Durante este mês, o nosso país acordou com capas de jornais que anunciavam a chegada do tão famoso “ranking” das escolas. Pelo espectro da comunicação social, os títulos eram os mesmos de sempre, numa lógica de sentença pura e dura à escola pública: “só cinco escolas públicas entre os primeiros 58 lugares do ranking das escolas”, “38 colégios privados no topo da tabela antes da 1ª escola pública”.
Criou-se assim, mais uma vez, a percepção de que a escola pública portuguesa falha na promoção da educação a toda a uma geração de estudantes. Se essa afirmação seria refutável só pelo mero facto de popularmente se descrever esta geração como a “geração mais qualificada de sempre”, esta é ainda mais injustificável quando olhamos para a metodologia do ranking em si: apesar de nas escolas públicas constarem informações relevantes para o estudo como os fatores socioeconômicos e o nível de educação no contexto familiar, isso não acontece por parte das escolas privadas. Para a seriação do que seriam as “melhores escolas” ignoram-se então esses fatores, levando a uma seriação cega das escolas que resulta exclusivamente da ordenação de notas de exame, como se todos os alunos tivessem as mesmas condições de partida.
No entanto, grandes setores da direita portuguesa conseguiram desviar a atenção desses problemas para um debate onde o mercado era uma figura divinal capaz de salvar, mais uma vez, tudo: bastava absorverem-se alunos nas escolas privadas que a educação estaria impecável, criando também a imagem de que na escola pública havia uma cultura de falta de “esforço”. Perpetuava-se assim mais uma vez a lógica do “mérito”, numa competição frenética onde no seu imaginário político existem escolas de bons meninos e escolas de fracassados, num clima de deslegitimação extrema da escola pública.
Tudo isto, é lastimável: arranjam-se explicações fáceis puramente ideológicas para ignorar como a desigualdade estrutural condiciona o sistema de ensino e destrói-se lentamente a escola pública, uma das maiores conquistas de Abril em vez de se debater como corrigir os seus defeitos — muitos deles causados por um desinvestimento sistemático em políticas de educação em Portugal ao longo dos sucessivos governos.
Eu próprio, aliás, fiz parte durante 12 anos de uma longa história de três décadas de um Agrupamento que este ano, segundo esse ranking ficaria posicionada no “top 20% das piores escolas”. A verdade é que a história e um legado de um Agrupamento não se resume num mero ranking - quando olhando para a sua situação social este é um caso de sucesso: taxas de conclusão de ensino secundário a nível dos cursos profissionais a 100% (algo que não acontece a nível nacional), uma taxa de conclusão do ensino secundário 5% acima da média nacional, 95% dos alunos são colocados no Ensino Superior e desenvolvem se projetos de inclusão social e tecnológica de excelência — tudo isto numa escola onde a média de escolaridade dos pais é o 7º ano.
Basta olharmos para o distrito da Guarda para vermos que em nenhuma das escolas do distrito, com exceção dos dois liceus sediados na cidade da Guarda, os pais destes milhares de alunos têm os 12 anos estipulados de escolaridade obrigatória hoje em dia. Levantam-se então questões de desigualdade socioeconômica, mas também desigualdade a nível territorial graças a questões de infraestruturas e toda uma desigualdade de capital cultural — e tudo isto se replica em territórios em todo o interior de Portugal.
Explicar tudo isto com uma “falta de mérito” é viver numa bolha. É ignorar os milhares de docentes que dedicam a sua vida ao processo pedagógico com alunos apesar das suas situações precárias de carreira. É ignorar que, às vezes, a preocupação principal é conseguir acolher bem crianças e adolescentes que chegam à escola passado 2 horas de longas viagens por territórios do interior onde a escola mais próxima fica a distâncias inaceitáveis. É ignorar os desafio constante de tornar estes alunos um sucesso e quebrar o ciclo vicioso do elevador social, com todo o seu carinho e amor que lhes é tão característico — algo que eu experienciei em primeira mão e pelo quão sou tão grato.
Paulo Freire, filósofo e educador brasileiro, habitou-nos desde sempre na sua práxis a procurar “inéditos viáveis”, ou seja, procurar possibilidades de transformar a realidade que existe. Foi nesse seguimento que nos mostrou como os processos de alfabetização não são mera didática de letras e números, mas aprendizagem em comunhão para interpretar o mundo e a nossa condição nele, para ler a sociedade e escrever a nossa própria história, ou, como ele afirma, passar “da leitura do mundo, à leitura da palavra” — num mundo onde a condição social impacta a aprendizagem.
Aparentemente, após longas décadas desse belo pensamento que nos parecia tão claro e tão intuitivo, a sua hegemonia começou a partir-se. Talvez um dia consigamos passar da leitura dos rankings à leitura do mundo, e assim a uma justa avaliação do que é sucesso ou insucesso.
-Sobre Rodrigo Sousa-
Carinhosamente apelidado de serrano inquieto, apaixonado pelos vales da Beira Alta que o viram nascer e crescer. Do e para o interior, orgulhosamente educado pela escola pública. Neste momento a continuar a aventura pelas Beiras, desta vez na cidade de Coimbra onde estuda Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.