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Opinião de Nuno Varela

Joaquim Silveira aka Moca RIP

Nas Gargantas Soltas de hoje, Nuno Varela fala-nos sobre homenagear em vida.

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Se costumam acompanhar-me nas redes sociais sabem que estas últimas semanas foram muito intensas para mim. Em três semanas, andei mais de oito vezes de avião e estive nos seguintes países: Alemanha, Polónia e terminei nos Estados Unidos. Sim, tudo isto em 3 semanas, sendo que estive uma semana em Washington DC e outra semana na mágica e enigmática New York. Vim com tantas histórias que, de tanto falar com os amigos, já sou aconselhado a fazer um livro, já tenho nome e tudo “Uma semana em NYC”.

Era sobre isso que eu queria escrever, mas não vai ser. Espero poder abordar este tema nos próximos textos, mas este vou dedicar a uma pessoa que conheci recentemente, com quem simpatizei e, digamos, que criei algum tipo de laço, o Joaquim Silveira.

Quem foi Joaquim Silveira que faleceu no dia 26 de Setembro e foi enterrado no dia 29 de Setembro? Foi um grande pugilista nacional e o primeiro treinador do grande atleta Jorge Pina e era assim que eu gostava de apresentar o Moca a todas as pessoas que iam ter comigo à Academia Jorge Pina e se cruzavam com ele.

Ouvi muitas histórias sobre o Moca, algumas boas e outras más, mas tentei focar-me só nas histórias que ele gostava de contar. Das mais diferentes, uma vida cheia de pequenos filmes que davam grandes filmes de Hollywood. 

O Moca gostava muito de dizer às pessoas que, em 1996, foi feito um filme sobre a vida dele, o “Vencer a Sombra”, um filme com a direção de Pedro Madeira e Paulo Ares, filme esse que ele perdeu e eu fiquei responsável de o encontrar e vermos numa sessão de cinema na Academia. Cheguei até a contactar os directores através do Instagram e ficámos de combinar um dia para tratar disso. O filme encontrava-se num formato antigo e era necessário uma conversão, algo que já tínhamos forma de fazer. E faltou talvez tempo, vontade ou noção de que o Moca se encontrava nos seus dias finais e tínhamos que acelerar o processo de forma a poder dar-lhe este último presente que ele tanto queria e pedia.

Em tão pouco tempo de convivência foram tantas as histórias que, sempre que estivesse com uma pessoa que não o conhecesse, gostava de puxar por ele de forma a fazer sair o seu lado de narrador de histórias, “Moca, conta lá como é que expulsaste os nazis no Bairro Alto” e ele todo orgulhoso e cheio de paixão dizia: «Fui contratado para correr com os skins todos. Cheguei lá um dia e tavam uns 50 na rua e eu bem alto disse: “a partir de hoje, não quero aqui nenhum cabeça rapada.” E desapareceram e depois outros espaços vinham falar comigo para os meter na linha. Eu dominava ali aquilo tudo.»

Quem viu o Moca nos seus dias finais pode até duvidar que tal homem conseguisse impor tal respeito, mas aconselho a fazerem uma pesquisa na net e vão ver como o homem era e facilmente conseguirão viajar aos anos 90 e ver o Moca em ação nas ruas de Lisboa.

Trabalhámos em conjunto com algumas crianças do bairro do Armador no Projeto Sai da Caixa Armador e chegámos a fazer algumas actividades fora do bairro, como ir ao Museu MAAT, ver a exposição INTERFERÊNCIAS. A sua ligação com as crianças sempre foi genuína e cheia de sabedoria, sempre a puxar pelos mais novos que por ele fazia campeões todos os dias, e estava sempre de olho no próximo Jorge Pina. O Moca fez muitos campeões e muitos são os atletas que o respeitam, admiram e prestam homenagem.

O Moca estava doente e todos sabiam, aliás contava os pormenores da sua doença e até os tratamentos que estava a fazer como um guerreiro conta as suas aventuras nos campos de batalha.ma guerra difícil que parecia correr bem a cada dia que passava, uns dias melhores que os outros.

Fui contactado por uma psicoterapeuta para começar a tratar de questões de saúde mental no bairro e pensei logo no Moca como um dos participantes. O Moca fez a primeira sessão e parecia um homem novo, cheio de vida, cheio de força dizendo que a Rosa era um anjo caído do céu, que veio para o salvar. Todos víamos um novo destino para o Moca. Se a mente está boa, o corpo vai ficar. O sentimento na Academia era de contentamento, pois o nosso recente amigo estava a melhorar em todos os aspectos. Foi aí que pensei que deveria fazer um documentário sobre a vida do Moca ou, pelo menos, ir filmando o seu dia a dia na Academia. Falei com pessoas que trabalham comigo e todos gostaram da ideia. Vamos então filmar! E foi aí que tudo começou a ficar mal. Não querendo entrar em pormenores, mas as coisas não se realizaram como queríamos.

O homem foi, mas ficam muitas memórias e histórias para contar. No bairro do Armador está em exposição, até Dezembro, um contentor com uma instalação artística. No seu interior, está um projeto que fizemos em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian e a Companhia Caótica, com o nome “4 OLHOS”. Fico feliz por ter convidado o Moca para este projeto, em que tem uma cena muito bonita com uma das atletas da Academia Jorge Pina.  Queria ainda acrescentar que, no passado fim de semana, dias 24 e 25 de Setembro, foi feito o primeiro torneio em homenagem ao Moca na Academia Jorge Pina, contando com várias equipas nacionais e internacionais. O Moca não esteve presente porque estava hospitalizado, mas espero que tenha sido informado de que foi um sucesso e que, com toda a certeza, para o ano que vem irá ter uma segunda edição. Espero poder ter o seu filme para poder mostrar que seria, com toda a certeza, um momento bonito.

Descansa em paz “MOCA”

-Sobre Nuno Varela-

Nuno Varela, 36 anos, casado, pai de 2 filhos, criou em 2006 a Hip Hop Sou Eu, que é uma das mais antigas e maiores plataformas de divulgação de Hip Hop em Portugal. Da Hip Hop Sou Eu, nasceram projetos como a Liga Knockout, uma das primeiras ligas de batalhas escritas da lusofonia, a We Deep agência de artistas e criação musical e a Associação GURU que está envolvida em vários projetos sociais no desenvolvimento de skills e competências em jovens de zonas carenciadas. Varela é um jovem empreendedor e autodidata, amante da tecnologia e sempre pronto para causas sociais. Destaca sempre 3 ou 4 projetos, mas está envolvido em mais de 10.

Texto de Nuno Varela
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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