Das 87 candidaturas que a Bolsa Amélia Rey Colaço recebeu em 2018, apenas uma conquistou o júri. Eduardo Molina, João Pedro Leal e Marco Mendonça, criaram Parlamento Elefante, o espetáculo vencedor da Bolsa criada em homenagem à encenadora portuguesa pelo Teatro Nacional D. Maria II, o Centro Cultural Vila-Flor e O Espaço do Tempo, com o intuito de apoiar produções de jovens artistas e companhias emergentes.

Parlamento Elefante designa-se como sendo uma peça em que, de Che Guevara ao Capitão América, dos The Beatles às Nações Unidas, de Gandhi a Quentin Tarantino, dos atores ao público, todos se reúnem para forjar leis universais, colaborar em conflitos de interesse, manipular massas, falsificar assinaturas e outros planos maléficos. Agachados numa trincheira ou sentados numa conferência das Nações Unidas, o assunto mantém-se: democracia.

O júri da Bolsa Amélia Rey Colaço, composto pelos responsáveis artísticos das três instituições promotoras, explicou a sua escolha dizendo que se “trata de uma proposta artística muito consistente e com fulgor criativo, que articula claramente uma pesquisa dramatúrgica com uma reflexão política e histórica. Embora jovens, os autores revelam um currículo rico e diverso, tendo também constituído uma equipa de colaboradores artísticos de qualidade para a criação deste espetáculo”.

O espetáculo estará em cena de 10 a 19 de maio na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, e o Gerador foi assistir a um dos ensaios, em que aproveitou para perceber a magia por de trás de Parlamento Elefante.

Fotografia da peça Parlamento Elefante, por ©Filipe Ferreira

GERADOR (G.) —Como é que isto tudo começou?

Eduardo Molina (E.M.) — Nós fomos colegas de licenciatura da Escola Superior de Teatro e Cinema e depois de findada, sempre tivemos o desejo de trabalhar juntos e criar um espetáculo juntos, fazer uma criação coletiva. Fazíamos reuniões para discutir ideias, escrever e pensar um espetáculo. Um dia, surge a Bolsa Amélia Rey Colaço e nós decidimos concorrer. Reunimo-nos e, a partir de um livro que o Marco estava a ler, que se chamava Parlamento do Homem de Paul Kennedy, elaborámos esta ideia, que partiu de fazer um espetáculo a partir das nossas datas de nascimento, revisitando o século XX, e acho que foi assim que começou.

João Pedro Leal (J.P.L.) — No fundo, a Bolsa foi a oportunidade que nos foi dada para termos meios para fazermos qualquer que fosse, a ideia que tivéssemos na cabeça. Quando surgiu a Bolsa, nós pensámos: ‘vamos agora concentrarmo-nos numa coisa e elaborá-la’.

Marco Mendonça (M.M.) — Vem numa altura certa, como pretexto para focar finalmente numa coisa com datas marcadas, com plano de trabalho, com uma candidatura para formalizar e, a partir daí, a coisa foi ganhando cada vez mais forma.

 

G. — Como foi construída a base do espetáculo, o que serviu e o porquê de ter tantas referências do século XX e de que maneira é que a vossa abordagem permite a reflexão sobre a democracia?

J.P.L. — A ideia é como nós revisitamos o século XX, e fazer cem anos num espetáculo nunca mais saíamos daqui. A ideia foi usarmo-nos a nós e a nossa história pessoal como filtro, para passarmos por esse século e os seus acontecimentos. Neste caso os nossos avós, que eles viveram nessa altura, não quer dizer que eles tivessem estado num acontecimento importante, mas passaram por ele.

M.M. — [Num evento] Não importante aos olhos da história com H grande, mas importante para a possibilidade de nós estarmos aqui hoje.

J.P.L. — E, nesse sentido, passar essa linha pelo passado e ficcionar um presente barra futuro onde há coisas para resolver, porque hoje em dia ainda temos coisas para resolver. E, no fundo, é neste balanço entre as duas coisas que acaba por haver uma espécie de reflexão, não no sentido literal, mas que acaba por acontecer pela ligação.

