Cairo Braga fez a sua viagem do Brasil para Portugal há um ano e quatro meses. Por cá, os dias ainda eram comprimidos e o calor que podia sentir no corpo ainda não lembrava que seria um Natal diferente. E um Carnaval também. “Nunca tinha pensado em como o clima influencia a maneira como vivemos estas festas nos dois países, e isso causou-me muita impressão, mesmo”, partilha Cairo. O que sente mais falta do Brasil, “culturalmente”, é “o facto de ser Verão por lá no Natal, Ano Novo e Carnaval”. 

Cairo, para quem a música é grande parte da sua vida, mudou-se para Portugal “basicamente fugindo do Brasil de Bolsonaro depois de ter sofrido uma tentativa de homicídio homofóbica”, mas partilha que “a vontade de sair do Brasil para tentar viver melhor já existia desde a adolescência”. No primeiro Natal que passou por cá, juntou-se a uma família portuguesa — “uma experiência maravilhosa e importante para que eu me sentisse acolhida por cá”, conta. Aí também percebeu que “as tradições não são muito diferentes em relação à reunião de pessoas em volta da mesa”, e que “a diferença fica mesmo por conta do que está em cima desta mesa: as comidas, os doces, as bebidas”. Ainda assim, há um ponto em comum: o bacalhau. E para si, esteja onde estiver, Natal é sinónimo de panetone. 

Tal como Cairo sempre se quis mudar, a ucraniana Юліанна Гах já sabia, há pelo menos quatro anos, que Portugal era onde queria ficar — sobretudo no Porto. Veio para cá durante seis meses no contexto do programa Erasmus+, em 2016, e “apaixonou-se por Portugal”: “com as pessoas, a natureza, o estilo de vida, o tempo (era uma boa estação), a comida (ganhei 12 kg extra em 6 meses) e, claro, o mar.” No ano seguinte, voltou a fazer Erasmus e escolheu novamente Portugal. 

A segunda experiência de Erasmus de Юліанна levou-a a conhecer o Porto (que sublinha ser o seu “amor”) em dias mais cinzentos, com muita chuva. Não foi “tão entusiasmante”, mas acabou por “ser acolhedor”. Em 2019, quando estava à procura de um estágio algures entre Espanha ou Itália, porque queria “experienciar outra cultura”, o destino trouxe-a de volta para o Porto. “Encontrei o trabalho ideal numa empresa interessante e decidi voltar, desta vez por três meses.”

A história de Юліанна Гах com Portugal poderia ficar por aqui — até porque nestes intervalos viveu durante quase um ano nos Estados Unidos da América, dois anos na Polónia, quatro meses na Turquia e passou temporadas nuns quantos outros países, mas “nenhum outro lugar ficava no [meu] coração como o Porto e Portugal”. Quando surgiu a oportunidade de fazer um estágio ao abrigo do programa Erasmus, durante dois meses, escolheu… o Porto. A pandemia não a deixou voltar a ir embora e tudo se alinhou para que conseguisse um emprego no lugar do estágio e começasse a sua vida aqui. 

Ao contrário de Cairo, as tradições natalícias de Юліанна praticamente nada têm que ver com as portuguesas. Depois da “Ceia Sagrada”, também se festeja o Dia de Natal, mas os presentes trocam-se no Dia de São Nicolau, a 19 de dezembro. “Temos um jantar em que comemos carne com 12 pratos especiais — que simbolizam os 12 apóstolos — porque a festa acabou, cantamos Cânticos de Natal, vamos de casa em casa ver os nossos amigos e familiares, e comemos muito!”, partilha.
Além destas tradições, Юліанна explica que, por norma, tem “um pinheiro de Natal, que costuma ser verdadeiro, e que é mantido até ao início de fevereiro”. Durante este período festivo têm “outras datas importantes” que celebram, mas deixa claro que, “ultimamente, o Natal é uma época para a família e os amigos se reunirem”. “É muito bonito que todos partilhemos as nossas ‘tradições’ e que todos celebrem o Natal à sua maneira especial. 

