Em 2027, Portugal irá acolher uma das duas Capitais Europeias da Cultura eleitas para esse ano, juntamente com a Letónia. O desígnio tem ganho relevância ao longo dos anos, provando o papel inequivocável que a cultura pode ter no desenvolvimento de uma cidade e na região onde esta se insere. Não é por isso estranho que haja já mais de uma dezena de cidades portuguesas candidatas, número esse que aumentou na passada semana, com a entrada em cena de Ponta Delgada, no arquipélago dos Açores.

A 5 de fevereiro, o município da ilha de São Miguel anunciou a sua candidatura, em parceria com Angra do Heroísmo e Horta, numa proposta que pretende envolver todos os municípios do arquipélago.  A intenção - avançaram em comunicado - é o de “envolver todas as ilhas dos Açores e os seus 19 municípios, com o objetivo de promover e projetar na Europa a diversidade e a riqueza cultural açoriana e reafirmar a cultura, a partir da periferia do espaço europeu, como instrumento decisivo para o desenvolvimento, a sustentabilidade ambiental, a cooperação e o diálogo entre os povos”.

Paralelamente, foi também divulgado um manifesto, subscrito por mais de 100 pessoas, numa missiva enviada ao presidente do Governo Regional, José Manuel Bolieiro e às presidentes da Câmara Municipal de Ponta Delgada, Maria José Lemos Duarte, e da Associação de Municípios da Região Autónoma dos Açores, Cristina Calisto. Desmontando o carácter mais institucional deste tipo de candidaturas, o setor cultural - e não só - açoriano, sob a forma de movimento cívico e informal, demonstrou, desde logo, o seu apoio à candidatura, que deve materializar um pensamento em rede e de união entre municípios.

Logótipo do movimento que tornou público o seu manifesto no dia 4 de fevereiro

“Imaginar um projeto desta escala e dimensão a partir dos Açores, não só reforça a diversidade da cultura europeia, o sentimento de pertença, a autoestima e o entusiasmo relativo a um espaço cultural comum, como também mobiliza a cultura como elemento transformador e regenerador das esferas económica e social de uma região. É uma oportunidade de reforço da cooperação local e da projeção nacional e internacional dos Açores como destino e território de experimentação, sinergia, encontro e cruzamentos culturais”, pode ler-se.

Entre as personalidades que aparecem no manifesto está Jesse James, curador e programador do festival de arte dos Açores Walk&Talk, que organiza juntamente com a programadora e mediadora cultural Sofia Carolina Botelho. Ao Gerador, o programador, nascido no Canadá, explica que “faz todo o sentido que a região dos Açores e que cidade de Ponta Delgada sejam candidatas ao desígnio de Capital Europeia da Cultura 2027”, uma vez o arquipélago tem conseguido, ao longo dos anos, “posicionar-se no panorama nacional em termos de criação, não só através dos festivais que se tornaram muito visíveis e presentes nas dinâmicas da produção artística e da circulação, mas também por uma série de  artistas e espaços culturais, que moldaram a visão sobre este lugar e o discurso que o mesmo pode gerar, nomeadamente sobre os limites da Europa e de uma relação do continente com a América do Norte, mas também com a América do Sul e África”.

“Nessa ideia de percebermos como é que se estende essa diáspora que é açoriana, mas que acaba por representar uma diáspora europeia, compreendendo que não se trata de um limite, mas sim um ponto de expansão”, realça Jesse, acrescentando que a ideia tinha tido eco pela primeira em 2014, durante o Walk&Talk, quando convidaram Carlos Martins, que foi Diretor Executivo da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura para uma masterclass

“Nessa palestra, ele termina com uma imagem que dizia «e se Ponta Delgada fosse Capital Europeia da Cultura 2027?» Isso em 2014 ainda era uma coisa muito distante, afinal estávamos a 13 anos dessa possibilidade, mas a verdade é que gerou todo um buzz. Estávamos na iminência de liberalizar o espaço aéreo nos Açores, com maiores fluxos turísticos, o Walk&Talk estava na sua quarta edição mas já estava a mostrar que era possível pensarmos outras centralidades para a cultura a partir deste contexto, desta região, da insularidade; e, acima de tudo, que isto não era propriamente um problema mas sim uma realidade e um fator que nós teríamos de aprender a trabalhar e a perceber como é que se podia potenciar”, sustenta.  

Jesse explica-nos que, mais do que a possibilidade de obterem esse desígnio, o que está em causa são as sinergias que a candidatura pode gerar nos próximos anos, não só nas atividades e propostas que se desenvolverem, mas também pelo pensamento que pode provocar nas pessoas. É também dessa forma que Gina Ávila Macedo, profissional de Comunicação, da ilha do Pico, perspetiva a candidatura. “É a viagem que importa. Este processo de se pensar, e também dos cidadãos terem alguma coisa a dizer. A cultura não deve ser pensada exclusivamente pelas entidades que têm esses pelouros. Portanto, haver este debate público e trazermos a cultura para fóruns da discussão é o que se pretende com este movimento”, salienta.

A partir deste grupo informal, Gina acredita que se pode assegurar um maior auscultamento da candidatura, criando laços que podem ser importantes para os diferentes setores. “Apesar de isto ser uma candidatura de Ponta Delgada envolve também outras cidades da região. Portanto, deve-se pensar na cultura como uma forma de pensar e desenvolver o território. Ponta Delgada será o mote impulsionador, mas a ideia é que exista uma envolvência em rede. O que me fez ligar este movimento foi de facto este convite para tentar perceber o que é que isto pode constituir como uma mais valia para a região, não sendo somente uma candidatura institucional da Câmara Municipal. Há este apoio informal de cidadãos, com backgrounds bastante diferente, mas que veem aqui uma oportunidade de pensar a cultura, sobre o que já se fez e aquilo que se pode fazer até 2027”, completa. 

Recorde-se que Portugal lançou, no final de novembro, o convite para as cidades se candidatarem a Capital Europeia da Cultura em 2027, segundo publicação de um aviso em Diário da República que formalizou a abertura do processo. As candidaturas estão abertas até ao dia 23 de novembro de 2021. A verba disponível para a Capital Europeia da Cultura 2027, à qual dez cidades portuguesas já manifestaram intenção de se candidatar, é de 25 de milhões de euros, anunciou em outubro o Ministério da Cultura.

A viver em Lisboa, mas açoriano de origem, o jornalista Wilson Ledo, outro dos assinantes do manifesto, acredita que mesmo num “território descontinuado, é através desses elementos partilhados que se constrói a identidade de um povo”. “Num contexto como o atual, é essencial colocar a Cultura ao serviço desse sentimento de pertença - mas sem esquecer a necessidade de abrir o arquipélago a novas realidades, que só o enriquecem”, sublinha.

Foi também por isso que, desde logo, se associou ao movimento. Ainda que distante, devido à sua situação profissional, conta-nos que sempre existiu a vontade de poder vir a desenvolver projetos no arquipélago onde nasceu. “A cada regresso, procuro medir-lhe o pulso, estar atento aos projetos que vão surgindo. Juntei-me ao movimento por saber que os Açores têm condições para se afirmarem enquanto território de criação artística, inclusive com equipamentos que podem ser já utilizados nesse sentido. Há espaços e vontade de criar mas nem sempre o incentivo ou o reconhecimento público suficientes para que a Cultura assuma um papel determinante no contexto açoriano. Se juntarmos a força de todos os que acreditam nisso, talvez algo possa mudar”, realça. 

“Somos um movimento que reúne pessoas com experiências pessoais e profissionais muito diferentes, embora tendo a Cultura como ponto comum. É essa experiência interseccional, de terreno, de cruzamento de realidades, que deve ser ouvida para consolidar uma candidatura da região. Até porque quem decide não deve cair na tentação de uma certa 'política do gosto' ou instrumentalização da arte – deve antes deixar-se envolver por esse espírito de diversidade e complementaridade. A nossa meta é comum: afirmar culturalmente a região, envolvendo as populações e abrindo novas linhas de pensamento”, acrescenta ainda no seu testemunho.

A partir deste movimento cívico surgiu, igualmente, uma petição online com o objetivo de juntar mais pessoas ao debate em torno desta candidatura. Carlos Alberto Machado, escritor e editor, foi desde logo assinante da mesma. Ao Gerador, o responsável pela editora Companhia das Ilhas, diz esperar que o movimento “possa contribuir para melhorar e dar força (tão necessária) à candidatura açoriana. Uma coisa é o poder político, outra bem diferente (e melhor) é o das pessoas e coletivos que trabalham (duro) no terreno e que têm uma perspetiva dinâmica da cultura”.

De “forma enriquecedora”, ligando o que de “melhor tem alguma tradição e as novas práticas e necessidades culturais”, o escritor espera que “o poder político abra desde já um debate sério e alargado sobre esta iniciativa. E que, por arrastamento, se debata, com a serenidade necessária, o tanto que está por se fazer nos Açores”, complementa.

Além de Ponta Delgada, anunciaram até ao momento candidaturas as cidades de Aveiro, Braga, Coimbra, Évora, Faro, Funchal, Leiria, Guarda, Oeiras e Viana do Castelo. Segundo o Ministério da Cultura, “a escolha da cidade vencedora será feita por um júri composto por dez peritos independentes, nomeados por instituições europeias, e para o qual Portugal escolherá dois elementos entre janeiro e junho [de 2021]”. A vencedora será anunciada em 2023. No passado, Portugal recebeu o título de Capital Europeia da Cultura três vezes, pela cidade de Lisboa, em 1994, do Porto, em 2001, e de Guimarães, em 2012.

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de capa de Svetlana Shemetiuk via Pexels

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