“Elegia” é o segundo tema do mao-mao, projeto spokenword de Valério Romão (voz), José Anjos (voz e guitarra) e Pedro Salazar (baixo). O vídeo de “Elegia” já está disponível nas plataformas digitais.

Este é um tema composto a partir do poema “Elegia para os meus funerais” de Tao Yuanming (365-427), nascido em Jiujiang numa família de letrados e considerado o maior poeta chinês entre os quatrocentos anos que separam as dinastias Han e Tang.

Ao contrário do poema de “Filho“, tema de apresentação dos mao-mao, escrito por um trabalhador fabril contemporâneo, “Elegia” evoca uma poesia chinesa antiga e tradicionalmente aristocrática, cujo contexto a nova poesia fabril chinesa veio exatamente romper.

“Porém, o contraste radical entre estes dois poemas não lhes retira afinidade, enaltece-a, deixando a descoberto uma temática subjacente e comum: a condição humana e a necessidade tenaz de contemplação da beleza, mesmo que terrível, apesar do sofrimento e do medo, onde até o humor surge como salvação ao lado do vinho e outros santuários de humanidade: a amizade, a natureza e o afeto. Um gesto comum perpassa por todos estes poemas: enfrentar a morte (e o desespero) para a tentar enganar. Só assim logram viver”, lê-se em comunicado.

O vídeo agora lançado foi gravado ao vivo na Escolha de Mulheres – Oficina de Teatro, com direção de Rui Major, e integra-se no concerto/espetáculo “A lua só sabe fazer de lua”, a ser apresentado no decurso de 2021. Este espetáculo é financiado pelo Ministério da Cultura, no âmbito da Linha de Apoio de Emergência ao Sector das Artes, com o apoio e produção do Departamento Cultural da APIOT (Associação para a Igualdade de Oportunidades no Turismo).

O projeto mao-mao, idealizado pelo escritor Valério Romão e pelo poeta José Anjos, contando com os convidados especiais Sandra Martins (arranjos de violoncelo), Paula Cortes (voz) e António Jorge Gonçalves (imagens), nasce da necessidade de interpretação e criação a partir de uma perspetiva única da poesia chinesa, em especial da poesia contemporânea escrita por trabalhadores fabris chineses e recentemente publicada na antologia Iron Moon: An Anthology of Chinese Worker Poetry, traduzida por Eleanor Goodman.

“As circunstâncias que rodeiam e inspiram a escrita destes poemas são tão únicas quanto terríveis e podem resumir-se a uma ideia que atravessa todos os temas e poemas deste projecto (consolidado durante e em virtude do confinamento): aquilo que nos esmaga é também o que nos liberta”, lê-se.

Texto por Flávia Brito
Fotografia de Graça Ezequiel

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