Tanto Cairo como Юліанна conseguem dizer facilmente o que mais gostam em Portugal. “A coisa que mais gosto culturalmente tem muito que ver com o pouco tempo que tenho por cá: descoberta de coisas totalmente novas para mim em todos os aspectos. Também me interessa muito traçar os paralelos e tentar perceber estas trocas e influências transatlânticas, tanto na cultura do dia a dia, quanto nas artes e tradições”, diz Cairo. Já Юліанна aponta “o estilo de vida”. “As pessoas portuguesas são as mais queridas e generosas que conheço; mesmo que não sejas o maior ou o mais rico, vais estar sempre pronto para ajudar. Desde que saibas como manter a calma. A cultura ucraniana é muito mais fria e rígida (ainda é difícil para mim dar dois beijinhos quando cumprimento alguém). Estar cá parece-me viver umas férias sem fim, ainda que com burocracia”, partilha com o Gerador

O que atraiu Linda Davis, britânica, a mudar-se para o Algarve foi também “o clima, as pessoas e o estilo de vida”. Neste momento, por causa do Brexit, Linda e o marido, Andrew, sentem que “tudo é um pouco incerto”. “Viajámos por 13 anos e no período de inverno íamos ficar em Portugal. As pessoas fizeram-nos sentir tão bem acolhidos que decidimos mudar-nos definitivamente para o Algarve”.  

“No nosso primeiro Natal em Portugal, estávamos no Alvor e procurámos a vila inteira por um restaurante aberto, porque vamos sempre jantar fora. Eram cerca de oito da noite e o único restaurante aberto fechava às nove… Por isso não voltamos a repetir”, conta em tom de brincadeira. “Agora, a nossa família junta-se no dia da véspera de Natal em casa e não abrimos os presentes até à manhã seguinte. No dia 25, fazemos a nossa refeição habitual com peru e vegetais, e pudim de Natal”. 

Se podia parecer imprevisível que a meteorologia fosse um fator comentado por Юліанна, a ucraniana relembra que, ao contrário do que acontece no seu país de origem, cá “as casas não têm um sistema de aquecimento”. É por isso que quando partilha com alguém que está com frio e lhe respondem, “mas és ucraniana”, recorda que mesmo “quando estão vinte graus negativos na rua e neve a cair sem parar, os lugares fechados estão a vinte e quatro graus positivos e o Inverno é passado em calções”. 

Юліанна, que sente a falta da família, partilha que nunca se sentiu alvo de preconceito por ser ucraniana ou imigrante em Portugal. “Ouço muitas histórias sobre brasileiros serem pressionados cá, mas parece-me que os ucranianos são mais facilmente aceites”, conta, ainda que a experiência de alguns amigos também ucranianos seja diferente: “há muitas histórias diferentes; eu tenho muitos amigos ucranianos que se mudaram para o Porto quando eram adolescentes… eles contam que foi muito difícil e que, por vezes, até sofreram de bullying, mas eu nunca o experienciei”. 

Cairo é um desses casos — ainda que “apenas em contexto de trabalho, tanto como empregada na restauração, quanto em call center”. “Nos restaurantes acontece de maneira mais perniciosa e casual, pois as pessoas tão ali, frente a frente, mas no call center os racistas e xenófobos revelam-se, literalmente aos gritos, à menor inconveniência, é impressionante, e tragicómico”, desabafa. 

Cairo, Юліанна e Linda são os protagonistas de três histórias muito diferentes entre si, tendo vivências em Portugal também elas plurais. Por muito que possam sentir a falta do seu país Natal, encontraram em Portugal — no Porto, em Lisboa e no Alvor — uma casa. E, pelo menos por agora, é lá que querem ficar — para passar o Natal e viver a vida de todos os dias. 

Este é o terceiro e último artigo de uma semana temática dedicada à emigração, que parte da reportagem “Depois de agosto, a saudade — Ir à terra e encontrar pedaços de identidade”, publicada na Revista Gerador 32. Podes consultar o primeiro artigo aqui, e o segundo aqui
Texto de Carolina Franco

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