“Um espaço horizontal de partilha e de comunhão”, onde a composição e a improvisação coabitam. É aqui que encontramos Chão Maior, o sexteto composto por Yaw Tembe (trompete), Norberto Lobo (guitarra), João Almeida (trompete), Leonor Arnaut (voz), Yuri Antunes (trombone) e Ricardo Martins (bateria), e que lançou este mês o seu trabalho de estreia, Drawing Circles, através da Revolve.

Gravado, em 2019, no Convento de São Francisco, em Montemor-o-Novo, na sequência de uma residência artística do coletivo, o álbum primeiro da banda é “registo de uma sessão de música escrita, mas que tem muito espaço para interpretação, diálogo e improviso e que, na verdade, só assim faz sentido”, afirma Yaw Tembe, líder do grupo, ao Gerador.

“Acho interessante a captura do fragmento de algo que é contínuo e na abertura de possibilidades que esse gesto apresenta, através das várias faixas intituladas de «Círculos» e «Paços».” Drawing Circules tem em si inscrito a ideia de movimento e, para o trompetista, isso sente-se na música contida no álbum. “O próprio título reflete essa continuidade e creio que isso pulsa para lá do disco.”

A música é “lenta, mas dinâmica na relação entre peso e o etéreo”, descreve Yaw Tembe, que assinou outros projetos na música portuguesa, como Sirius e Zarabatana. “Procura ser contemplativa, e isso está inscrito na forma como encaramos o tempo e a respiração. Talvez uma música com o tempo elástico, que varia em função do ciclo de respiração de cada músico”, continua. Segundo o trompetista, a questão do peso é explorada pela presença da bateria, tocada pelo Ricardo Martins, que funciona como um disruptor das camadas melódicas, estendidas pela voz de Leonor Arnaut, e pelos sopros, com João Almeida no trompete e o Yuri Antunes no trombone.

Existe também um interesse em explorar texturas e diferentes timbres. “A guitarra do Norberto Lobo acaba por ter um papel determinante nesse campo, para além de dar maior sentido à melodia e harmonia”, explica o líder da banda, que não considera que haja uma correspondência direta de função ou papel determinado para cada instrumento, em ideias de acompanhamento ou solista. “Estas ideias formais servem de estímulo para composição e improvisação. E a distinção entre uma e outra nem sempre é óbvia.”

Chão Maior é uma formação de músicos originários de contextos distintos – do rock ao jazz, passando pelas bandas de marcha – que explora essas matérias de forma diáfana. Cada elemento trouxe as suas referências pessoais e são notórias as influências que o jazz, o freejazz, a livre improvisação e o rock trazem no projeto.

A premissa acaba por ser como incorporam essas diferentes linguagens na relação entre a improvisação e a composição, “e aí o projeto acaba por se conectar conceptualmente aos sistemas sociais inscritos na música de Sun Ra, Alice Coltrane, da Ghetto Music de Eddie Gale ou do conceito de Harmelodics de Ornette Coleman”, diz Yaw Tembe, sobre este projeto que surgiu, inicialmente, do seu desejo de trabalhar com um grupo de músicos que admirava.

“Algum material no qual estava a trabalhar na altura serviu de pretexto para essa reunião. Composições que vieram de improvisações no trompete e que, mais tarde, se estenderam em arranjos para o sexteto.” Esses rascunhos iniciais, conta, foram feitos através de ambulações e marchas lentas por diferentes paisagens, “pensadas inicialmente como forma de contemplação, sendo que esta ideia de deriva e ambulação está ligada ao interesse pela obra de Richard Long e de Guy Débord e a psicogeografia em campos muito distantes.”

O nome Chão Maior é uma materialização dessa vontade de criar um “espaço horizontal” de partilha e de comunhão. “É maior no sentido em que há muito ainda a explorar neste chão e acaba por ser uma pequena homenagem ao solo que pisamos todos os dias.”

Texto por Flávia Brito
Fotografias de Marco Franco

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