Entre 1954 e 1964,o alemão Adorno, filósofo, sociólogo e músico da Escola de Frankfurt, retifica o seu conceito de cultura de massas depois de se aperceber que o termo insistia na existência duma forma de cultura e, para ele, a cultura de massas não é uma cultura e sim uma indústria, levando-o então a mudar a denominação para indústria de massas. Esta seria para Adorno caracterizada por se integrar num sistema monopolista culpado por uma ideologia dominante e uma estandardização que explicam o modelo comum sobre o qual os filmes são feitos, o que afeta fortemente, segundo o pensador da Escola de Frankfurt, a qualidade das obras culturais levando a uma simplificação da cultura.

Paralelamente aos textos de Adorno, uma nova vaga de realizadores em França reivindicava o espaço cinematográfico maioritariamente controlado pelo deslumbre do cinema americano subtilmente carregado de um softpower exigente. Desde então, a cultura francesa nunca mais foi a mesma. Os realizadores da Nouvelle Vague fizeram do país um exemplo de produção cultural, especialmente cinematográfica.

Apesar de Portugal ter um historial diferente, é indubitável que, cada vez mais, o cinema português é reconhecido além-fronteiras e, todos os anos, leva para casa distintos prémios nos diversos festivais de cinema que decorrem pelo mundo inteiro. Nos últimos anos, tem-se verificado um aumento do número de festivais que decorrem dentro do país. O FEST, Festival de Novos Realizadores e Novo Cinema, é uma prova viva que existe uma cultura cinematográfica portuguesa que resiste há 15 anos aos blockbusters ocidentais. Na edição deste ano, Bernardo Lopes, realizador de Ivan (2017) e Eva (2019), foi um dos oradores do Directors Hub, juntamente com outros nomes da nova vaga portuguesa.

Teaser de Ivan de Bernardo Lopes

Crítico de cinema, realizador, argumentista, produtor de cinema e televisão, podemos dizer que Bernardo Lopes, com apenas 25 anos, é um artista multifacetado, a quem a profissão veio desde cedo. Nascido e criado na Quarteira, a Bernardo, o cinema chegou-lhe aos treze anos, “com muita pressão feita por parte da minha mãe, resolvo candidatar-me” ao concurso nacional que pretendia levar jovens até aos treze anos a participar na 39.ª edição do Giffoni Film Festival, em Itália, como jurado. Foi assim que a porta para um caminho sem retorno se abriu para Bernardo. Em conversa com o Gerador, o jovem realizador confessou que vinha “de uma região do país onde a cultura era completamente marginalizada e onde nunca tinha tido a oportunidade de ver filmes para além daqueles que exibem no shopping e na televisão. A ida a Giffoni tornou-se numa experiência extremamente reveladora e marcante, não só no meu crescimento pessoal, mas também na vontade enorme que ganhei em querer fazer cinema”.

Mais tarde mudou-se para Lisboa, ingressando no curso de Cinema Vídeo e Comunicação Multimédia na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, o que lhe permitiu saciar a sua sede cinematográfica desencadeada em Itália. “Lembro-me de, em Giffoni, ter tido a oportunidade ver vários filmes, de vários países, todos em línguas diferentes. Lembro-me de na altura ter visto Submarine, do Richard Ayoade, que me marcou imenso”, relembra Bernardo. “No decorrer dos anos, entre as aulas de cinema e idas à Cinemateca, fui-me apaixonando pelos clássicos como Bergman, Chabrol, Bresson, Welles, Ozu, Buñuel, Mizoguchi, entre outos. Fui também crescendo muito com o cinema português, em especial com os filmes do José Álvaro Morais, António Reis, Pedro Costa, Miguel Gomes e João Salaviza.”

Trailer de Submarine de Richard Ayoade 

No primeiro ano de faculdade, ainda sem saber no que se especializar, Bernardo foi um dos escolhidos pela Nisimazine, para um workshop de crítica de cinema na 61.ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian, em Espanha. Como crítico, “tive a oportunidade ver vários filmes no Festival – cerca de quatro por dia – e, essencialmente, de falar sobre eles, de os compreender, de os desconstruir. Acabei por também fazer parte deste mesmo workshop em Cannes, no ano a seguir”. Estas experiências levam-no a ser convidado para colaborar com o C7nema: “Acabei por fazer algumas críticas em Portugal e em Cannes para o website, que me deram imenso prazer. É um dos melhores websites de cinema em Portugal, na minha opinião.”

