Inaugurou na passada segunda-feira, 10 de maio, uma exposição dedicada ao protesto social. Os objetos pertencem ao arquivo Ephemera, fundado por José Pacheco Pereira há cerca de doze anos, e integram uma coleção que não só tem cartazes de manifestações que aconteceram em Portugal ou no estrangeiro, mas também tem peças do quotidiano que por algum motivo têm um peso político e social. O ISCTE, que já tinha recebido uma exposição sobre “A Propaganda nas Eleições Presidenciais nos EUA”, acolhe agora “Não me calo!”.

Depois de, em 2018, José Pacheco Pereira e Helena Sofia Silva se terem juntado na curadoria de “O que faz falta é agitar a malta”, exposição que decorreu na Porto Design Biennale, em “Não me calo!” faz-se uma seleção mais criteriosa adequada ao espaço expositivo do ISCTE. Segundo José Pacheco Pereira esta é, aliás, “uma pequena parte da coleção de Cartazes Artesanais”, “feitos pelas pessoas para manifestações e que, pelas suas características, são únicos”. Nesta exposição que coordenou em parceria com Luísa Tiago de Oliveira, docente do ISCTE, existem sobretudo três grandes temas: “o movimento de reivindicação política, salarial, de condições de vida, de dignidade das pessoas com mais necessidades, associado à Troika e ao governo Passos Coelho- Paulo Portas”, “as questões ambientais e ecológicas, a ideia de que não há planeta B” e “os movimentos feministas e LGBT”. 

“ O que é que as pessoas podem ver olhando para aqueles cartazes? Podem ver imaginação. Nem todos são imaginativos, alguns até são bastante estandardizados, mas há outros cujos slogans têm criatividade na utilização dos materiais, das cores e introduzem novidade. Introduzem novas vozes e novas visões na reflexão social”, adianta Pacheco Pereira ao Gerador. Essa diversidade, deixa claro, “também se reflete na questão etária”: “há ali cartazes que percebemos que são feitos por jovens e cartazes que são feitos por pessoas mais velhas. E isso também mostra a pluralidade das vozes que se manifestaram, nos últimos 20 anos, que é o tempo essencialmente coberto pela exposição.” 

O objetivo “mais genérico da exposição” é, como se podia quase adivinhar, mas Pacheco Pereira faz questão de deixar claro, “preservar a nossa memória coletiva”. Através dos cartazes que eventualmente teriam ido para o lixo, caso um voluntário não os decidisse doar ao arquivo Ephemera, podemos fazer leituras dos tempos, traçar padrões e olhar aos grandes acontecimentos dos últimos anos. Mas a ideia não é que fiquemos presos a esse passado. “Nós só vivemos no presente. O passado é relevante, mas o passado é o presente de ontem. Nós vivemos a memória do passado, mas vivemos sempre no presente”, relembra Pacheco Pereira. 

Quando nos encontrámos no Barreiro com José Pacheco Pereira, num tempo em que ainda não se usavam máscaras e nos podíamos cruzar com os objetos e os rostos dos voluntários do arquivo, o historiador lembrou-nos a célebre frase de Leslie Poles Hartley: “O passado é um país estrangeiro: lá faziam-se as coisas de forma diferente”. Há no arquivo Ephemera e no discurso de Pacheco Pereira uma preocupação em não cristalizar o passado e uma vontade de o olhar como um tempo que permanece vivo, mesmo que tudo se pudesse fazer de forma diferente. Com os cartazes que agora volta a reunir em exposição, convoca os passados que estão ainda tão presentes, os temas que não são de hoje mas estão na ordem do dia. 

E por muito que uma manifestação seja um evento coletivo, há um certo peso nas motivações pessoais de cada um(a) que se junta ao grupo. A heterogeneidade de vozes que se encontram identifica-se em detalhes como “a utilização da língua” que, segundo Pacheco Pereira, é um dos principais detalhes que nos permitem ver a “diferenciação etária”. “Há muitos cartazes hoje particularmente de manifestações ambientais, manifestações feministas, manifestações que envolvem causas em que os mais jovens participam de uma forma muito significativa, onde se utilizam slogans que são internacionais”, contextualiza. Servem de exemplo frases como “There’s No Planet B [Não Há Planeta B]” ou “My Body, My Choices [O Meu Corpo, As Minhas Escolhas]. 

Há um momento com muita força no momento que hoje conseguimos apenas imaginar, assim que nos deparamos com estes cartazes: a sua preparação. “Alguém, em casa, ou antes de começar uma manifestação, com os seus amigos ou isoladamente, com a família e às vezes com crianças — no caso de famílias que vão com filhos às manifestações —, pega num cartão, num pedaço muito rudimentar de uma caixa ou de uma placa de esferovite, e escreve lá o que quiser. Não se cala e vai lá dizer o que lhe apetece. Isso faz com que estes cartazes estejam à margem do discurso político e sindical estandardizado.” 

