“A Quiet Moment” estreia hoje a 28ª edição da Quinzena de Dança de Almada. O espetáculo criado por Bruno Duarte sobe hoje ao palco da Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite, pelas 21h30, para assinalar os 30 anos da Companhia de Dança de Almada (CaDA).

Para comemorar o trigésimo aniversário, a CaDA tinha inicialmente pensado um espetáculo onde reunia muitos dos bailarinos que ao longo dos anos por ali passaram com os que hoje se apresentam na Companhia, juntando em cena uma trintena de participantes. Contudo, este “não se coaduna com a atual necessidade de afastamento físico”, lê-se no comunicado da CaDA.

Bruno Duarte faria parte deste grupo de bailarinos que subiriam a palco, para assinalar o aniversário e a Quinzena, não fossem as atuais circunstancias. Contudo, a CaDA lançou-lhe o convite para a criação de uma peça que pudesse assinalar a data, bem como a estreia do Festival de Dança. Assim nasceu “A Quiet Moment”, pensado a partir dos 60 anos da criação “Psycho”, de Alfred Hitchcock, e 40 anos sobre a morte do realizador.

O coreografo Bruno Duarte é licenciado em Dança, pela Escola Superior de Dança (ESD) de Lisboa, onde é agora professor convidado. Integra a Companhia de Dança de Almada desde 2013, onde é bailarino, professor na Ca.DA Escola e criador, nomeadamente “Riot” (2014), “Dentro do Abraço” (2016), “Gaveston” (2016), “Fobos” (2017), “A Invenção da Resposta” (2018), em cocriação com Luís Malaquias, “SubRosa” (2018) e “Inverno” (2019). Muito recentemente foi distinguido com o prémio Almada Artes – Jovem Talento, do Concurso Jovens Talentos 2019, promovido pela Câmara Municipal de Almada.

Em entrevista ao Gerador conta como iniciou o seu percurso de coreógrafo, que acumula com a carreira de bailarino e professor. Explica que “nem sempre é fácil, porque os papéis muitas vezes se cruzam”, mas que abrandar não é uma opção. Hoje estreia o espetáculo “A Quiet Moment”, que é simultaneamente “um palco, um set de filmagens e um filme, o bailarino a ser ator, e o ator a ser personagem”. Falou-nos sobre todo processo de criação e condicionantes associadas à pandemia.

Gerador (G.) – Começaste o teu percurso na dança muito jovem, como bailarino. Como é que fizeste a transição de bailarino para coreógrafo, ou quando é que te apercebeste que tinhas a capacidade de criar?

Bruno Duarte (B.D.) – Apercebi-me muito cedo do meu gosto por explorar e criar movimento – desde o início da minha formação que fazia pequenas experiências coreográficas para mim e para os meus colegas e, na Escola Superior de Dança, onde me formei, a criação faz parte do currículo. Já a ponte para a coreografia em contexto profissional aconteceu assim que acabei o curso – enviei um projeto para a Boxnova do CCB e acabei por ser selecionado. Foi uma agradável surpresa. Criar, aos 21 anos, um trabalho de 1 hora para o Centro Cultural de Belém foi um grande impulso para o meu percurso e este primeiro projeto foi muito importante porque, como não tinha muitos recursos, tive de aprender a ser o meu próprio produtor, o que dá a qualquer coreógrafo uma grande noção de operacionalidade.

G. – Neste momento és bailarino, coreógrafo e professor na Companhia de Dança de Almada. Como é que se gerem os três papéis sem nunca abrandar o ritmo?

B.D. – Nem sempre é fácil, porque os papéis muitas vezes se cruzam e o cansaço acumulado dificulta todos eles, principalmente para alguém tão perfeccionista como eu, mas a verdade é que tenho muita dificuldade em estar parado – mesmo quando estou de férias, estou sempre à procura de trabalho para fazer e, por isso, não consigo ‘desligar’. Felizmente, tenho uma rede de pessoas à minha volta que me ajuda a manter o equilíbrio e a encontrar estratégias para continuar.

G. – Ao fim de 7 anos na Companhia de Dança de Almada, onde começaste como bailarino, tens dupla estreia marcada para hoje: estreia na Quinzena de Dança de Almada e ainda a estreia desta 28ª edição. Qual a sensação?

B.D. – Uma estreia é sempre uma responsabilidade. Quando, a essa estreia, acresce a abertura de um festival, o aniversário de uma Companhia e o trabalho de tanta gente envolvida no espetáculo, a sensação é, sem dúvida, avassaladora. Isto porque é sempre difícil prever a reação do público a um espetáculo que passamos tantas horas a criar, porque estamos completamente embrenhados nele e não conseguimos ter uma perceção externa. Ainda para mais nesta peça, já que quebrei um pouco os meus padrões de construção coreográfica e ingressei numa abordagem mais narrativa, algo que é novidade para mim.

G. – O espetáculo “A Quiet Moment” foi criado com o propósito de celebrar os 30 anos de Companhia. De que nos fala esta criação?

B.D. – “A Quiet Moment” baseia-se fundamentalmente no filme “Psycho”, mas também em vários depoimentos, publicações e documentários sobre a obra e o autor – Alfred Hitchcock. Escolhi este filme, não só porque sempre quis trabalhar a partir de um texto, mas porque “Psycho”, tal como a Companhia de Dança de Almada, também celebra o aniversário da sua criação este ano (60 anos de “Psycho”, 30 anos de CaDA).
Nesta peça exploramos várias camadas de conteúdo – enquanto a linha principal segue a narrativa do filme, como se o estivéssemos a ver reproduzido em palco (e através de outro meio, a dança), existem também momentos em que se mostram os dispositivos cénicos, como se estivéssemos a assistir ao processo de ensaio e gravação do filme e, outros ainda, em que mergulhamos dentro das personagens e percebemos os seus sentimentos e motivações.

G. – E como foi ensaiar e gerir a preparação deste espetáculo, nas circunstâncias que vivemos nos últimos tempos? Houve alguma condicionante, ainda que temporária?

B.D. – Sim, este foi sem dúvida um processo de criação complexo devido a toda a situação em que nos encontramos – quando comecei a criar, logo após o fim do confinamento, ainda existiam muito medos e muitas dúvidas e, por isso, tentei evitar criar movimento que implicasse contacto entre os intérpretes, o que foi difícil porque, na verdade, praticamente toda a peça é em contacto.  Foi, portanto, essencial encontrar estratégias, para além das óbvias medidas de segurança e higiene estabelecidas pela DGS, para que todos se sentissem bem dentro do estúdio e, aos poucos, foi-me possível desenvolver o trabalho com mais facilidade.

Entrevista Bárbara Dixe Ramos
Fotografia do ensaio de “A QUIET MOMENT”, de Joana Casado