Entretanto, Bernardo salta do cinema para a indústria televisiva, aquando de um projeto académico em 2014, que lhe concedeu experiência na área da produção. No mesmo ano, é convidado para integrar a equipa de produção da Sport TV para a cobertura da final da Liga dos Campões, que decorreu esse ano, em Lisboa. Mais recentemente, podemos encontrá-lo nos créditos da série “com mais sucesso da RTP Lab”, Casa do Cais. Apesar de serem “dois projetos muito distintos, mas extremamente ambiciosos e exigentes”, Bernardo afirma que “a produção de conteúdos televisivos diverge muito da do cinema no ritmo e urgência que a televisão precisa, e na minuciosidade e rigor que o cinema pede”.

Contudo, o cinema volta a chamá-lo. O ano de 2014 revela-se extremamente importante para a carreira do realizador algarvio: é jurado convidado na secção Gionarte Degli Autori – Venice Days na 71.ª edição do Festival de Cinema de Veneza e é distinguido pelo Parlamento Europeu para ser o embaixador de Portugal do Prémio LUX, prémio de distinção concedido a obras que impregnam os mesmos valores defendidos pela União Europeia. Ainda no mesmo ano, Bernardo é um dos selecionados para integrar a iniciativa ESSEMBLE – Nomadic Realities and Digital Filmmaking, um projeto de mobilidade académica, que permite aos estudantes em Portugal estudar cinema nas universidades parceiras. No âmbito do programa, Bernardo passou pela Luca School of Arts, na Bélgica, pela IFS – International Filmschool Koln, na Alemanha e ainda pela MOME – Universidade Moholy-Nagy de Arte e Design, na Hungria.

Como resultado de um ano repleto de experiências profissionais, Bernardo realiza LUX, a sua primeira curta-metragem. No ano de 2015, é selecionado para mais de 60 festivais, dentro e fora do país, como o Curtas Vila do Conde, Lisbon & Estoril Film Festival e Fantasporto. Bernardo Lopes ganhou mais de 10 prémios, por um trabalho no qual, como em quase todos os projetos que desenvolve, não desempenha só uma função. Podemos encontrar o nome do jovem cineasta associado tanto a realização como cinematografia, edição, argumento ou produção. Explica que não sabe “se há uma razão específica para o que faço. Tudo começa na vontade que tenho tido em querer contar histórias que me são próximas e que acredito serem relevantes. Não quer dizer que não venha a realizar um projeto escrito por outro(a) argumentista. A realização, por si só, já requer que tenha que estar muito presente em todas as fases criativas do filme. Contudo, é importante ressalvar que o cinema é uma arte coletiva, e que o resultado de cada filme é influenciado por cada um”.

 

Trailer de LUX, primeira curta-metragem de Bernardo Lopes

A arte de realizar traduz-se na arte de contar histórias. Bernardo não sabe bem como explicar a sua maneira de contar histórias, mas “acho que o que mais me fascina é o real e tudo o que o caracteriza. Nos meus filmes, sinto que privilegio sempre o tempo real e a arquitetura que envolve os personagens, como forma de intensificar o conflito que vivem. Quero fazer filmes simples, porque vejo nessa simplicidade, inquietude e aventura. As histórias que conto são sempre muito próximas do que vivi. Não seria capaz de contar outras.”

Com apenas 25 anos, Bernardo mantém uma relação muito peculiar com os seus projetos. O Gerador quis saber qual o momento mais marcante da sua carreira, ao que nos respondeu: “O momento mais marcante foi cada filme que fiz. Cada relação que criei em set e fora de set. Cada hora na sala de montagem, cada reescrita de guião, cada estreia. O momento mais marcante foram todos os que o cinema me proporcionou.”

Bernardo foi um dos oradores do Directors Hub na edição deste ano do FEST, inserido no grupo da nova vaga portuguesa de cinema. Como realizador, Bernardo vê o meio cinematográfico português “num momento de transição. Sinto que, mais do que nunca, o cinema português respira liberdade e diversidade, comprovada pela internacionalização dos seus filmes e autores. Acredito, contudo, que é necessário haver uma reestruturação educacional no que toca à promoção do cinema português”.

“Os filmes portugueses estão a ganhar cada vez mais reconhecimento internacional, mas a ficar cada vez mais distantes do seu público português.” Para Bernardo, o cinema português não necessita “grandes reestruturações. Temos um nível de produção baixo e suborçamentado, mas extremamente livre e diversificado.” Bernardo defende uma “reestruturação na educação cultural”. Natural da Quarteira, “uma cidade completamente marginalizada culturalmente, como a maior parte das zonas fora de Lisboa e do Porto. Só comecei a ter acesso a programação de cinema português quando vim para Lisboa, aos 18 anos. É muito complicado criar uma relação entre os portugueses e o seu cinema quando essa relação não se estabelece nas escolas, desde cedo. Desta forma, é natural que um espectador escolha ir ver um blockbuster americano quando chega às bilheteiras”.

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografia de ©Bernardo Lopes

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