar à atual conjuntura. A partir dessa leitura, percebemos que eram ainda muitos os espaços que, mesmo em tempo de desconfinamento, se mantinham de portas fechadas, por não reunirem as condições necessárias de distanciamento.

A pandemia acentuou desigualdades sociais e a precariedade enraizada no setor cultural, e serviu para algumas estruturas e projetos pensarem em novas formas de criar, de manter o contacto com os públicos e de não largar a mão aos compromissos já assumidos. Partindo deste pressuposto, o Gerador foi ouvir responsáveis de alguns destes espaços, com importância reconhecida nas atividades que desenvolvem no âmbito cultural e artístico.

É o caso do Musicbox, em Lisboa, sala de concertos amplamente reconhecida pelo seu trabalho de alavancagem a novos artistas que ali dão, muitas das vezes, os seus primeiros passos. Nos últimos meses, por conta do seu encerramento, as receitas foram nulas, mas nem por isso deixaram de pensar em alternativas. Uma das iniciativas que resulta dessa reflexão aconteceu ao longo deste mês de julho, através da qual o clube programou uma série de atuações ao vivo, no Teatro Municipal São Luiz, reunindo artistas de diferentes backgrounds musicais e que em circunstâncias normais estariam no palco do Musicbox.

Ao Gerador, Gonçalo Riscado, um dos sócios da Cultural Trend Lisbon (CTL), a empresa proprietária do Musicbox, conta que esta parceria serviu para “colocar de novo os artistas em contacto com o público”. “Consideramos que o online e streaming provaram ser um complemento para estas situações, mas não é a mesma coisa, não há base da relação artística com o público”, sustenta.

Por outro lado, o responsável alerta para a falta de envolvimento das marcas, que desapareceram “mesmo depois de terem apoiada algumas iniciativas online”. Não obstante, a organização do Musicbox decidiu concorrer ao Fundo de Emergência Social – Cultura, da Câmara Municipal de Lisboa, tendo desenhado o projeto Coletivo, juntando seis editoras nacionais – CelesteMariposa, Cuca Monga, Discotexas, Lovers & Lollypops, Monster Jinx e Omnichord Records – para criação de projetos originais. “Estamos a tentar perceber de que forma é que podemos fazer qualquer coisa, sendo que objetivo é mantermos os artistas a criar e a trabalhar para, a partir dos seus artistas, construirmos espectáculos e conteúdos”, sublinha. Quanto à reabertura do Musicbox será preciso esperar por novas decisões.

No caso do Plano B, no Porto, espaço multi-cultural onde se promovem diversas iniciativas artísticas, a situação é semelhante, uma vez que a música é o seu maior foco de actividade, desde concertos, live acts e Dj sets. De portas encerradas desde março, Filipe Teixeira, um dos sócios do espaço explica que tem sido um período difícil, mas que não deixaram de cumprir as obrigações para com os seus trabalhadores. 

“Tivemos alguma programação online, em que convidámos DJs, residentes e não-residentes, apostámos em diretos, entre outras iniciativas”, conta, acrescentando que estão neste momento mais focados na reflexão sobre como vão ser os próximos meses. “Parámos porque achamos que estamos num momento de reflexão, para além de ser altura de verão e as pessoas quererem sair. É preciso também tirar umas férias para se poder fazer uma análise e projetar o futuro”.

Tendo em conta a possível reabertura que se avizinha, Filipe considera que será, no entanto, difícil trabalhar na sustentabilidade destes espaços se apenas puderem reabrir certas partes que os compõem. “Nós temos várias salas, mas não podemos funcionar como ‘mancos’ e abrir apenas uma parte. Para nós, será sempre complicado abrir a meio gás, porque não é a mesma coisa”. De forma mais abrangente, o responsável alerta para o provável encerramento de espaços que, tal como o Plano B ou o Musicbox, são hoje fundamentais no circuito que materializam para os novos artistas. 

O Plano B é um dos espaços de concertos mais reconhecidos da cidade do Porto © Plano B

Um modelo associativo para estes espaços
A dimensão referida por Filipe Teixeira é também destacada por Gonçalo Riscado, do Musicbox. Ao Gerador, o responsável enviou diversos documentos, um deles sobre o modelo de resgate e apoios das chamadas Grassroots Music Venues de Londres. Trata-se de um documento, elaborado em 2015, que pretende encontrar soluções para que estas salas, ligadas ao universo musical, não fechem portas de forma indeterminada. 

