“O mundo […], que coisa estranha é o mundo! A maledicência geral, por exemplo. Como o mundo gosta de falar dos outros!”          

Molière, L’école des femmes, 1662

Mil novecentos e noventa e cinco foi o ano. No dia oito, em março. Ouvia-se oficialmente o manifesto da Escola de Mulheres. Uma oficina e companhia de Teatro. Por outras palavras, uma inspiração; um lugar que abraça a Mulher e o seu papel no Teatro, sobretudo, na condução dos processos criativos, na política de repertórios ou no relacionamento com os poderes instituídos.

“O mundo.”

Nasceu nos anos 90 e mantem-se. Agora sem ela, Fernanda Lapa. A voz ainda se ouve. Talvez já não percorra os ouvidos de Rui Malheiro ou de Marta Lapa, no entanto, ouve-se nas peças, nos palcos e, principalmente, naquele que é “ O Punho”, uma pela de celebração da vida de Bernardo Santareno e que se construiu pela vontade de Fernanda.

Voltando ao início de uma verdade que vive da ficção, a Escola de Mulheres nasceu pela literatura, pelo conhecimento e afirmação. Com um nome inspirado na peça de Molière “L’école des femmes”, um conjunto de mulheres da área do Teatro criou a companhia com os “objetivos principais de valorizar e defender o trabalho da mulher nas Artes em geral, e no Teatro em particular”, conta-nos Ruy Malheiro, atual Codiretor Artístico e Diretor de Produção da companhia de Teatro.  

Ruy Malheiro, Escola das Mulheres

Este conjunto de mulheres era composto por Fernanda Lapa, Cucha Carvalheiro, Isabel Medina, Cristina Carvalhal, Marta Lapa, Aida Soutulho e Conceição Cabrita. Sete mulheres que há cerca vinte e cinco anos pensam em privilegiar o trabalho feminino, o enaltecer as mulheres no Teatro em particular, nomeadamente, em funções que nãos lhes eram dedicadas com muita frequência. Falamos de atividades no caráter da Encenação, o reconhecimento do texto e a Dramaturgia no feminino. Era altura – ainda é – de “revelar e trazer a cena textos de muitas mulheres dramaturgas, o trabalho das produtoras, das encenadoras, das técnicas”, completa Ruy.

Situemo-nos. Ainda nos anos noventa, as mulheres, normalmente, eram apenas convidadas para fazerem trabalhos de atrizes. É o momento em que entra em cena a palavra “raramente”. Assim como Ruy nos conta, era muito raro as mulheres serem chamadas para assumirem lugares de chefia, de dirigir espetáculos ou companhias. É com a necessidade de combater esta ausência e de afirmar a sua premissa que a Escola de Mulheres se estende no tempo e as artes.

Paralelamente, a companhia desde muito cedo que se envolve com questões sociais, de género, de diferenças e dificuldades, questões de violência doméstica, diferenças sociais entre os homens e as mulheres a nível laboral. As questões políticas também se revelam dentro deste leque de preocupações. Ainda que a companhia seja apartidária sempre teve um discurso bastante político, “marcado até por Fernanda Lapa que era assumidamente de Esquerda, militante do PCP e que, de alguma forma, isso vingou sempre o seu papel muito feminista, embora a Escola de Mulheres não o seja”.

De sete mulheres fundadoras, ficaram duas. Hoje, uma. Atualmente, a equipa fixa da Escola de Mulheres é constituída pelos dois sócios-gerentes e codiretores artísticos, Marta Lapa e Ruy Malheiro. Na equipa constam ainda uma pessoa na manutenção, um Técnico Oficial de Contabilidade e uma colaboradora externa por prestação de serviços e apoio na gestão de Subsídios e Relatórios, Manuela Jorge, igualmente em regime de prestação de serviços ocasional, não permanente.

A Escola de Mulheres envolve também projetos como o “Ciclo Voz Humana”, formado em 2012, um espaço informal e experimental que permite dar a conhecer um leque de poetas, narradores e autores de textos dramáticos.

Foi também através desta companhia que se desenvolveu um Encontro Nacional de Autoras de Teatro, em 2005.

