Diversificada nas formas e no conteúdo, ultrapassando as lógicas mais comerciais deste tipo de literatura, mas definida pelo pequeno mercado editorial que a remete à condição de nicho. Esta é, porventura, uma boa abordagem inicial para se falar de Banda Desenhada (BD) portuguesa contemporânea, composta por cada vez mais autores de grande talento, mas onde continuam a faltar os sempre necessários leitores.

Este é, certamente, um dos grandes desafios que os criadores de BD em Portugal – escritores e ilustradores – continuam a enfrentar nos dias que correm, a par, claro, da desmistificação permanente face aqueles que ainda entendem o género literário como sendo apenas destinado a um público infantojuvenil. Tal como realça Rui Zink, quer se designem como “Histórias aos quadradinhos”, “Estorietas”, “Fumetti” ou “Graphic novel”, a riqueza da BD reside, tal como na literatura, num “estado de permanente possibilidade e inquietação”, apenas com a diferença de que a primeira recorre ao desenho, “uma representação que fala uma suposta linguagem universal”.

O problema não está, portanto, na definição, nem na sua capacidade comunicativa – que facilmente lhe é reconhecida –, mas sim, de acordo com muitos dos seus autores, na fraca divulgação e sensibilização juntos dos públicos. Partindo destes desafios, o Gerador esteve à conversa com autores e editores, com o objetivo de se traçar um estado da arte para a BD portuguesa contemporânea, onde se demonstra que mesmo num espaço bastante limitado de circulação, é possível constatar-se a existência de um ecossistema que está vivo e repleto de boas ideias.

Página do livro ainda em construção com o título “Bestiário de Isa”, de Joana Afonso

Um universo que foge aos padrões da BD dita “comercial”
Quer pelo tipo de editoras existentes, quer pelo tipo de autores, o retrato da também chamada arte sequencial no país é bastante diversificado e difícil de se padronizar tematicamente. Joana Afonso, ilustradora e autora de várias BD’s, sustenta que existem “cada vez mais pessoas” a quererem ser “autores/as e artistas desta expressão narrativa visual”, algo que é visível nas publicações, que começam desde logo nos chamados fanzines.

No entanto, esse mesmo dado, corroborado por Sofia Neto, também ilustradora e autora de BD, é contraditório com aquilo que é na realidade o mercado em termos nacionais. “Parece-me um ecossistema vivo, a julgar pela quantidade de publicações, autores e editoras que têm aparecido. Se não se ouvisse dizer que em Portugal ‘não há mercado’, não se daria por ela olhando para a energia com que se faz e edita banda desenhada”.

Tal como Sofia aponta, a verdade é que no mercado editorial, a banda desenhada tem ganho espaço nos últimos anos. Projetos como A Seita, a Pato Lógico e a Chili com Carne têm mantido um papel importante na introdução de novos autores, a par de outras editoras mais antigas – algumas delas já com mais de duas décadas de existência – como a Kingpin Books (que é também livraria) e a Polvo.

No caso do Chili com Carne, que surge primeiramente como associação aberta ao cruzamento de várias expressões artísticas, a edição de fanzines e banda desenhada tornou-se central no trabalho desenvolvido desde 2000. Marcos Farrajota, o seu editor, explica como o catálogo da associação tem ido ao encontro de “vozes criativas, de artistas que fazem trabalhos um pouco fora das temáticas tradicionais”, fugindo geralmente aos temas mais associados à pop culture. “Toda a gente se está a focar em ficção científica, fantasia, policiais e nesse aspeto até acho que há um retrocesso intelectual sobre o que já se fez em Portugal, sobretudo desde os anos 70 com a revista Visão”, salienta.

Efetivamente, o universo da banda desenhada tem sido amplamente dominado por temáticas, cuja influência advém muitas vezes daquilo que se foi fazendo noutros países, nomeadamente nos Estados Unidos da América e no Japão. António Jorge Gonçalves, autor de BD e ilustrador explica que por uma lado a “fantasia heroica está fortemente embutida, sobretudo no universo masculino, sendo que a  “fantasia mágica, sobretudo via manga, também tem o seu quinhão, sobretudo no universo feminino”. Não obstante, Gonçalves sustenta que perdura “um humor sobre o quotidiano urbano que continua presente desde os primórdios da BD em Portugal (e no mundo)”, relembrando a importância de figura como Rafael Bordalo Pinheiro ou Fernando Relvas.

Para muitos destes autores, tem existido um esforço para que as temáticas se alarguem, o que acaba por funcionar como marca carácter distintiva entre eles. Sobre este ponto, Joana Afonso sugere que hoje em dia as “histórias mais autobiográficas, de heróis, até a ficção científica”, concorrem também e cada vez mais com “as preocupações e críticas aos tempos que correm, como as questões de gênero ou o racismo (não falando desta pandemia)”.

Essa tendência é notória, por exemplo, no trabalho de Francisco Sousa Lobo, autor de vários livros de BD publicados também na Chili com Carne, que se têm debruçado sobre temáticas relacionadas com a saúde mental. Para o autor, que vive e trabalha em Londres, existe um “amadurecimento na forma”, visível na nova geração de autores portugueses, mais despertos para a ligação da BD às restantes expressões artísticas. No que há temática diz respeito, Francisco considera que tal como na literatura, “não deve haver limites nos temas tratados” ainda que se tenha que “ter cuidado com a dimensão visual”, dando como exemplo o seu livro O Cuidado dos Pássaros, onde retrata uma história de pedofilia.

