ASSéDIO. Assediar é cercar, sitiar, é também insistir de modo impertinente e se necessário hostil. Queremos renovar o uso e o abuso desta palavra através de um esforço de renovação do teatro como força activa e combativa (seja lá isto o que for). – São estas as palavras que definem a companhia de teatro ASSéDIO, ou, pelo menos, que a apresentam.

Viajámos até ao Norte. O relógio registava as onze da manhã. A preocupação já não era marcar um local para realizar a entrevista, sendo que a sua localização principal e de fundação é o Porto. Lisboa deixou de ser tão distante.         
Câmara ligada, teste de som, abrem-se as cortinas. Poderia ser um cenário de palco, no entanto, era apenas o local confortável em que o João Cardoso se instalava para falar connosco, através da via online.

Sabemos que a dramaturgia é algo que está intrínseco na companhia que, desde mil novecentos e noventa e oito, explora, abraça e a faz ouvir — talvez, as estantes repletas de livros que João tinha por detrás de si nos façam viajar por essa ideia.

Ideias e contemporaneidade são os conceitos-chave que acompanham a companhia composta por diversos cúmplices e por uma equipa fixa que se apresenta pelos encenadores e atores João Cardoso e Pedro Frias; Nuno Meira, dedicado ao design de iluminação; Francisco Leal, sonoplasta e responsável pela parte musical; Sissa Afonso, que se envolve com a cenografia, figurinos e design gráfico e a Marta Lima, produtora.

 João Cardoso, um dos fundadores da companhia, diz que “já lá vão vinte e dois anos”.  Em mil novecentos e noventa e oito, o Porto acabava de viver uma época em que deixaram de haver companhias de teatro: “nos anos noventa, a então Secretaria do Estado da Cultura quis fazer uma espécie de fusão entre as companhias que existiam também nessa altura, os Comediantes, o TEAR, o TEP, etc. Queriam fazer dessa fusão uma grande companhia aqui, no Porto. Nessa altura, ainda não havia Teatro Nacional no Porto e acredito que essa grande companhia que se formasse seria uma espécie de embrião de um possível elenco para o Teatro Nacional de São João”, afirma. Entretanto, as coisas não se passaram assim. As companhias fecharam por volta dos anos noventa e o Porto ficou praticamente sem companhias de teatro e, mais importante ainda, sem teatro.

Foi altura de se agarrarem às dobragens, no entanto, o teatro precisava de se fazer ouvir — “os atores têm poucos sítios onde podem subsistir, no fundo, a única maneira seria as dobragens. Ao fim de uma série de anos, há muitos atores ainda ligados ao teatro, nomeadamente, eu, o Paulo Eduardo de Carvalho, o Pedro Vaz e a Rosa Queiroga”, partilha o encenador.

 É assim que nasce a ASSéDIO.

“Já estávamos há muito tempo sem trabalho no plano de teatro e achávamos necessário começarem a existir projetos que o envolvessem. Nessa altura, já existia o Teatro Bruto, as Visões Úteis, que não sei ao certo se vieram para o Porto já depois da ASSéDIO, mas digamos que o nosso projeto foi o que nos permitiu ligar à dramaturgia contemporânea, aliado ao teatro que tanto queríamos fazer”, conta o fundador.  

Paulo Eduardo de Carvalho, professor na Faculdade de Letras, iniciava um projeto de investigação acerca das dramaturgias contemporâneas quando a companhia decidiu abraçar esta mesma dramaturgia e procurou textos contemporâneos para produzir.

O início foi difícil, mas a caminhada tem sido cada vez mais dura. João conta-nos: “acho que tivemos um primeiro apoio, pontual, na altura, e só um ano mais tarde é que começámos a ter apoio regular, chamado agora de Apoio Sustentado. Foi bastante complicado, naquela altura, mas dando um salto bastante grande, agora, as coisas estão muito piores. Em termos de financiamento, tínhamos o dobro do financiamento que temos neste momento.”
A vontade de fazer teatro nunca foi colocada em causa e a aproximação da população onde a companhia está integrada aconteceu.

