Em março de 2019, Rita Sampaio mostrou ao mundo uma nova faceta sob o alter ego IVY, com o álbum Over and Out, assinado pela Cosmic Burguer e com a participação de Rui Gaspar dos First Breath After Coma. Desde então, viajou pelo país apresentando um trabalho mais experimental e introspetivo, afastando-se do que nos tinha habituado em Grandfather’s House.

No passado mês de julho, lançou o segundo single do seu mais recente projeto, Black Matter, com vídeo da autoria de Ângela Bismarck. Em comunicado, a artista descodifica o tema por detrás da canção: “O temor da escuridão, de um local que todos evitamos encarar quando por ele confrontados. Uma matéria negra, viscosa, que surge imponente e sem aviso prévio, parece sugar tudo de bom e de luminoso que resta. Black Matter representa esse local, esse confronto inevitável, um buraco negro. É esse local também que pode conduzir exatamente ao contrário, ao mais belo e luminoso, quase angelical, renascer.” Antes de seguir para os próximos concertos por Lamego, no ZigurFest, ou ainda na Noite Branca de Braga, o Gerador quis saber mais sobre Rita e o seu alter ego, IVY.

 

 

Black Matter segundo single de Over and Out de IVY, vídeo da autoria de Ângela Bismarck

Recuando aos tempos em que tudo começou, após o secundário, Rita estudou piano e voz, as principais ferramentas de expressão e composição da artista. Mas foi em Grandfather’s House que, a jovem natural de Famalicão, deu os primeiros passos e atuou em palcos como o do Festival Vodafone Paredes de Coura. Relembra que a banda “foi o meu primeiro projeto a sério”, começou com Tiago Sampaio, o irmão mais velho de Rita, quem, desde cedo, a iniciou na música e “que quis começar um trabalho a solo, mas que rapidamente evoluiu, e tornei-me parte integrante da banda”.

O primeiro EP remonta a 2014, e, desde então, Rita aprendeu “tudo o que sei. Claro que ouvi e experimentei muita coisa para além de Grandfather’s House, mas essa foi a base para aprender tudo o que quero e não quero fazer. Para descobrir uma espécie de caminho”, caminho esse que a levou a criar IVY. O caminho foi longo, demorou cerca de dois anos a solidificar, Rita contou com a ajuda do amigo João Figueiredo e uma passagem pelos estúdios da CASOTA Collective. Para a artista, o alter ego “resultou de uma série de canções e ideias que tinha em rascunho. Foi muito natural perceber que tinha coisas a dizer enquanto pessoa e artista, para além do que já tinha. Isso foi o mote para desenvolver algo mais próprio, algo que ainda não tinha. Algo mais pessoal”, explica.

Tanto em Grandfather’s House como em IVY, vemos uma Rita que se divide, que explora facetas distintas e traça caminhos paralelos. Em IVY, apesar de ser mais intimista e sombrio, encontramos “apenas um lado novo” de Rita: “Tento transportar-me como pessoa para tudo o que faço, mas este projeto foi um reinventar daquilo que tinha feito. É claro que este projeto teve, na sua origem, um cariz super pessoal, e isso não dá para negar”.

Apesar de ser a primeira vez que Rita se lança na música sem os restantes camaradas, explica que tem sido “diferente” sem eles, mas que ainda assim “é, sem dúvida, um sentimento de realização diferente, porque senti a minha própria vontade a ser realizada, sem barreiras”. O facto de ser um projeto a solo implica processos criativos diferentes, “significa explorar e criar conteúdo de uma forma completamente diferente, que não tem de depender de feedback de outros intervenientes. Eu própria procurei as pessoas que queria que opinassem. Mas isso não é algo impositivo”, explica. Com o novo projeto, Rita tentou “explorar ao máximo o que não tinha até aqui”, tratou-se da “oportunidade para dizer o que tinha que dizer, da forma que queria dizer, e de soar ao que queria soar, sem ter de encontrar um consenso com outras partes”. Ainda assim, Rita não está totalmente só, num jogo sensorial, Víctor Silva e Francisco Carvalho, da editora da Cosmic Burguer, acompanham-na em palco, dando forma e cor a IVY.

Apesar da familiaridade de um projeto e da liberdade de outro, Rita vê a música “tanto como uma indústria como uma cultura, apesar de ambas muito precárias”. Acredita que “existe ainda muito trabalho pela frente no que diz respeito à edução, à visão da população e à música, àquilo que ela pode representar e o seu potencial de cultivar algo maior em cada um. Acho que tanto o músico, o artista, como o trabalho que apresente, são ainda muito desvalorizados e, por isso, a indústria sofre. Acho também que o facto de Portugal ser um país de pequena dimensão não possibilita um maior crescimento desta indústria, mas não pode ser só isso e não podemos descansar à sombra desse pensamento”.

Quanto ao caminho de Rita, só o futuro saberá: “Eu não tenho destino, não tenho local seguro no qual me resguardo. Tanto IVY como Grandfather’s House, projetos nos quais tenho parte ativa atualmente, estão em constante mutação e desenvolvimento. Acho que é essa a minha premissa enquanto pessoa e enquanto artista, reinventar-me constantemente. Por isso, fica difícil dizer onde estou e para onde vou.”

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografia de ©Ângela Bismarck

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui.