Estreia amanhã nas Carpintarias de São Lázaro, o espetáculo Brasa, do encenador e ator Tiago Cadete. A criação, que aborda a temática do processo migratório, entre Portugal e o Brasil, pode ser visto, de 14 a 17 de outubro, às 21h.

"Nos últimos anos, novos grupos migratórios escolheram Portugal ou o Brasil para estudar, em busca de novas oportunidades de trabalho, ou para sair do seu país de origem por motivos políticos. Quem são esses novos migrantes brasileiros e portugueses? Que desejos têm quando decidem migrar?", este é o ponto de partida deste espetáculo, em que os atores partilham as suas próprias experiências como migrantes.

Criada no seguimento de outros trabalhos que Tiago Cadete tem vindo a desenvolver sobre a relação histórica e de identidade entre aqueles dois países, "Brasa reúne todas as questões anteriormente levantadas", sendo "um trabalho de grupo, um objeto diferente dos outros trabalhos que se constituíam como solos, apesar de sempre reunirem outras vozes e pontos de vista", explica o ator e encenador ao Gerador.

Brasa materializa-se assim como "um objeto que reúne migrantes que, inversamente, escolheram o país de origem para migrar": um grupo de migrantes brasileiros que decidiram migrar para Portugal e um grupo de migrantes portugueses que migraram para o Brasil. Segundo o criador, "apesar das origens de cada migrante e de distintas perceções, entendemos que existem muito mais coisas que unem estes dois grupos migratórios do que os afasta".

Da autoria de Tiago Cadete - com e em co-criação com Gaya de Medeiros, Julia Salem, Keli Freitas, Magnum Alexandre Soares, Ana Lobato, Dori Nigro, Gustavo Ciríaco, Isabél Zuaa e Raquel André -, o espetáculo Brasa parte de materiais que vão desde as experiências individuais dos intervenientes às origens do processo migratório.

"A invasão feita pelos portugueses ao território que, posteriormente, foi denominado de Brasil foi documentada por Pero Vaz de Caminha, na sua carta dirigida ao rei D. Manuel I. Esse primeiro olhar, de alguma forma, inaugura as origens do processo migratório, que se intensificou nos anos posteriores até à contemporaneidade", explica o encenador. "Partimos desse documento, que comprova a invasão inaugural de um processo migratório com características nebulosas. Esse trânsito de pessoas e mercadorias nem sempre aconteceu da melhor forma, nesse sentido, nunca podemos comparar a migração forçada dos povos da costa atlântica africana, que eram obrigados a migrar para o Brasil, na condição de escravizados, a uma migração feita por exemplo no século XIX, por migrantes que saíam da Europa e do resto do mundo, que buscavam novas condições de trabalho, com um estatuto de privilégio bastante diferente", continua.

"Os trânsitos nos últimos 521 anos, entre Portugal e o Brasil, são muito distintos. Até ao 25 de Abril, a migração de brasileiros para Portugal era pouco expressiva, ao contrário do que aconteceu nos primeiros séculos da colonização portuguesa no Brasil. Nos últimos 10 anos, a migração brasileira em Portugal é muito mais heterogênea e com mais representatividade na sociedade portuguesa, proporcionando assim novos olhares e pontos de vista sobre o processo colonial, que, de alguma forma, foi transmitido aos portugueses, sob o ponto de vista do herói, reiterando assim o mito do bom colonizador", conclui, numa breve entrevista ao Gerador.

Sobre se pretende confrontar o público com os fantasmas do colonialismo português, Tiago Cadete responde: "Não sei se pretendo confrontar o público com os fantasmas coloniais, porque esses fantasmas já estão por aí e sempre tiveram. Penso que será mais uma constatação de que essa fantasmagoria já existe entre nós e que. talvez, esses fantasmas se materializam de formas distintas, não apenas como fantasmas coloniais, mas também os nossos próprios fantasmas e aquele que produzimos com o nosso processo migratório."

"A migração tem uma relação próxima com a morte. Nós ficamos ausentes para as pessoas que conhecemos antes de migrar, já não vamos estar presentes no dia a dia. Todas essas presenças se tornam ausências, apesar de sabermos que ainda estamos vivos para os outros. Ainda não morremos, mas desaparecemos, assumindo uma presença fantasmagórica que, na migração contemporânea, é acentuada pela criação da nossa imagem digital, gerando uma sensação de constante presença. Ser migrante é, nesse sentido, brincar com a morte", termina.

Texto de Flávia Brito
Fotografia de TUNA

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