Como em qualquer estudo que se faça atualmente sobre a sociedade contemporânea, designadamente no campo da cultura, os jovens são uma parcela fundamental dessa análise. No estudo Barómetro Gerador Qmetrics (que podes consultar aqui), 75,1 % dos jovens com idades compreendidas entre os 15 e os 19 anos sentem que a cultura está mais orientada para as restantes gerações, sendo que, dos 20 aos 24 anos, esse número sobe para cerca de 80 %.

Estando os jovens de hoje, decisores de amanhã, numa fase fulcral da sua vida — de formação de gosto, de espírito crítico, de conhecimento de mundo — torna-se elementar olhar para o papel que estes pensam ocupar no palco da cultura.

Na reportagem “Formar cidadãos, formar públicos: que caminho(s) para a cultura em Portugal?”, publicada no número 26 da Revista Gerador, ficaram patentes os desafios de se programar cultura, tendo especial atenção os públicos a que esta se dirige. De todos os intervenientes, foi igualmente destacada a importância das novas gerações na ancoragem dessa programação. Partindo desse olhar jovem, recuperámos então a perspetiva das entidades cruzando-a com a voz de alguns jovens para se perceber de que forma é que este público está a influenciar as práticas culturais instituídas. 

Do berço para o quotidiano: a cultura como parte do ADN

 “De que forma é que estamos a passar a nossa cultura aos nossos filhos? Até que ponto é que as opções que vamos fazendo determinam a forma como as pessoas do amanhã vão olhar para a cultura?” — é deste questionamento que parte Carla Chambel, atriz, ao falar da forma como os portugueses olham para a sua cultura. Para Carla, parte dessa cultura “é transmitida desde o berço, de como se começa”, fator a que se junta a estimulação por parte das escolas.

Nesta linha de pensamento, também Filipa Fróis de Almeida, arquiteta, destaca o caminho a percorrer por parte do sistema educativo e a necessidade de “melhorar alguns aspetos no sentido de despertar a curiosidade nos mais novos”.

Muito embora parte desta responsabilidade de que falam Carla e Filipa esteja na educação em casa e nas escolas, são cada vez mais as instituições culturais que se querem juntar à construção desta narrativa.

Assim, há hoje exemplos claros de programação cultural dedicada, em parte, aos mais novos – como é o caso do Boca Aberta do Teatro Nacional D. Maria II, do Indie Junior e do Curtinhas, secção de curtas de animação do Festival de Curtas de Vila do Conde, ou do Big Bang, um festival de música para crianças no Centro Cultural de Belém –, mas também de espaços que vivem dessa relação, como é o caso do LU.CA – Teatro Luís de Camões.

Ainda que exista cada vez mais oferta por parte de instituições ou festivais centrada nos jovens, a “cultura de berço” e os estímulos externos que vão recebendo ao longo da sua formação ocupam um papel preponderante na predisposição para a fruição cultural. E há quem acredite que o caminho que se está a traçar atualmente é positivo.

Uma geração que procura um papel ativo na cultura

Para os diversos intervenientes da reportagem “Formar cidadãos, formar públicos: que caminho(s) para a cultura em Portugal?” ecoa a esperança sobre uma maior valorização da cultura por parte dos mais jovens. Fernando Sampaio, programador do Centro Cultural de Belém (CCB), destaca que “há uma nova geração interessada, com vontade de diversificar o seu conhecimento nas diferentes áreas performativas. É gente nova, urbana, que tem uma vivência da cidade influenciada pela sua vivência cultural”.

O mesmo é sentido por Cláudia Belchior, presidente do conselho de administração do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II), que realça que “há imensos jovens a ver espetáculos de teatro”, o que associa ao trabalho de desconstrução feito a partir dos anos 90, no sentido de “tirar a ideia de que o teatro é para elites”.

No caso do TNDM II, não importam apenas os jovens que fazem número na plateia, mas também aqueles que hoje trabalham nas áreas da cultura. É neste sentido que, realça Cláudia Belchior, “todos os anos se faz uma audição em que o TNDM II recebe recém-licenciados” para lá trabalharem.

Tiago Guedes, diretor do Teatro Municipal do Porto – Rivoli e Campo Alegre, vai mais longe, referindo a quantidade de jovens que já se encontram hoje na direção de espaços e festivais culturais.

Esta nova geração de que fala Tiago Guedes é também referida por Jorge Barreto Xavier, professor universitário, que vê “uma maior apetência das novas gerações em fazer cultura”. No perfil das mesmas, o sociólogo aponta uma relação entre assuntos da ordem do dia (como as alterações climáticas ou a sustentabilidade) e a forma de programar cultura, que também estão a mudar.

“Há uma conexão grande destas questões com a questão cultural, como a proteção do património, e com aquilo que é o complexo de bens que essa geração pode receber no futuro e que as anteriores têm destruído”, sublinha.

Que esperança ecoa na voz dos jovens?

Se por parte das instituições a expectativa é positiva, as opiniões entre os jovens não são unânimes. Falámos com cinco jovens naturais de diferentes pontos do país para perceber se estes se sentem representados na programação cultural, que áreas acham que estão mais direcionadas para a sua geração e se vêm no país um motor de incentivo, tanto para a fruição como para a criação.

Vasco Completo (23 anos, Lisboa), Ricardo Leitão (22 anos, Marco de Canaveses), Margarida Adão (24 anos, Campo de Besteiros), Fábio Lopes (24 anos, Lisboa) e Ana Dinis (22 anos, Baião) não representam a totalidade da sua geração nem a multiplicidade de realidades do país, mas acrescentam leituras que certamente se aproximam à de muitos.