Teatro ASSéDIO, imagem de bastidores

Dando uma segunda vida à sala de Bolso, aquilo que em tempos foi um armazém para guardar cenários, a partir de 2012, transformou-se numa “pequena blackbox”, onde a companhia apresenta e realiza os seus projetos.

Em dezembro de 2019, uma cheia fez com que a sala inundasse, sendo necessário a companhia efetuar alterações e recuperar algumas coisas. É então que, quando está tudo alinhado para abrir novamente a sala, o confinamento chega. Verifica-se, assim, que a sala não se encontra em funcionamento há cerca de um ano, “os projetos que tínhamos, fomos adiando. Houve uma coprodução com o Teatro Nacional de São João e com o Teatro São Luiz que estreou em outubro e que ainda conseguimos fazer”, partilha o ator.

Uma pequena companhia como a ASSéDIO faz projetos com elencos muito reduzidos, à exceção das coproduções que fazem com o Teatro Nacional São João, no Porto, onde é possível alargar a produção e se fazem espetáculos com um elenco maior.

Definindo-se como um coletivo artístico capaz de assegurar autonomia e identidade artísticas, é encontrando-se com a coerência da escolha de repertório e com a renovação das linguagens cénicas, que a ASSéDIO tem se destacado. São os saberes, as experiências e a inquietação que motivam a sua identidade e a relação com os públicos.  E como é que tudo isto acontece? Através de uma “maturidade” que se adquire pela experiência das pessoas que a compõem, assim como pela construção de um percurso feito de fortes cumplicidades, colaborações artísticas e humanas que permitem o alimentar desta linguagem criativa em cena.

Além da produção de espetáculos, a companhia tem vários projetos ligados à comunidade, nomeadamente, o ASSéDIO à COMUNIDADE, essencialmente associado às escolas locais que abrangem o ensino básico e do quinto ano ao nono; ASSéDIO À MARGEM, mais ligado aos criativos da companhia, permite a construção de instalações/paisagens plásticas e sonoras; ASSéDIO EMERGENTE é um contributo que se coloca à disposição dos jovens acabados de sair das escolas de teatro da cidade e artistas emergentes e ainda a ASSéDIO EM VOZ ALTA que é uma parceria com as Bibliotecas Municipais do Porto e Gondomar, dirigido a todos os jovens e adultos interessados.

A inserção de uma companhia de teatro numa zona histórica do Porto nem sempre foi fácil: “Temos a sala desde dois mil e só a partir de dois mil e doze é que começamos a dar espetáculos lá.  No início, foi muito complicado, fomos assaltados várias vezes porque não percebiam muito bem aquilo que estávamos ali a fazer, mas atualmente, a realidade é completamente diferente. Já nos aceitaram e aceitaram o trabalho que fazemos, até porque temos vindo a convidar as pessoas locais a assistirem a ensaios de antestreia para que percebam o que estamos a fazer”, refere João.

Identificando um novo ciclo de projetos onde a mudança acontece, a companhia mantém-se fiel na dedicação às dramaturgias com repertório contemporâneo, que contam com textos de diversos autores como Martin Crimp, Caryl Churchill, Harold Pinter, Brian Friel, Wallace Shawn, Conor McPherson, Marie Jones, Jennifer Johnston, Gerardjan Rijnders, Luigi Lunari e Marie Laberge, Rafael Sepregelburd.

Além destes nomes, a companhia está também atenta ao que se faz a nível nacional e internacional, especialmente, na Europa. De vez em quando, os saltos “fora da caixa” acontecem, com alguns clássicos, mas sempre voltados para a contemporaneidade, “temos tido outra tentativa de espetáculos, a partir de materiais não cénicos, mais ligados à poesia”, completa.