Em Portugal, e seguindo esse mesmo exemplo, Gonçalo avança que já conseguiram juntar 23 salas de concertos semelhantes, onde consta o Musicbox e o Plano B, entre outras espalhadas de norte a sul do país. De acordo com os dados vinculados, na sua totalidade, passam por estas salas mais de um milhão de espectadores anualmente, constituindo-se como um importante ecossistema cultural. 

“É um circuito de salas de programação independentes, onde muitos artistas iniciam as suas carreiras. Que permite que os artistas se divulguem, que exista um circuito para além dos festivais e que permita até que artistas que já atuam em grandes salas possam regressar a salas de maior proximidade com o público. É um ecossitema bastante importante no país mas infelizmente ainda pouco valorizado e falado”, realça.

Neste sentido Gonçalo Riscado, tal como Filipe Ferreira, alerta para o perigo do desaparecimento destes espaços, que vive das receitas mas também da componente de venda de bebidas e comida. Embora sinta que as medidas para os primeiros meses foram bem desenhadas, o responsável considera que deve “caber ao Estado decidir quais são os investimentso necessário para que estes ecossistemas não desapareçam”. “O nosso problema não foi de 3 meses, nem vai ser de 6 meses. Falta pensar quais é que são as medidas daqui para a frente e proteger este circuito. Parece-me inquestionável e crítico”, salienta.

Da música ao cinema
Num caso distinto, por se tratar de um projeto que não vive da dependência de um horário mais fixo de funcionamento, o Alvalade CineClube mantém-se igualmente de portas fechadas. O cineclube tem as suas projecções no Centro Cívico Edmundo Pedro, em parceria com a Junta de Freguesia de Alvalade, sendo que o auditório ainda não está em funcionamento. Bruno Castro, um dos responsáveis, explica ao Gerador que estão neste momento a aguardar indicações de quando e como poderá funcionar cineclube.

Tendo a génese do projeto a intenção de “devolver a experiência cinematográfica à cidade e às pessoas”, este período é negro e acentua a tendência de encerramento de salas de cinema devido à diminuição de espectadores. Durante o confinamento, embora pudessem ter optado por uma programação online, a posição tomada foi outra.

“O período de isolamento social foi particularmente duro para o projeto porque, na verdade, pensar em programação online não está no nosso ADN. Somos pelo cinema, no cinema, e isso não se substitui com um ecrã em casa. E, além disso, está por pensar e fazer uma discussão profunda sobre direitos de autor, implicações de programar online, entre outros aspectos. Isto significa que aproveitámos a fase de isolamento para repensar programação até final do ano e preparar projetos para o futuro. Estamos activamente a trabalhar em novos projectos e como assegurar os meios para os implementar, mantendo a nossa identidade”, explica.

O Alvalade CineClube foi fundado em 2019 e tem promovido um maior encontro do bairro onde se insere com o cinema © Alvalade CineClube

Por outro lado, realça, “o modelo das sessões, que implicam partilha e diálogo com o público, não condiciona a decisão porque conseguimos fazê-lo assegurando todas as condições de segurança e saúde. O espaço tem essa flexibilidade, é grande e conseguimos mexer no layout”.

Numa altura em que já preparam a retoma da programação para meados de setembro, que será seguido de um ciclo especial até final do ano, Bruno Castro realça apenas que – tal como na música –  o online pode ser complementar mas não substitui a experiência tradicional do cinema. “Essa poderá ser transformada, evoluir noutros sentidos, os cinemas poderão activar-se com projectos educativos e outras iniciativas mais próximas das pessoas, e acreditamos que o espaço digital não se converte como primário mas como complementar. Não são duas faces de uma moeda, são caminhos paralelos que trabalham entre si”.

O horizonte da reabertura mais próximo da realidade
A reabertura está no horizonte destes responsáveis mas as perspetivas para os próximos meses mantém-se incertas. Espaços como o Musicbox, o Plano B ou o Alvalade CineClube vivem da proximidade com o público e dos circuitos que materializam, promovendo uma maior ligação dos territórios onde se inserem às artes e à cultura. Os meses que passaram foram uma prova à sua resistência, onde o objetivo primário foi o de manter postos de trabalho e depois de o relançar bases que sustentem o futuro.

A par disso, e ainda que no estudo Barómetro Gerador Qmetrics, muitos dos inquiridos afirmem estarem mais “resistentes a voltarem a discotecas” e espaços semelhantes já a partir de setembro, é também natural que tal como para os proprietários destes espaços, a situação vá mudando a cada dia que passa. E sejam quais forem as regras – como aquelas que se anunciaram hoje -, o mais certo é que estes espaços possam voltar a abrir portas e a projetar o futuro de forma mais realista.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de capa de Ana Viotti

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