É nesta visão que Ruy, por entre memórias, nos fala da relação com inúmeros colaboradores regulares, atores, músicos, técnicos, cenógrafos, técnicos, figurinistas. Aborda ainda algo que se distingue na companhia de teatro que é o acolhimento de outros artistas e grupos.

Falar de " O Punho" foi uma das abordagens que não poderia passar em branco. Coordenadas e pensadas por Fernanda Lapa, "as comemorações envolveram estruturas de criação, Universidades, grupos de teatro amador, entre muitos outros, de norte a sul do país, com atividades multidisciplinares ao longo de todo o ano de 2020 e que, devido à pandemia, muitas se estenderão por 2021", conta-nos Ruy.

"O Punho", peça de Teatro encenada pela Escola de Mulheres

Este projeto nasce da necessidade de substituir "O Pecado de João Agonia”, uma vez que com a coprodução cancelada por parte do Teatro da Trindade, dado a COVID-19, era necessário pensar em outro projeto, com texto de Santareno, que cumprisse com os mesmos objetivos artísticos.
É, desta forma, "que a companhia se havia comprometido com a DGArtes, e com os seus demais parceiros. A Fernanda tinha “na gaveta” a vontade de um dia vir a levar à cena “O Punho”, o derradeiro texto de Santareno e esse foi motivo suficiente para passarmos para o computador o texto na íntegra, no decorrer de todo o 1º confinamento, e a Fernanda avançou com a que viria a ser a sua última versão cénica.", revela-nos o coprodutor artístico.

É um espetáculo de dupla homenagem, a Santareno e a Fernanda Lapa. "Não foi nunca nosso objetivo fazer uma encenação “Fernanda Lapa”, nem teríamos essa veleidade, contudo, o mesmo espelha o contributo e marcas que a mesma deixou na companhia e em todos nós. Para além da versão cénica ter a assinatura da Fernanda, foi ainda ela quem definiu a equipa artística e técnica, deu indicações para o espaço cénico e figurinos. A encenação foi, por vontade sua, coletiva com direção artística da Marta Lapa e minha", completa Ruy.

Era importante falar de Santareno. Relembrá-lo. Tal como Ruy partilha, a pertinência de levar este texto "prende-se ainda com o facto de Santareno ter sido um autor marginalizado toda a sua vida, e porque consideramos que a sua obra é atual pela problemáticas que retrata e questões que levanta: as questões da desigualdade social, questões políticas, de igualdade de género, sexuais, etc."

Os emergentes: as companhias e grupos que a Escola de Mulheres abraça

Falando em preocupações, a Escola de Mulheres nunca trabalhou sozinha. Ao longo do seu percurso teve sempre “o cuidado em prestar um verdadeiro Serviço Público para com os seus pares, nomeadamente na rentabilização da Sala de Teatro do Clube Estefânia (espaço Escola de Mulheres)”. O codiretor artístico conta-nos que: “apostamos numa programação regular do nosso espaço através do acolhimento de companhias e artistas, maioritariamente emergentes, que são os que mais dificuldade têm em início de carreira, em conseguir espaços de apresentação para os seus trabalhos. Trabalhamos também com companhias de percurso reconhecido e maioritariamente de fora de Lisboa, como o Trigo Limpo Teatro ACERT (Tondela), a Um Coletivo (Elvas), o projeto Ruínas (Montemor), Lama Teatro (Faro), entre outros. No caso das companhias emergentes, posso referir o Bestiário, a Associação Casa Cheia, o Fim do Teatro, Teatro À Faca, As Crianças Loucas, a PURGA, bem como projetos de artistas em nome individual como Rui Neto, João Gaspar ou Marta Jardim.”

Depois de enumeradas as companhias e grupos com que a Escola de Mulheres partilha diariamente palco e dão asas à imaginação, Ruy fala-nos de que se trata a realidade que vivemos nos dias de hoje.

“De que forma a companhia lidou e lida”, é uma preocupação. Mas e os “outros” que também se resguardam no “mundo” da Escola de Mulheres? Esta foi a questão e rapidamente fez sentido.

