Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

OS SENTIDOS DA MÚSICA #13

Nos Sentidos da Música de hoje estivemos à conversa com o Pedro Lucas, dos Medeiros/Lucas. Para…

Texto de Margarida Marques

Apoia o Gerador na construção de uma sociedade mais criativa, crítica e participativa. Descobre aqui como.

Nos Sentidos da Música de hoje estivemos à conversa com o Pedro Lucas, dos Medeiros/Lucas.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Isto é capaz de ser o que se pode chamar uma milion dollar question. Tentando ser simples, e pegando numa ideia que li noutro lado qualquer, acho que a razão é uma ferramenta muito importante para organizar/disciplinar o que podem ser chamados de impulsos mais emocionais de uma expressão que é mais plástica ou estética como a música. No meu caso específico acabo por trabalhar muitas vezes com coisas que surgem primeiro no plano das ideias e que depois me ajudam a balizar o que surge mais naturalmente quando estou a tocar guitarra ou a tentar criar uma melodia para um texto.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

As boas. O corpo mexe sempre, quer sejam convulsões interiores ou a anca a abanar.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

A resposta poderia ser semelhante à da pergunta anterior mas já agora aprofundo. Eu vejo a recepção de qualquer estímulo estético como um processo bastante holístico. Música mais rítmica vai apelar-me mais ao corpo e mais contemplativa apelar-me-à mais a esses estados de espírito, mas tanto um aspecto como um outro estarão sempre envolvidos em qualquer audição. O ritmo também cria estados de alma, e uma balada da Nina Simone de certeza que me abana o esqueleto.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Pois, isso é uma discussão com séculos e já escreveram sobre isso gente bastante mais capaz que eu. Alguns filósofos (não vou nomear para não me enganar) achavam que a música era arte por excelência exactamente por esse aspecto “não material”, enquanto outros achavam-na uma arte extremamente deceptiva (e por isso menor) porque nos fazia sentir coisas que não estávamos a sentir nem tínhamos de sentir. A música é certamente capaz de disparar uma catadupa de reacções emocionais que nós não estaríamos propriamente à espera, de despertar memórias, e isso pode-se passar a muitos níveis da consciência – sejam coisas mais conretas ou sentimentos mais vagos. Mas a "não-materialidade" não é propriedade exclusiva da música. A poesia oral também é "invisível" e acho que será eventualmente ainda mais interessante nessa interacção com a consciência: pela forma como as palavras não só têm uma expressão plástica, como ainda trazem muitos conceitos (subjectivos) associados que são capazes de disparar um grande número de reacções mentais e emocionais.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sim, bastantes vezes. A forma mais básica de isto acontecer pode ser quando se faz música para cinema ou imagens. Mais concretamente no meu processo, como disse antes, muitas vezes parto de uma ideia que depois tento representar musicalmente – isto sobretudo em música mais instrumental.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Varia bastante mas em termos gerais era capaz de ter várias gradações de cyan e de magenta e representar-se em forma de arco íris ondulares com frequências que variam, às vezes bastante densas outras vezes bastante espaçadas. Vale?

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Salgado como mar é uma boa hipótese. Uma vez no norte da Califórnia visitei um produtor de vinhos naturais que abriu uma das suas garrafas, um syrah já com uns aninhos. Era feito com uvas de uma vinha à beira do Oceano Pacífico e tinha um toque salgado subtil. Era incrível! Agora que perguntaste isso acho que é a coisa de saboreei mais perto da música que me é especial. (o produtor chama-se Kevin Kelly se alguém tiver curiosidade)

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Eu sou bastante mauzinho com esse tipo de memórias, e custaria-me muito hierarquizá-las caso as tivesse. Portanto vou ser mais arbitrário e escolher o cheiro das tangerinas do quintal da minha este Natal passado, que é a memória olfactiva que tenho mais próxima. Uma qualquer balada dos Simon & Garfunkel ia muito bem com aquelas tangerinas, ou melhor ainda a “Cantiga da Terra” do Zeca Medeiros.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Acho, sem dúvida. Duma forma menos poética isso é muito óbvio no que toca a mnemónicas, que tem sempre alguma musicalidade associada. Com mais poesia, creio que muita gente já teve a experiência de ficar com uma certa canção associada a um certo momento ou pessoa, e cada vez que essa canção surge lá surge também a imagem, qual reflexo pavloviano. O Nick Cave invoca essa razão precisamente para nunca ter vendido nenhuma da sua música para publicidade. Ele sentia que estaria a trair todos os fãs que já tinham associado uma das canções com um momento especial e que depois teriam de partilhar essa memória com uma marca qualquer.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes

Foto de Nuno Carvalho

Se este artigo te interessou vale a pena espreitares estes também

27 Março 2026

Graça Saraiva: “Houve uma menorização da política integrada dos recursos hídricos”

27 Março 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

26 Março 2026

Dar uma volta com Vicente Wallenstein

26 Março 2026

Dia 31 de março vem assistir à apresentação do documentário “Ecos de Lisboa”

25 Março 2026

Residências Insubmissas Gerador: dia 17 de abril pensamos o colonialismo em voz alta

24 Março 2026

Um mergulho na Manosfera

23 Março 2026

Natalia Sliwinska: “A perspetiva 3D pode desbloquear certas memórias”

20 Março 2026

Tempos livres. Iniciativas culturais pelo país que vale a pena espreitar

19 Março 2026

FALA: o escritor Nuno Nepomuceno participa no Clube de Leitura “Entre Capas” a 11 de abril em Alcanena

16 Março 2026

Visita até 17 de março a obra “Fetiche”, de Suelen Calonga, no Curva, em Lisboa

Academia: Programa de Pensamento Crítico Gerador

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Imaginação para entender o Futuro

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Desarrumar a escrita: oficina prática [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Financiamento de Estruturas e Projetos Culturais [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo e Crítica Musical [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Jornalismo Literário: Do poder dos factos à beleza narrativa [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Criação e Manutenção de Associações Culturais

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Comunicação Cultural [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Fundos Europeus para as Artes e Cultura I – da Ideia ao Projeto [online]

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Clube de Leitura Anti-Desinformação 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Autor Leitor: um livro escrito com quem lê 

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Oficina Literacia Mediática

Duração: 15h

Formato: Online

30 JANEIRO A 15 FEVEREIRO 2024

Curso Política e Cidadania para a Democracia

Duração: 15h

Formato: Online

Investigações: conhece as nossas principais reportagens, feitas de jornalismo lento

16 fevereiro 2026

Com o patrocínio do governo, a desinformação na Eslováquia está a afetar pessoas, valores e instituições

Ataques a jornalistas, descredibilização da comunicação social independente, propagação de informação falsa, desmantelamento de instituições culturais. A desinformação na Eslováquia está a crescer com o patrocínio dos responsáveis políticos, que trazem para o mainstream as narrativas das margens. Com ataques e mudanças legislativas feitas à medida, agudiza-se a polarização da sociedade que está a prejudicar a democracia e o sentimento europeísta.

17 novembro 2025

A profissão com nome de liberdade

Durante o século XX, as linhas de água de Portugal contavam com o zelo próximo e permanente dos guarda-rios: figuras de autoridade que percorriam diariamente as margens, mediavam conflitos e garantiam a preservação daquele bem comum. A profissão foi extinta em 1995. Nos últimos anos, na tentativa de fazer face aos desafios cada vez mais urgentes pela preservação dos recursos hídricos, têm ressurgido pelo país novos guarda-rios.

Carrinho de compras0
There are no products in the cart!
Continuar na loja
0