Em período de pandemia vivem-se tempos de intermitência que têm fragilizado os vários quadrantes da vida artística e cultural em Portugal. No caso do cinema, esta situação obrigou ao adiar de muitas produções e ao encerramento temporário de salas, algo que em consequência tem provocado perdas significativas no setor. Como resposta perante a atual conjuntura, foram surgindo ao longo dos últimos meses várias ações e iniciativas que tentam mitigar essa quebra e abrir um novo espaço de discussão sobre a importância desta área.

Partindo deste contexto e numa altura marcada pela múltipla utilização das plataformas digitais, o coletivo informal Subterrâneo – que antes da pandemia organizava sessões de filmes com espaço para o debate sobre os mesmos no Crew Hassan, em Lisboa – decidiu promover a criação de um ‘Colóquio Conversas sobre o Cinema Português’, dividido em três sessões, que pretendem trazer para cima da mesa, algumas destas temáticas mais atuais.

As sessões, transmitidas em direto a partir do Facebook do Subterrâneo, arrancam já este domingo, dia 7 de junho, pelas 19h00, com uma conversa sobre os cartazes para cinema, que irá contar com a participação do designer Igor Ramos. Segue-se uma conversa sobre as plataformas de streaming, no dia 14, com Anette Dujisin, uma das diretoras da Filmin e, uma outra, sobre a importância da crítica cinematográfica, no qual o convidado será o crítico Ricardo Vieira Lisboa, do site À Pala de Walsh, a decorrer no dia 28 de junho.

Na apresentação digital deste colóquio, o coletivo refere que o mesmo pretende funcionar como forma de aproximação do cinema português em tempos de distanciamento, com o objetivo de se explorarem “temas até então, pouco abordados dentro do contexto cinematográfico nacional”. “Qual é a ideia por de trás de um cartaz? Que importância tem a crítica? Qual é o papel de uma plataforma de streaming? Estas são algumas das perguntas que iremos debater. Para isso traremos três convidados à sala de cinema mais underground de Lisboa, desta vez em formato virtual, para colocarmos a conversa em dia”, referem.

Em declarações ao Gerador, Tiago F. Ferreira, um dos responsáveis por este coletivo, criado em conjunto com Manuel Monteiro, explicou as motivações por detrás desta iniciativa. “Assim que entrámos em quarentena e a nossa sala de projecção fechou, comecei a pensar sobre o que é que se podia fazer. Não podíamos passar filmes, mas começaram a surgir várias conversas e iniciativas em streaming e foi aí que comecei a pensar em vários temas que se podiam debater. Tem um foco no cinema português porque estes três temas são, na minha opinião, ainda pouco abordados, tanto na questão do design para cartazes como do papel de uma plataforma de streaming em relação ao cinema português. A crítica cinematográfica é um tema bastante desenvolvido, mas não no contexto português”, sustenta.

Aproximando-se de um modelo de cineclube mais tradicional, o Subterrâneo tem promovido sessões de cinema com espaço para a análise fílmica, suportadas geralmente por convidados que fazem essa ponte entre os filmes projectados e os espectadores. “Tentamos sempre ter conversas pós-filme. É uma forma de promover a aproximação ao público que se vai formando. O grande objectivo é conseguir criar uma atmosfera onde as pessoas não vão só ver o filme mas vão também pensar sobre cinema”, salienta, acrescentando que este colóquio surge igualmente nesse âmbito, “de pensar várias questões relacionadas com o cinema, com espaço para que as pessoas possam exprimir as suas opiniões”.

Perspectivando consequências mais profundas no setor do cinema português, Tiago sublinha que este tempo pode ser positivo no sentido de se abrir mais espaço à discussão de certas temáticas nem sempre tão debatidas. “Perceber por um lado se as plataformas de streaming estão a ter mais sucesso nestas altura ou se por outro quem faz design de cartazes pode ficar neste momento sem trabalho. Neste momento está tudo parado e o cinema é um tipo de arte que se faz em conjunto. E certamente, nestas conversas essa situação será um dos temas abordados”, acrescenta.

Depois deste colóquio, que se irá estender ao longo deste mês de junho, o Subterrâneo pretende voltar com as suas sessões físicas a partir de setembro. Para já, as sessões desta iniciativa poderão ser vistas sem nenhum tipo de condicionantes, todos os domingos, às 19h00, em direto a partir do Facebook do coletivo.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia via Unsplash

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