M.M — É um bocado como imaginar esta coisa, que futuro é que os nossos familiares durante o século XX imaginavam para eles, para a humanidade em geral, para a sua descendência e que passado é que imaginamos nós que eles tiveram e que dificuldades podem ter tido e que questões e que conflitos? Acho que é mais que revisitar um passado e imaginar um futuro. É, sobretudo, um exercício sobre o nosso presente. O que estamos a viver agora e como é que lidamos com a informação, como é que lidamos com a informação que queremos partilhar, que queremos guardar? Como é que um espetáculo acontece também partindo deste imaginário de uma história que não conhecemos na sua totalidade e nem nunca iremos conhecer, através de coisas simples, de encontros ficcionados ou reais, de atos heroicos, ou atos de alguma cobardia? Como é que um século se constrói nesta base? E como é que um espetáculo se constrói na base da democracia, entre três criadores que dialogam entre si e mandam ideias para o lixo, dão mais importância a outras, constroem textos, juntam-nos, trocam de sítio, eliminam, reorganizam? Ou seja, a grande reflexão democrática que não se tendo marcado muito no próprio espetáculo em si — que não é um carimbo que temos no decorrer do espetáculo — esteve bastante presente na criação do mesmo, nas discussões durante o processo e continua a estar presente em todo o lado.

 

G. — Qual é que é o elemento que determina a ordem do espetáculo?

E.M. — São três elementos que se vão intercruzando. Os três elementos são os nossos antepassados, o século XX e o desconhecido que enfrentamos do futuro. São três elementos que funcionam como três narrativas em paralelo, que se cruzam e que formam a linha narrativa.

M.M. — Também foi difícil nós pensarmos numa fórmula narrativa para a coisa. Que ponto específico é que servirá de linha condutora para o espetáculo todo? Entretanto, surgiu esta coisa desta ameaça misteriosa e abstrata, que se vai instalando durante o espetáculo, e isso também nos ajudou a intercalarmos as outras histórias um bocado em paralelo a essa entidade, essa nuvem negra que se vai criando ao longo do espetáculo. Há a linha narrativa dos nossos antepassados, há a do desconhecido e há esta do século XX na fotografia maior da coisa.

Fotografia da peça Parlamento Elefante, por ©Filipe Ferreira

G. — A peça Rinoceronte, do dramaturgo Eugène Ionesco, serviu de base de inspiração?

M. — Base de inspiração parece forte.

J.P.L. — Em conversas, chegamos a falar sobre isso, sobre a peça, mas nunca chegou a ser um ponto de real discussão entre nós ou para a construção do espetáculo.

 

G. — Mas houve elementos que retiraram da peça?

M.M. — Se houver elementos que podem ter sido retirados da peça para este espetáculo, nós não o sabíamos até termos o contacto efetivo com a peça do Ionesco. Eu, pelo menos, não o conhecia, já foi mais ou menos a um terço do processo do Parlamento Elefante, que me cruzei com o texto do Ionesco. E também não me quis empenhar muito na leitura do Rinoceronte, justamente para não ficar tentado. Porque podia ter sido eventualmente um caminho possível como inspiração, mas acho que surgiu mesmo só do que se trata e ficou também a pairar na nossa base de dados.

 

G. — Como é que pretendem que o espectador se relacione com as personagens?

E.M. — Eu acho que, quanto a isso, confiamos na capacidade mágica do teatro de empatizar com outros seres humanos. Para mim, é tão simples quanto isso. Os seres humanos do século XX são os seres humanos do século XXI e todos os que vieram para trás também. E as pessoas hão de se relacionar sempre com o que fazemos, com o que contamos, quer seja por razões mais emocionais, quer seja por razões históricas que eles conhecem e que possam ter vivido, que lhes faça graça lembrarem-se, que seja da maneira que for, é a empatia de pessoas para pessoas.

 

G. — Vocês ganharam a Bolsa o ano passado, como é que foi durante este tempo, dar vida e preparar os pormenores todos para que, no final, o espetáculo ficasse tal e qual como planearam?

