Na região de Macedo de Cavaleiros, na pequena aldeia de Podence, existe, desde 1985, um grupo de 20 homens que todos os anos, pela altura do carnaval, se mascaram de Caretos. Intitulados de Grupos de Caretos de Podence, atualmente, são os responsáveis por chocalhar as mulheres do território transmontano.

Desde 2019, especificamente desde o dia 12 de dezembro, a tradição foi considerada Património Imaterial da Humanidade, pela Unesco. Ainda assim, existem alguns detalhes que merecem ser revisitados.

Após um ano do galardão, e do assinalar do primeiro aniversário, o Gerador foi falar com António Carneiro, atual presidente do Grupo de Caretos de Podence, sobre o nascimento da tradição, a entrada na lista do Património Imaterial da Humanidade, e sobre as necessidades atuais da região.

O tema dos Caretos de Podence não é recente no Gerador, inclusive tivemos uma semana temática dedicada aos mesmos no nosso site. Descobre aqui alguns dos trabalhos realizados nessa data: fotorreportagem de Manuel Malzbender sobre o artesão Antão; André Gago, o "colecionador" de máscaras; a tradição dos Caretos.

Gerador (G.) – O grupo dos Caretos de Podence surgiu no ano de 1985, ainda assim podes revelar um pouco como nasceu a ideia de criação deste grupo?

António Carneiro (A.C) – Este grupo foi criado com a necessidade de haver uma entidade que desse continuidade a uma tradição que estava quase extinta. Em 1985, os Caretos saem, pela primeira vez, do seu habitat natural, da aldeia de Podence, aqui no nordeste transmontano. E foi a partir daí que os Caretos de Podence começaram a ter a sua visibilidade fora do território da aldeia de Podence. As coisas aconteceram naturalmente, com uma caminhada longa, até chegarmos ao conhecimento mundial que foi a atribuição do galardão do Património Imaterial da Humanidade, pela Unesco, a 12 de dezembro de 2019, na Colômbia.

Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence

(G.) – De momento, o grupo encontra-se sediado na pequena aldeia de Podence, em Macedo de Cavaleiros. Porquê a escolha desta aldeia? Não sentiram receio, numa fase inicial, de que, devido à localização, a tradição não tivesse a devida visibilidade?

(A.C) – Quando começamos com o grupo nunca pensamos chegar a este estrelato mundial. Foi um trabalho espontâneo e dedicado em que, ao longo dos anos, as coisas aconteceram por si só. Mesmo com a história do selo da Unesco, não podemos ficar parados.

O símbolo da Unesco não nos deu nenhum cheque bancário, nem medalhas, veio dar-nos, acima de tudo, mais responsabilidades para manter a tradição para as gerações vindouras. E mantê-la de uma forma sustentável.

Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence

(G.) – Os caretos representam imagens diabólicas e misteriosas que todos os anos saem à rua nas festividades carnavalescas.  Porquê a escolha da época do entrudo para saída dos Caretos à rua?

(A.C) – As tradições dos Caretos de Podence estão inseridas nas festas de inverno, são rituais de passagens. Outrora, eram formas de dar a fertilidade à mãe terra, e os Caretos apareciam nesta altura do ano, entre o tempo do fim do inverno e o anunciar da primavera.  O carnaval é o período de transição para partir para a quaresma, onde na quaresma nada se permite, e no carnaval tudo é permitido. Aquilo que outrora não se fazia de uma forma regular, nesses três dias os Caretos gozavam dessa força e dessa dupla personalidade para fazer as suas diabruras.

Hoje, a tradição teve de evoluir, como qualquer outra. Não perdendo a sua essência de chocalhar as mulheres. Há o ritual de bater com os chocalhos nas nádegas das raparigas, que simboliza um ato de fertilidade de ir à procura da mulher, e de acariciar. Antigamente, não era fácil haver esta aproximação como agora há com as redes sociais. Antes, aguardava- se muitas vezes pelo carnaval para o moço ir a casa, pela primeira vez, da namorada.

No carnaval, os Caretos de Podence têm também um ritual chamado programa casamenteiro. Consiste em casar todas as mulheres de Podence, muitas vezes com dotes sarcásticos, em que muitos desses casamentos eram fictícios, mas depois acabavam por casar na realidade. É um ritual que mantemos no entrudo chocalheiro, em Podence, durante quatro dias.

Esses quatro dias têm, ainda, várias atividades: atividades com a parte da paisagem, e com a parte gastronómica. Isto são formas de conseguirmos ter um programa diferenciado, e atrativo que consegue atrair uma aldeia do nordeste transmontado, que ocorreu no ano passado na ordem das 50.000 pessoas.

Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence

(G.) – De momento, o grupo é constituído apenas por elementos do sexo masculino. Existe algum motivo em particular para esta decisão? Nunca pensaram em alargar a tradição para o grupo feminino?

(A.C) – Nós, em termos de grupo organizado, somos mesmo só homens. Mas, no próprio entrudo da festa, essa exigência, esse normativo, fica fora do contexto. No carnaval as mulheres também se vestem de Careto. Nós, em termos de grupo e de associação, somos mais radicais de manter a tradição na sua essência. Se o homem chocalha a mulher, não faz sentido a mulher chocalhar os homens. São esses os princípios que temos, são questões internas que temos. Mas tal não quer dizer que no futuro algo não mude.

Se a mulher quiser ir para a festa e trajar-se de careto ninguém a impede, agora, dentro de um grupo organizado, por enquanto, é só composto por homens.

Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence

(G.) – Foi a 12 de dezembro de 2019 que os Caretos foram anunciados como Património Imaterial da Humanidade. Na altura, como receberam a notícia? Era algo desejado há muito tempo?

(A.C) – Nós já tínhamos entrado numa parcecia galaico-portuguesa na qual os Caretos estavam inseridos em 2004. Só que, na altura, a candidatura acabou por cair, porque era um projeto muito abrangente, abarcava determinados rituais de festa, e a própria Unesco decidiu não levar essa candidatura para a frente. A partir daí, houve uma intenção do município de Bragança de lançar uma candidatura a património, só que nada se concretizou.

Fomos nós que, em 2014, iniciamos este processo, o processo da Unesco exigente, e que exige o primeiro passo do património cultural a nível nacional. É um inventário que é feito, neste caso por nós, durante três anos, e após esse reconhecimento por parte do Ministério da Cultura obtivemos o consentimento por parte da Unesco para que apresentássemos a candidatura.

Depois, foram mais dois anos em que a candidatura foi reconhecida como uma candidatura exemplar a nível internacional e nacional. Para nós, foi uma grande alegria. Acho que contribuiu para catapultar as terras de Macedo de Cavaleiros, e de Trás-os-Montes.

Foi pena a pandemia ter aparecido, ainda conseguimos fazer o entrudo chocalheiro em que tivemos, como convidado de honra, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, e depois também não ficamos parados. Conseguimos, até à data, fazer algumas intervenções na aldeia de Podence, e esse é já um propósito que vamos continuar, e tornar a aldeia mais colorida de Portugal.

Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence

(G.) – Em contexto de celebração do primeiro aniversário dos Caretos de Podence a elevação de património da humanidade, de que forma procuraram assinalar esta data, face à pandemia instaurada no país?

(A.C) – No dia 12 de dezembro quisemos assinalar a data do primeiro ano da atribuição do galardão. Foi uma cerimónia simbólica. Essa cerimónia consistiu na construção de uma placa alusiva à data, com 12 máscaras a assinalar o dia 12 de dezembro. Para além disso, tivemos, ainda, a inauguração do caretoselfie, em que quem visitar Podence tem a oportunidade de tirar uma foto quase dentro de um Careto. E uma visita aos 12 morais que Podence tem alusivos à tradição. É uma cerimónia simples, mas como os Caretos têm máscaras, eles andaram à solta. E vamos esperar que no próximo ano haja entrudo chocalheiro. Haverá sempre caretos à solta em Podence, vamos ter de fazer cumprir a tradição.

Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence

(G.) – A localidade tem já um projeto em vista para o espaço, o Museu Europeu da Máscara e do Chocalho prometido pelo Presidente da República. Para quando a data prevista de construção? E qual o principal objetivo do museu?

(A.C) – Quando esteve cá o Presidente da República foi lançado um desafio que passa pelo seguinte: há a exposição mundial no Dubai, em que Portugal tem um pavilhão direcionado à temática da cultura portuguesa, adiado agora para outubro, do próximo ano, devido à covid-19.

Após esse término do pavilhão, esse pavilhão amovível, será colocado numa zona do interior, e com baixa densidade populacional. Claro que isto é uma questão governamental, que terá de ser o Governo a decidir para onde vai o pavilhão, e nós estamos a fazer força para que o pavilhão venha para Podence, e possa ser instalado ali o Museu Europeu da Máscara e do Chocalho.

Não é um pensar grande. É um pensar que a aldeia de Podence, apesar de ter 200 habitantes, está num eixo estratégico em termos geográficos. Tem as praias do Azibo muito próximas, no fundo da aldeia tem a autoestrada A4 que está próxima de Bragança e de Mirandela. E isso faz com que haja condições para que esse equipamento possa ser uma mais valia para o nordeste transmontano.

Acho que todos temos a ganhar. Trás-os-Montes precisa desse dinamismo económico, e que poderão trazer mais afetividade sendo isso que nos move. O nosso sonho é que esse museu venha para Podence, e que se consiga materializar em 2023, dado que a exposição no Dubai só termina em abril de 2022.

Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence

(G.) – Numa entrevista à Lusa afirmaste o seguinte: “Não nos deu dinheiro, nem troféus, deu-nos responsabilidade para manter esta matriz”. Podes explorar um pouco mais esta ideia?

(A.C) – Nós temos de pensar que, com o troféu, ou com a entrada na lista do Património Imaterial da Humanidade, nós não recebemos uma taça ou uma medalha, recebemos, sim, uma visibilidade a nível mundial. Nesse âmbito, não nos podemos só conformar ao galardão, e temos de ser mais dinâmicos, e temos de, ao longo do tempo, nos reinventarmos de ano para ano.

O museu que ansiamos passa por aí: reinventarmo-nos e pensar longe. Depois, temos outra questão fundamental que é o plano de salvaguarda que passa por criar oficinas para os mais novos para terem a experiência de ser um facanito. Um facanito é aquele miúdo que se veste de careto e vai atrás do Careto grande. Tudo isso está para breve. É essa a dinâmica que queremos manter para que o selo permaneça para sempre.

O selo tem de ser revalidado de seis em seis anos. Para quem não sabe, o selo não é chegar, pôr o carimbo e está tudo feito. Temos de continuar. Mas acho que as coisas estão a correr bem.

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(G.) – Na mesma afirmaste ainda que “a aldeia é pequena e precisa de infraestruturas, só possíveis de concretizar, com ajuda do município, para receber os milhares de visitantes que anualmente, já antes da distinção da UNESCO, lotavam os alojamentos de Macedo de Cavaleiros e dos concelhos vizinhos.” De momento, quais são as necessidades prioritárias da aldeia? Acreditas que tais condicionamentos das infraestruturas podem determinar a não ida dos visitantes a Podence?

(A.C) – Sim, isso é fundamental. É fundamental a parte das infraestruturas, dos sanitários e dos parques de estacionamento. O município está com abertura para que isso possa ser materializado no terreno, as coisas vão acontecendo ano a ano, e espero que o poder autárquico veja esta festa de outra forma. Espero que, no futuro, haja condições para receber bem os nossos visitantes.

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(G.) – Os Caretos de Podence, em parceria com a marca Castelbel, lançaram, ainda, um sabonete dos Caretos de Podence, que foi apresentado no dia das celebrações de um ano de Património Imaterial da Humanidade. Numa altura em que tanto se insiste na higienização das mãos, o sabonete surge ligado a este propósito?

(A.C) – Não propriamente. A Castelbel é uma empresa ligada à área dos perfumes e dos sabonetes da cultura portuguesa. E, assim sendo, como os caretos estão na moda, e vão continuar na moda, a Castelbel aceitou o nosso desafio, e fizemos então esta parceria.

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(G.) – Desde a distinção da Unesco, até agora, sentiram um aumento generalizado do número de apoiantes desta arte?

(A.C) – Sem dúvida. Há cada vez mais gente a aderir à nossa tradição, e, depois, em termos das atividades económicas, desde as cervejas, ou os videojogos, os caretos são mesmo uma mais valia. Vamos apostar mais e acreditar que Caretos são uma referência a nível nacional.

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(G.) – Com a chegada da pandemia de que forma procuraram adaptar o setor à nova realidade?

(A.C) – As atividades, em termos de grupo, foram todas canceladas. Unicamente foi mais em termos da visita ao museu, em que houve um período de abertura desde a primavera até setembro. Chegamos a ter também umas intervenções na televisão, mas nada de especial. Não podemos dar asas àquilo que tínhamos como objetivos.

Mas vamos acreditar que 2021 vai ser melhor e que os Caretos vão continuar a chocalhar Portugal e o mundo.

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(G.) – Atualmente, de que forma reúnem lucros para manter esta tradição?

(A.C) –As nossas receitas têm que ver com o merchandising do Careto, e pouco mais.

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(G.) – Caso alguém queira pertencer ao vosso grupo existe algum tipo de pré-requisito?

(A.C) – Neste caso, não. Primeiro, terá de gostar muito de uma tradição genuína e, depois, estamos muito recetivos a receber alguém que se interesse por este tipo de tradições.

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(G.) – Por fim, o que ainda gostavam de alcançar com o Grupo dos Caretos de Podence?

(A.C) – É um bocado difícil responder a essa pergunta, porque penso que esse reconhecimento já foi atingido. Mas o que nós queremos é manter esse estatuto, e criar infraestruturas na aldeia de Podence para que a tradição seja sustentável para as gerações vindouras.

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Texto de Isabel Marques
Fotografia disponível via facebook Caretos de Podence