Entre os cerca de 100 cartazes que integram “Não me calo!” encontra-se o que Irene Martín levou à manifestação do 1º de maio, no qual se lê “Farta até à cona de gerar a mais-valia dos homens. Trabalho reprodutivo sustenta o capital”. E, de acordo com Pacheco Pereira, esta não é a única peça que simbolicamente lembra questões associadas ao feminismo e à luta contra o patriarcado: “nesta exposição, está um avental com uma frase que levanta uma questão relevante das greves feministas que é ‘quem é que faz o trabalho doméstico e por que razão hão-de ser sempre as mulheres a fazê-lo?’ ”. “Essa frase, chamemos-lhe assim, está inscrita naquilo que, de alguma maneira, personifica o trabalho doméstico das mulheres, que é o avental”. 

A efemeridade também cabe no museu

No texto que acompanha a exposição, José Pacheco Pereira recorda o impacto que a coleção Rapid Response Collecting, que o museu britânico Victoria&Albert iniciou no ano de 2014, teve para a organização desta coleção. Nas suas palavras, ajudou a “perceber que alguns objectos triviais são tocados pela história”. 

No Victoria & Albert, a coleção foi apresentada inicialmente “ de uma forma marginal, numa passagem, como se não tivesse a dignidade dos cristais de Lalique ou das tapeçarias de William Morris”. Entre esses objetos “tocados pela história” estão “uns sapatos Louboutin, os computadores do The Guardian destruídos à marretada por lá terem estado os documentos de Snowden (um gesto puramente simbólico, porque eles já estavam em todo o lado), ou umas calças de ganga feitas numa fábrica oriental de salários de miséria, que ardeu matando muitos operários”.

“Nós temos o prego usado no referendo de Timor para furar o boletim de voto, uma lâmpada de mineiro asturiano oferecida por mineiros (percebe-se como é pesada), os carimbos usados para fazer falsificações de passaportes de activistas exilados, e, como no Victoria & Albert, um pussyhat”, refere Pacheco Pereira no mesmo texto.

A vantagem de “Não me Calo!” é precisamente ir a “objetos absolutamente do quotidiano para, de alguma maneira, fazer entrar no museu não necessariamente aquilo que já está no no museu, que são objetos mais nobres, de produção artística, pinturas consagradas, objetos consagrados mesmo na história do design”. “O que faz é pegar nos objetos comuns que foram tocados pela história. Nós temos muitos desses objetos, por exemplo um par de sapatos. As pessoas olham para um par de sapatos comuns, sendo que não são nenhuns sapatos de um célebre designer ou costureiro, nem nada que se pareça, só têm um pequeno aspecto: no interior está uma serra. Não se vê do lado de fora, mas está lá. Foram feitos antes do 25 de abril para que os militantes, quando fossem presos, já levassem uma serra para poder, eventualmente, serrar as grades da cadeia. É um objeto comum, mas de resistência — mesmo nas piores condições de cadeia.”

É um dos “cartazes mais humildes da coleção” que dá nome à exposição. “É humilde no seu tamanho e expressão, não tem nenhuma qualidade gráfica especial, mas diz tudo o que há a dizer numa só palavra de ordem”, escreve Pacheco Pereira no comunicado de imprensa. “Não sei quem o fez, mas quem o levou a uma manifestação percebia que falar ou estar calado faz uma diferença gigantesca quando se quer protestar.” 

No debate que decorreu no dia da inauguração, que juntou Fernando Rosas, Maria João Vaz, Luísa Tiago de Oliveira e Guya Accomero, foi dessa diferença que existe no protesto que se falou. Com o título “Protesto Social na História”, questionou-se como a forma de protestar foi evoluindo, os temas que eram recorrentes — alguns dos quais que ainda se mantêm — e fez-se uma espécie de balanço de 200 anos de protesto. “No caso português, esses 200 anos têm um período de 48 anos de ditadura. E qualquer protesto, por mais incipiente que possa parecer hoje, por politizado que possa parecer hoje, era imediatamente reprimido e transformado num ato subversivo”, diz Pacheco Pereira ao Gerador. 

É para celebrar o protesto e relembrar o seu peso e valor que “Não me calo!” reúne vozes individuais que se manifestam em uníssono. A exposição fica patente até 30 de junho no Espaço Exposições do Edifício II do ISCTE, e pode ser visitada  entre as 10h00 e as 18h00 de segunda a sexta-feira. 

Texto de Carolina Franco
Fotografias da cortesia da organização da exposição

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