Mesmo aqueles que nunca provaram um dos seus pratos associam o seu nome à cozinha portuguesa. Chef Kiko é atualmente um dos chefes de maior renome da cozinha portuguesa e tal como Patrícia Mamona, Rui Unas, Margarida Pinto Correia, Benedita Pereira e Albano Jerónimo aceitou o desafio de ser fotografado por Rúben Caeiro em condições por que normalmente os animais marinhos passam graças à poluição e ao uso desmedido dos plásticos. O resultado final foi publicado em “CH2 = CH2”, a obra fotográfica da Revista Gerador 27.

Francisco Martins, conhecido como Chef Kiko, nasceu no Rio de Janeiro em 1979, mas mudou-se para Portugal nos início da década de 90 com a sua família. Licenciou-se em Gestão de Marketing, mas um ano depois, em 2004, muda-se para Paris, onde frequenta o curso de um ano da Escola de Cozinha Cordon Bleu. Entre os restaurantes em que trabalhou no início do seu percurso estão o Ledoyen, o AM Le Bistro e o Eleven, este último em Lisboa. Abre em 2006 Masstige, o seu primeiro restaurante, e  em 2009 decide viajar para Moçambique à procura de novos horizontes. Em janeiro de 2010 parte à descoberta do mundo e inicia um projeto que apelidou de Eat the World, no qual documenta os mais de 26 países em que esteve, com hábitos de alimentação e ingredientes tão distintos. Em 2012 abre O Talho, o restaurante em que até hoje cozinha algumas das suas ideias, e mais tarde extende a sua criatividade à Cevicheria, a’O Asiático, a’O Surf & Turf e a’O Watt. 

Em entrevista ao Gerador, o Chef Kiko destaca a sensibilização crescente que tem existido quanto à utilização de plásticos, mas refere o custo superior dos materiais alternativos como um dos problemas para a dificuldade de mudança de paradigma. Quanto às soluções, o mais importante para si é “o fecho de ciclos”. 

Gerador (G.) — Recentemente participaste na obra fotográfica do Rúben Caeiro, publicada no número 27 da Revista Gerador. O que é que te levou a aceitar esse convite?
Chef Kiko (C.K.) — O que me levou a fazer isto foi o meu compromisso em tentar fazer um trabalho mais sério e em consciencializar a sociedade para a necessidade que nós temos de começar a minimizar a utilização do plástico. 

G. — Estando a temática relacionada com a poluição e os malefícios da utilização do plástico, acreditas que ainda há um trabalho a fazer na sensibilização das pessoas para estes assuntos? Porquê?
C. K. — Acho que sim. Vemos aquilo que aconteceu nos últimos oito meses em Portugal relativamente à sensibilização do plástico. Eu tenho o meu filho em casa a dizer que não quer usar palhinhas de plástico e esse é um trabalho de uma sociedade do mundo inteiro a tentar consciencializar as pessoas para que deixem de usar tanto plástico.  

G. — Em que sentido é que achas que o facto de seres conhecido pelos portugueses pode contribuir para uma maior sensibilização deste assunto, associando-te a estas causas?
C. K. —  Acho que é inevitável que as pessoas tentem seguir outras pessoas que são conhecidas. Seja porque se identificam com elas ou porque as admiram e acham que essas pessoas têm um papel redobrado na sociedade para tentar passar os valores corretos. 

G. — Este é um tema que já entrou na agenda política nacional? O que é que falta fazer?
C. K. — O que falta fazer é as pessoas serem punidas na utilização do plástico, através de coimas ou taxas que paguem por terem determinados materiais em plástico, e os outros serem beneficiados por pagarem mais por outros materiais. Por exemplo, o custo do transporte do vidro é trinta vezes superior ao do transporte do plástico, por isso essas pessoas que trabalham com materiais alternativos como o vidro também devem ser de certa forma recompensadas.

G. — A fotografia imortaliza a tua relação com este tema, mas se tivesses de reunir algumas dicas, o que dirias? 
C. K. — As dicas que eu daria era acima de tudo perceber que temos de fechar os ciclos das coisas, ou seja, uma coisa tem de ser usada do princípio até ao fim. Não é apenas a utilização única e exclusivamente de uma coisa uma vez. Nós temos que garantir que os ciclos são fechados. Eu utilizo uma coisa uma vez, não quer dizer que vá deitá-la já para o lixo quando a posso reutilizar. Essa consciencialização do fecho dos ciclos é o mais importante. 

Para o Chef Kiko, o impacto que alguém conhecido pelos portugueses pode ter na mudança de mentalidades é “inevitável” 

“CH2 = CH2” foi publicada na Revista Gerador 27. Ao longo desta semana serão publicadas entrevistas a diferentes intervenientes da obra fotográfica de Rúben Caeiro, com o objetivo de perceber qual a sua visão no que toca ao panorama atual da utilização dos plásticos e às medidas que têm sido sugeridas e implementadas. Podes recordar a entrevista ao fotógrafo aqui , a Patrícia Mamona aqui e a Rui Unas aqui.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Rúben Caeiro

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