No que toca à evolução, a companhia já sofreu várias, “mesmo a nível das pessoas que a compõem. Esse facto introduz logo um ponto importante em relação à própria integração no trabalho. Até 2005\2007 tínhamos uma formação que incluía o Paulo Eduardo e o Pedro Vaz, entretanto, o Paulo Eduardo faleceu e o João Pedro Vaz saiu para outro projeto e, inevitavelmente, a companhia sofreu e contraiu-se. Ficámos menos e a nossa procura das pessoas que ficaram foi sempre direcionada à receção de novas pessoas para a companhia. A partir de 2009 e 2010, as coisas tomaram um novo rumo que permanece até agora. As pessoas que integraram a companhia, nomeadamente o Pedro Frias e a Marta Lima, neste momento nossa produtora, fizeram com que a companhia desse um salto e tivesse também uma reabertura que, entretanto, coincidiu com a abertura da sala de Bolso e ainda com a aproximação da população que nos é próxima e das Escolas de Teatro do Porto. O público começou a vir à nossa sala, sendo muito bem acolhida por todos. É uma sala que permite um tipo de relação muito próxima entre o ator e o público, o que é muito interessante nos textos que trabalhamos”, afirma João.

Atualmente, a mudança das condições físicas, económicas e sociais verificam-se também como uma luta com a atual realidade vivida pela Cultura: “Estamos ainda a trabalhar num espetáculo com um texto de Francisco Luís Parreira que vai surgir em streaming, porque a sala é muito pequena, com quarenta e cinco lugares. Irá estrear no final de janeiro de 2021.

No entanto, a ASSéDIO como só teve dois projetos apoiados este ano e um ainda está adiado, digamos que o confronto com a prática ligada à pandemia não tem sido muita. Mas mesmo assim, ter de resolver o mesmo através do streaming é um mal menor. O teatro não se pode confundir com um outro tipo de linguagem. A linguagem cénica e os sinais que podemos dar em cena são muito diferentes daqueles que podemos dar através de uma televisão ou um computador: as coisas são muito limitadas, ou melhor, são outro tipo de linguagem”, completa o encenador.

É neste pensamento que João fala sobre a preocupação da fusão do streaming com o teatro: “não dominamos os tempos; no plano visual a coisa fica muito adulterada, porque não controlamos o tipo de técnicas que precisávamos controlar para que isso tivesse uma tradução para a linguagem televisiva ou de streaming. Isto é uma tentativa que não resolve propriamente o tipo de anseios que temos. Para não falar do problema económico aliado aos atores e produtores de teatro que advém daí. Além disso, é o problema da nossa relação com o público que não se estabelece neste projeto que temos de adiar e transmitir por streaming”, completa.

Reforçando a falta de atenção que se tem atribuído à área da Cultura, João revela também a preocupação que existe em, muitas das vezes, ser necessário recuperar trabalhos e peças meses depois do que seria suposto estrearem e que, posteriormente, acabam por não ter qualquer financiamento.

Assim como na Escola de Mulheres, uma das questões identificadas pelo encenador é a centralização de circulação com que o Teatro se depara atualmente: “nós tínhamos uma circulação nacional muto grande e, a partir de determinada altura, isso praticamente terminou. Atualmente, fazemos pouquíssima circulação e para o fazer é muito complicado. Não sei se os programadores sentem isto de outra forma. As companhias sentem isto e é um pouco absurdo sermos financiados pelo Estado e depois não pudermos mostrá-los”, refere.

Com um olhar esperançoso, João deixou-nos curiosos sobre novos projetos e peças ainda em pensamento.  Avizinham-se trabalhos em dois mil e vinte e um com textos de “gente portuguesa” como o Rui Lage e Pedro Galiza, “gente do Porto, ligada à escrita”. A ASSéDIO dedicar-se-á a um dois mil e vinte e um de dramaturgia portuguesa contemporânea.

Texto por Patrícia Silva
Fotografias retiradas do Facebook da Companhia de Teatro

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