“Nos últimos anos, sinto que a agenda cultural portuguesa se multiplicou e, consequentemente, diversificou. Acredito que hoje a oferta começa a atender os desejos de diferentes gerações e grupos de interesse. É com algum orgulho e alívio que vejo a ‘vida’ cultural que me rodeia renovar-se, garantindo que o papel da cultura na nossa sociedade é cada vez menos agredido”, confessa Ricardo, que sem grandes dúvidas afirma rever-se na programação cultural da zona norte.

Ana Dinis, natural de Baião mas a residir em Barcelos, sente “uma grande diferença” entre as duas realidades. “[Em Barcelos] Há programação cultural regular, de todos os tipos e gostos”, realça.

Também Fábio elogia o avanço que tem sentido nos últimos tempos, destacando os promotores “que têm ganhado noção do que é que a geração YXZ está a consumir” e, por isso, “vão tentando criar mais eventos” onde se consegue inserir. Ainda assim nota que ainda há “algum receio de arriscar no que é novo, acabam por se tornar repetitivos e convidar os mesmos de sempre”.

É nesta lógica que Vasco não se sente representado. Destaca a quantidade de eventos que nem sempre refletem a diversidade existente. Enquanto jovem músico tem sentido que “por vezes é difícil arranjar espaços que queiram acolher novos projetos ou apresentar novos trabalhos”. Já Margarida, conhecida na cena musical como b-mywingz, também admite que “ainda existem algumas dificuldades para se criar um nome ou conseguir manter o mesmo e fazê-lo crescer no meio”, mas não deixa de sublinhar que “cada vez mais têm existido oportunidades para os jovens artistas furarem a indústria e o mercado” e que vê “muito mais jovens artistas representados na programação musical”.

A música é, na verdade, a área cultural em que estes jovens se sentem mais representados — tanto no centro e no norte. “Barcelos tem uma ‘bolha musical’ muito especial”, explica Ana, “é uma cidade onde estão sempre a surgir novas bandas e onde há malta dinâmica que organiza concertos/festivais”. Se no Verão há o Souto Rock, o Jazz ao Largo e o Milhões de Festa (que este ano não irá acontecer), nas restantes estações do ano a programação também é regular e assinada pelo triciclo ou pela Macho Alfa. “Sem esquecer do mítico e mais apreciado sítio para assistir concertos de rock — o CCOB”, acrescenta.

“Aquela que acaba por ser a tipologia de programação mais directamente voltada para a nossa geração, é a do festival de música, e mesmo assim não penso que possa ser visto de maneira assim segmentada”, refere Vasco, que não sente que haja “programação verdadeiramente “restrita” à nossa geração”, embora “possamos estar mais abertos a consumir determinados estilos ou formas de expressão artística nesta fase da vida”.

Sobre a música acompanhar gerações e compor diferentes bandas sonoras das vidas de jovens não restam grandes dúvidas. Talvez por isso Fábio, que atualmente dirige a jamm – uma revista exclusivamente dedicada à música – se tenha dedicado de corpo e alma a esta área. “Eu vivo para a música: o meu trabalho está diretamente relacionado com música, e o meu tempo livre é gasto a consumir música”, conta.

É nos incentivos dados pelo país que as opiniões mais convergem. Se, por um lado, Ricardo sente que “o país dá incentivos, ainda que não sejam suficientes”, Vasco afirma que “os apoios são muito poucos e grande parte dos concursos ou festivais que ocorrem limitam-se a dar a carta da “exposição”. Vai mais longe dizendo que existem “casos de entidades que podem beneficiar de eventos/produções sem pagar aos artistas (principalmente quando estão a começar), exatamente pela falta de apoios. Por outro lado, há muitos outros programadores que têm a possibilidade de pagar e não o fazem. Além disso, todos os custos da típica protecção de direitos de autor mantêm-se fora de mão para alguns artistas — aqui possivelmente referindo o caso mais específico da música”, cenário que pode mudar com Creative Commons, “mas é um controlo diferente”.

Para a Ana, não faz sentido “ver o país como um todo”. Relembra quão diferentes são as oportunidades de um habitante de Baião e de outro de Lisboa, que têm realidades bastante diferentes e que parte dessa falta de acesso se deve à falta de iniciativas e à inexistência de programação. Mas Ricardo acredita que a mudança está para vir. “Acredito que a minha geração vai exigir cada vez mais apoio e iniciativas no âmbito cultural como resposta a uma satisfação de necessidades”, afirma assertivamente.

Com a sua experiência, Fábio tem sentido que o “lado mais conservador” do país “sobressai na área da cultura”. Com isto quer dizer que “tudo o que é cultura é visto como lazer e se é “lazer”, não é “trabalho”. Se nos divertirmos a fazer é porque não é um trabalho a sério. Uma mentalidade superinjusta para os artistas do nosso país”. Mas, tal como Ricardo, não perde a esperança: “Espero que no futuro, quando formos [a nossa geração] os “donos da nação”, passemos uma ideia diferente e incentivemos os nossos mais novinhos a criar e a consumir cultura.”

 

A reportagem “Formar cidadãos, formar públicos: que caminho(s) para a cultura em Portugal?”, de onde parte este artigo, encontra-se na Revista Gerador 26, que podes comprar aqui.

Texto de Carolina Franco e Ricardo Ramos Gonçalves

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