Página de “Gente Remota”, livro de Francisco Sousa Lobo

Banda desenhada à portuguesa?
Num país sem aparente tradição, subsistem exemplos de como as histórias aos quadradinhos mantém uma certa linha condutora no tempo. Veja-se o caso dos festivais de banda desenhada como o Amadora BD, cuja primeira edição remonta ao ano de 1989, e do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, que em 2019 chegou à sua 15.ª edição, ou ainda das revista e suplementos literários que ganharam o seu lugar na história, como é o caso da Visão, revista de banda desenhada portuguesa, nascida em 1975, recentemente recuperada pela Chili com Carne, através de uma iniciativa editorial a que chamaram Revisão.

A Visão é, aliás, um exemplo inegável de como a BD portuguesa foi encontrando novas formas de se exprimir, através, geralmente, de uma rutura com o passado, num processo de constante evolução e amadurecimento. É também nesse sentido que Mário Freitas, fundador da Kingpin Books, livraria e editora lisboeta, olha para a banda desenhada que se faz hoje em Portugal, que advém de um “misto de inúmeras influências, sejam americanas, japonesas ou belgas”, e onde não existe o peso de um legado português.

“Isto que vou dizer é um bocadinho politicamente incorreto mas aquela BD clássica portuguesa do José Ruy, do José Garcês e do Eduardo Teixeira Coelho são coisas completamente datadas. E felizmente, acho que essa BD dita clássica não influencia 98% dos novos autores portugueses e acho que faz todo o sentido não influenciar”, explica. 

No seu entender, a BD portuguesa vive atualmente de “inúmeras influências” não existindo uma “escola específica” que a catalogue, sendo que a existir um legado esse se passa, como nos diz Sofia Neto, entre autores. “A nível nacional, a influência que sinto parte sobretudo do contacto com autores, ouvi-los falar em festivais e ver exposições. Não consigo falar de um legado, mas posso dizer que me afeta ver autores que publicam há mais tempo continuarem a fazê-lo, mesmo depois de hiatos, que avançam em transformação, independentemente do retorno”, sublinha.

Prancha de projecto em processo, vencedor da Bolsa de Criação Literária em 2020, de Sofia Neto

Esboços para um futuro com mais leitores
Já este ano, Filipe Melo e Juan Cavia publicaram Balada para Sophie, depois do sucesso de As Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy e ainda Os Vampiros. Em entrevista recente ao Gerador, e questionado sobre o estado deste género literário no país, o também pianista salientou que a BD portuguesa é ainda um nicho mas feita por “artistas de enorme talento”, que dão forma a uma “comunidade criativa e forte”. Por essa razão, Melo considera que ainda é muito difícil produzir e editar um livro em Portugal, por falta de leitores, mas espera que isso possa mudar com o tempo, estabelecendo-se uma “uma relação de confiança entre quem faz um livro e quem o lê”.

Os livros de Melo e Cavia têm sido publicados em Portugal pela Tinta-da-China, naquilo que se pode considerar um fenómeno interessante no que toca à aproximação de uma editora de carácter mais clássico ao universo da BD, e que, eventualmente, a pode aproximar de novos leitores. Para António Jorge Gonçalves, que também tem editado pela Orfeu Negro, o grande desafio continua a ser o de encontrar editoras que não só apostem na BD como também a consigam levar ao público certo.

“O livro de BD tem normalmente um custo de produção elevado e o funcionamento do mercado fixa-lhe um preço baixo. Isso significa que é preciso vender muitos livros para cobrir o investimento e lucrar alguma coisa”, explica. Assim sendo, realça, a mudança só “se alcança com uma indústria, e a falta dela é um problema de várias áreas artísticas. É uma questão de falta de escala, mas também de falta de hábito de consumo cultural. E há também a cultura atual de gratuidade digital que faz com que muita gente resista a pagar por um livro”, acrescenta.

Numa época em que são cada vez mais as BD’s adaptadas ao cinema ou à televisão, Joana Afonso realça que “seria importante tornar mais visível a BD que se faz por cá, ou de alguma forma tornar mais apelativo o mundo BD que é tão vasto”, sobretudo para os mais novos. A esse nível, Sofia Neto acredita que as “bibliotecas escolares e municipais podem ser agentes importantes na introdução e exposição à banda desenhada”, a par da “sensibilização dos pais através da divulgação e discussão em meios de comunicação nacionais e a produção e tradução de conteúdos de qualidade e acessíveis para faixas etárias mais jovens”.

Pela sua experiência, Mário Freitas, da Kingpin, salienta que os autores portugueses de hoje são “tão bons ou melhores como os de outras nacionalidades”, estando apenas condicionados pela falta de apoios à criação. Por isso, mais do que trabalhar na parte da sensibilização – que deve ser uma premissa contínua – é preciso também que se tente abrir a porta de novos mercados, como é o caso do Brasil, e continuar a apostar na tradução de BD portuguesa, para que esta possa, finalmente, ser percetiva de forma mais global.

Página de “O Grupo do Leão”, livro da autoria de Rui Zink e António Jorge Gonçalves
Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Ilustração de capa pertencente ao livro Ana de António Jorge Gonçalves

Se queres ler mais reportagens sobre a cultura em Portugal, clica aqui.