E.M. — O espetáculo não está tal e qual como planeamos.

J.P.L. — Ou seja, há um ano não era nada disto que nós imaginávamos que o espetáculo ia ser. No entanto, continua a ter o núcleo, ou a essência que nós imaginámos na altura. Nós começamos no início, na altura da bolsa, foi o momento inicial em que pensámos mais sobre o que seria este espetáculo e discutimos ideias de coisas que nos interessavam falar. Por exemplo, queríamos que tivesse a ver com a nossa biografia, os nossos avós, um lado pessoal. Queríamos que fosse ao século XX, às Nações Unidas, que, na altura, estavam muito presentes nas nossas conversas. Mas era isso, eram coisas que sabíamos que queríamos falar. E como nós os três fizemos a escola juntos, já nos identificamos artisticamente com a linguagem uns dos outros, e já nos conhecemos mais ou menos na forma de pensar e pensamos mais ou menos nos mesmos sentidos. Depois há uma data de meses, desde que ganhámos a bolsa, de encontros esporádicos para discutir ideias, e o trabalho a sério começa na primeira residência em Guimarães, ainda em outubro. Que é quando começamos a escrever individualmente e nos vamos juntando para ler e tornar as três coisas que escrevemos numa coisa só para não ser um texto de três autores diferentes, mas três autores diferentes a escrever um texto. E com o resto da equipa que também esteve em residência connosco, também eles trouxeram muita bagagem. Por exemplo, o Mestre André, que está na música, esteve também connosco quase desde o início das residências e também discutia ideias connosco e nós com ele, porque assim também era melhor para poder entender que espaço sonoro é que este espetáculo poderia ter, que músicas é que poderiam acontecer. E foi gradualmente [acontecendo]. Batalhamos muito no texto e, ao longo das residências, fomos evoluindo o texto e logo imaginando como é que poderia estar em cena. Ou seja, ao escrever começamos logo a imaginar 'OK isto pode acontecer desta maneira, daquela maneira, queremos que funcione mais ou menos assim’. Claro que depois vamos para o espaço e é diferente, mas isso também é bom. Haver coisas que descartamos e coisas novas que adicionamos, dá uma espécie de renovação. Que é uma coisa boa nesta bolsa, que é o tempo que nos deu. Para além do espaço, temos tempo de qualidade para poder fazer isso: eliminar coisas, trazer coisas novas, que faz com que as camadas vão subindo e se vá aprofundando as coisas que queremos dizer.

M.M. — E ao mesmo tempo vamos atualizando as ideias que fomos tendo.

J.P.L. — Por exemplo, entre a primeira residência e a segunda, em Guimarães também, seguida de Montemor e depois já foi tudo seguido até agora. Mas nesses cinco meses foi mais que tempo para muitas das ideias que tivemos na residência anterior chegar à seguinte e pensarmos ‘não é bem isto, se calhar é mais por aqui’. Mas foi bom, porque ficamos a matutar nas ideias que tínhamos tido anteriormente.

 

G. — Ou seja, o texto foi mudando consoante as residências, mas há uma grande diferença do papel para o palco? Quais foram as maiores transformações que fizeram que tiveram de vos fazer adaptar à última da hora?

M.M. — Nós tivemos muito tempo à volta do texto só à mesa. Mas nas primeiras duas residências, tivemos quase sempre à mesa a discutir o texto e a pensar já no espetáculo, na sua forma, mas de forma muito imaginária. E a primeira vez que fomos para o espaço foi já na última residência em Montemor, na última semana, muito porque tínhamos um ensaio aberto no fim dessa semana. E também era a altura certa para imprimirmos finalmente o texto que só tinha sido impresso na residência anterior numa versão mais curta, e tínhamos o texto na mão e não havia desculpa para não irmos para o espaço e começarmos a experimentar coisas, a deixar cair folhas e a saltar para a cena seguinte porque a folha caiu, e experimentar coisas e que a folha que caiu nem precisa de voltar… Fomos percebendo também que espécie de magia é que o espetáculo pode ter no espaço e de que forma nos afetamos uns aos outros a fazer efetivamente. Mas a diferença é enorme, do papel para o palco. Aliás, o papel influencia em muito aquilo que está no palco. Tivemos alterações de texto até ontem, mas isso também é giro, como é que todos os dias vais atualizando este objeto. Uma palavra que dizes hoje, pode não fazer sentido amanhã, com uma razão muito forte qualquer e sim, há essa liberdade também para pensarmos os três se vale a pena ou não, ou que espécie de sentido é que queremos que as coisas tenham, às vezes muito em cima da hora. Mas isso esteve sempre na base do nosso trabalho, mesmo no período académico, tivemos sempre esta liberdade do momento.