A companhia adaptou-se. Desde o ajuste de horários à redução da lotação máxima. No entanto, a Escola de Mulheres só pôde abrir as portas da sua sala por ter sido possível candidatar-se ao apoio da Medida ADAPTAR, “na qualidade de microempresa, que lhe permitiu a implantação de todas as medidas preventivas decretadas pela DGS para a reabertura dos espaços culturais. Sem esse apoio, a Escola de Mulheres não poderia ter aberto portas no final de junho, estamos a falar de um investimento de 5000€”, conta Ruy.

A grande preocupação, desde o início, foi “ceder o espaço de apresentação às companhias cuja atividade ficou suspensa em março e que, na sua maioria, não tiveram qualquer fonte de apoio ou receita, e para muitas delas a receita de bilheteira que obtiveram com a reabertura da sala foi o primeiro valor financeiro que obtiveram desde que tinham parado”, reconhece.

É com a preocupação coletiva que a Escola de Mulheres vive: com o reconhecimento e a valorização humana.

A meio de uma conversa que, por vezes, se perdia nas memórias e partilhas, chegou o momento de abordar questões sociais que são incansavelmente abordadas e estão em constante luta pela companhia.
Sobre a direção artística, Ruy conta-nos que “já com o conhecimento do seu estado de saúde, a Fernanda, desde logo, teve como preocupação o futuro da companhia, não era vontade dela tal como não é de nenhum dos presentes, que a Escola de Mulheres morresse com a Fernanda, muito pelo contrário, o legado, deixado pela própria Fernanda e pela Escola de Mulheres, é pertinente, é assertivo e contribui para a história do Teatro em Portugal. Tanto a Fernanda como a Marta Lapa (ambas sócias fundadoras da companhia), consideraram ser a altura de colocar mais alguém nos cargos gerentes e de direção da companhia, alguém que pudesse dar continuidade ao caminho construído em 25 anos. Acharam ainda que era o momento de integrar um homem. Creio que fui a escolha clara para ambas (e eu próprio acabaria por perceber isso mesmo) por razões óbvias: a total confiança no meu trabalho e profissionalismo desde 2014 e ainda por ser a pessoa, para além delas, que a esta altura melhor conhece a companhia, as suas fragilidades, os seus pontos fortes e toda a gestão administrativa e financeira da mesma.”

Fernanda Lapa, uma das fundadoras da Escola de Mulheres

Descrevendo o privilégio que foi trabalhar com “uma encenadora muito especial”, Ruy revela que aquando do convite para integrar a companhia, já com outra responsabilidade acrescida, a Fernanda “defendia que o manifesto que originou a criação da companhia já se encontrava concretizado e os objetivos que levaram à sua criação, alcançados.”
No entanto, o diretor de produção não concorda:  “Permito-me discordar. Infelizmente, passaram vinte cinco anos desde a fundação da companhia e as premissas que levaram à sua criação continuam a fazer todo o sentido: a divulgação de textos de autoria feminina, quer nacional, quer estrangeira; a abordagem nas suas demais atividades de criação, programação e desenvolvimento de públicos de temáticas como a desigualdade social, questões de género, etc; o enaltecer do papel da mulher nas artes em geral, no teatro em particular, pelo reconhecimento e valorização do trabalho de autoras, encenadoras, técnicas, produtoras, atrizes, cenógrafas, figurinistas, aderecistas, etc.”, isto porque a evolução aconteceu, mas “talvez” não o suficiente.

Questionado do que será 2021 para a companhia Escola de Mulheres, Ruy menciona duas criações novas, ambas em torno da temática da loucura.
A primeira estreará em finais de abril e a segunda em outubro. Manterão a programação regular ao longo de todo o ano com o acolhimento de companhias como o Bestiário, o Fim do Teatro, a associação Casa Cheia, entre muitos outros, para além de acolherem outras produções de companhias com quem têm protocolos de intercâmbio: o Trigo Limpo Teatro ACERT de Tondela e a Um Coletivo, de Elvas.

De volta à estrada, o ciclo de leituras encenadas "Voz Humana" continuará vivo assim como "O Punho", que passará em Mértola a 21 de março.

As oportunidades ainda escasseiam. A “revolução” ainda acontece. E, como tal, a “Escola de Mulheres vai continuar, por desejo de Fernanda. Por nós” – palavras de Ruy, no final de uma longa conversa.

Texto por Patrícia Silva
Fotografias de cortesia da Companhia de Teatro

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