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Texto de Leitor

Delírios de uma Ditadura

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de João Guilherme Reis, que fala-nos sobre autoconhecimento.

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Reunimo-nos, de novo, para esta espécie de discussão infinita - a insustentabilidade de uma hierarquia subvertida. Esta coisa de sentir mais do que a razão aguenta. Estou há horas sentado à secretária, a tentar escrever, ofegante. Não preciso de uma caneta, preciso de um ventilador. Preciso de inalar as árvores e os rios e os mares e os animais e a infância e o amor. Preciso que o gritantemente vital não se silencie. Estou farto de ouvir ecos que não dizem nada, farto de tentar preencher vazios que eu mesmo crio. 

Os sentimentos presos numa sala vazia, escura, demasiado pequena para os conter. Estão em cativeiro faz muitos anos. Faz todos os anos, na verdade. Um pequeno sistema autocrático em que a ilusão reina e a legitimidade do déspota raramente é questionada. A sala está cheia, mas não tem porta. Sempre achei engraçado vê-los esbarrar nas paredes frias, ver o caos, o pânico. Engane-se quem achar que a desorganização vem da falta de regras – não! –, elas existem. As dinâmicas de poder estão muito bem estabelecidas, só não sei bem quais são, nem como as quebrar. Por muito fervilhar que haja, não há revolução quando não se sabe para onde caminhar. Se calhar, é isto que querem significar quando dizem que tudo é político. Ou talvez toda esta absurdidade seja, simplesmente, consequência do meu delírio. Como qualquer indivíduo são e prudente, acalmei-me e fiz o mais sensato.

Peguei no coração. Na mão direita, arqueada como um pequeno abrigo, segurei-o, cuidadosamente. Contemplei-o, com a inevitável perplexidade de quem não costuma ver corações, e chorei-lhe em cima, como se soubesse que falamos línguas diferentes e nunca nos fossemos entender. Tive esperança de que as lágrimas o corrigissem, mas vinham sem-sal, frouxas, como se só caíssem porque assim tem de ser. Não foi tristeza, não foi raiva, não foi, sequer, indiferença - foi um dessentimento -, uma cor inexistente, uma tonalidade que não cabe no espectro. Arregalei o cérebro, franzi as sobrancelhas e entre o polegar e o indicador da mão esquerda ia passando o bigode, que costumo alisar para pensar melhor. Dei por mim a olhar o plenamente abstruso com a arrogância de poder entender; a prepotência de que seria eu aquele capaz de ver o invisível. Ah!... Sou eu o tirano!

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Texto de João Guilherme Reis

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