Fotografia da peça Parlamento Elefante, por ©Filipe Ferreira

G. — Como é que é finalmente apresentar no Teatro Nacional D. Maria II?

M.M. — É um privilégio. É uma sensação excelente, e fico feliz que a primeira vez que trabalho como criador, falando pessoalmente, seja com o Eduardo e com o João. E o facto de a estreia ser no Teatro Nacional é a cereja no topo do bolo, porque o que interessa aqui realmente é que conseguimos levar finalmente um projeto para a frente que é o nosso primeiro, e apresentá-lo durante uma semana e meia, o que é incrível.

J.P.L. — Nós queremos é fazer!

 

G. — Já há ideias para projetos futuros? Ou por enquanto é só o Parlamento Elefante?

M.M. — Sim, o Eduardo escreve muitos textos. É um dramaturgo premiado, de certeza que já tem aí qualquer coisa na gaveta, só ainda não nos disse. Está a magicar… Não é?

J.P.L. — Por enquanto estamos concentrados neste projeto, depois também há trabalhos individuais que cada um já tem, mas não pomos, de todo, de parte uma nova criação. Mas é quando tivermos uma inspiração, uma vontade, quando quisermos…

M.M. — Tal como a vontade para este surgiu naturalmente, outra coisa surgirá. Para já é Parlamento Elefante até onde der para ser.

 

G. — Como é que foi trabalharem os três? Correu bem ou chatearam-se pelo caminho?

J.P.L. — Eu já estava farto de os ver à frente. [risos]

E.M. — Houve um dia que andámos todos à porrada… [ironicamente]

M.M. — Lá está, uma democracia é uma democracia…

J.P.L. — Nós sempre nos demos bem e somos pessoas tranquilas por natureza. Claro que quando estamos duas semanas num sítio a trabalhar 24h sobre 24h e temos de escrever um texto e no final dessa semana vamos apresentá-lo, chega a uma altura em que ficamos nervosos e é normal às vezes estarmos a discutir as coisas com mais…

E.M. — Há conflito…

M.M. — Conflito de ideias, de perspetivas, de interesses, de opiniões, há sempre conflito.

E.M. — Somos três, no fim de contas.

M.M. — Se pensarmos bem, há sempre um conflito todos os dias, mas é um conflito de trabalho, um conflito necessário.

J.P.L. — O importante é que se acontece um conflito num dia, nesse dia tem de ficar resolvido e no dia a seguir voltamos e trabalhamos a partir do que ficou.

E.M. — Nem acho que chega ao dia a seguir, eu acho que nós temos uma capacidade que advém da nossa relação pessoal e das nossas identificações artísticas uns com os outros, que nos permite mesmo na altura… Diria só que houve uma situação excecional, mas que 99 por cento das vezes conseguimos falar, e eu entendo imediatamente o ponto de vista do Marco, e do João, que possam diferir do meu. Embora não concorde, eu acho que não houve uma vez que eu não compreendesse e acho que essa é a base para trabalhar à volta de opiniões diferentes. ‘Eu compreendo, só que vou tentar também fazer-vos compreender o que eu penso.’

Texto de Rita Matias dos Santos
Fotografias de ©Filipe Ferreira
O Gerador é parceiro do Teatro Nacional D. Maria II

Se queres ler mais entrevistas sobre a cultura em Portugal, clica aqui.