Baseado no quadro homónimo de Hieronymus Bosch, o contrabaixista e compositor André Carvalho (vencedor do prémio Carlos Paredes em 2012) acaba de lançar o seu terceiro álbum, The Garden of Earthly Delights, que conta com a participação de artistas internacionais como Jeremy Powell,  Eitan Gofman, Oskar Stenmark, André Matos e Rodrigo Recabarren. Trata-se de suite musical em vários andamentos que serve de guia para a evocação da paisagem, o lado visual que o próprio quadro enceta em si. É uma viagem entre a sonoridade e as artes pictóricas, portanto. Ou seja, uma prova de como estas duas artes se podem imiscuir e complementar.  O álbum foi gravado em Abril de 2018, no The Bunker Studio, em Brooklyn, Nova Iorque, a cidade onde o artista reside. E como toda esta influência entre as  diversas artes tem tudo a ver com os nossos sentidos da música, vamos lá saber o que  André nos tem para contar.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Acho que, por vezes, pode atrapalhar. Para conseguirmos estar, realmente, conectados com o nosso interior de forma a exprimirmos algo íntimo, por vezes temos de acalmar a parte racional. Para atingirmos esse “lugar” em que realmente conseguimos tocar e exprimir de uma forma livre aquilo que ouvimos e sentimos, temos de domar a mente se não somos controlados por expectativas, regras, imposições, medos, etc. No entanto, acho que as duas facções são importantes, indispensáveis e não têm de ser contraditórias. A parte racional ajuda-nos a ser críticos, construtivos, planear e organizar o que queremos fazer. Mas para que as coisas que queremos tocar tenham real significado, sim, julgo que temos de partir sempre da parte emocional.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Há imensa música que me faz mexer o corpo, de estilos muito diferentes. Nasci nos anos 80, o pop dessa década faz parte da minha infância. Além disso, os meus pais ouviam música clássica em casa (Beethoven, Brahms, Mozart, etc), assim como pop/rock da geração deles (Beatles, Jethro Tull, The Who, Manassas, Bob Dylan, Neil Young, Led Zeppelin, etc). Tudo isto faz parte do meu subconsciente e, naturalmente, me move. Em teenager ouvi muitas coisas diferente mas o grunge foi, sem dúvida, uma fase séria. O jazz apareceu mais tarde, quando comecei a ir ver concertos ao Hot Clube, ouvir e trocar discos com amigos e a querer tocar contrabaixo. Por isso, o jazz move-me e foi uma escolha clara porque senti uma atracção por esta música. Pelo facto de haver um cuidado grande com o ritmo, por haver espontaneidade e improvisação. Hoje em dia, o jazz divide-se em muitas vertentes mas, obviamente, gosto dos grandes clássicos (Charlie Parker, Sonny Rollins, Miles Davis, John Coltrane, Ornette Coleman, etc), assim como de muitos músicos posteriores e contemporâneos. Mais tarde no meu percurso, comecei a ter um especial interesse pela música erudita do século XX e contemporânea, que muitas vezes me intriga, faz com que oiça inúmeras vezes para conseguir compreender o que se passa, mas ao mesmo tempo faz mexer o corpo de forma diferente.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

É óbvio que tenho o meu top 10 (ou talvez mais 100), os meus preferidos e heróis de todos os tempos: Messiaen, Brahms, Stravinsky, Schoenberg, Shostakovich, Miles Davis, Sonny Rollins, Charlie Parker, Thelonious Monk, Charlie Haden, Coltrane, Ornette Coleman, Paul Motian, Ray Brown, Oscar Pettiford, Keith Jarrett, Ron Carter, Sam Jones, P.C., Larry Grenadier, Matt Brewer, Ben Street, Thomas Morgan, Tyshawn Sorey, Ben Monder, Tool, Rage Against the Machine, Pearl Jam, Nirvana, Jethro Tull, Beatles, Milton Nascimento, Jobim, Vinicius, Gilberto Gil, entre muitos muitos outros.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sim, talvez seja possível. A música tem um poder enorme, muitas vezes mesmo ao nível do nosso subconsciente. Muito facilmente associamos determinadas músicas a momentos da nossa vida e ao revisitar essas músicas acabamos por mais facilmente reviver esses momentos. Se calhar, para realmente ouvirmos com profundidade determinada música, precisamos mesmo de parar para dar total atenção. E o facto de termos de parar para ouvir com atenção, faz com que registemos a música de outra forma.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sem dúvida, muitas vezes. Na verdade, este novo disco começou assim. Parti de um quadro muito famoso de Hieronymus Bosch – “The Garden of Earthly Delights” – para o qual escrevi uma obra longa em formato de suite em que cada movimento se inspira numa determinada cena, ambiente, conceito do quadro. Para mim, foi um processo um pouco diferente do habitual e isso é bom. Acabei por ter de arranjar outras formas de conectar, de idealizar determinado momento da suite, baseado numa fonte visual.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Boa questão. Acho que seria diversificada, com contraste de cores, formas e texturas. Gosto e valorizo isso na música. Acho que a minha música acaba por ter vertentes contrastantes e isso é uma decisão consciente de minha parte. Por exemplo, neste novo disco quis escrever uma obra mais longa, e neste caso é mesmo essencial haver momentos contrastes, para que esta capte sempre a atenção do ouvinte e seja sempre interessante e fresca. Por isso, tentei explorar coisas muito diferentes como tocar a tempo Vs rubato, composição Vs improvisação, muita música escrita Vs praticamente nada escrito, ritmos diferentes, compassos diferentes, harmonia densa Vs harmonia mais simples, instrumentação diferente, etc. Da mesma forma que acho que a minha música tem essas características, acho que se a desenhasse ou pintasse, o resultado teria também estas características.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce …

Acho que é um pouco semelhante à questão de como a pintaria. Adoro cozinhar e (especialmente) comer. Não sendo um expert em culinária, sei que qualquer prato para ser fantástico e passar do bom ao excelente, tem de ter um bom equilíbrio de sabores (amargo, doce, salgado, etc), assim como de texturas.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Cresci junto ao mar. Apesar de nem sempre conseguir sentir o seu cheiro (porque está tão entranhado na minha memória), quando o sinto dá-me uma sensação de calma, paz e contemplação, mas ao mesmo tempo de frescura. Por isso, essa música teria de ter estas características. Não seria fácil escrever esta música!

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sem dúvida! Aliás, quando éramos mais pequenos, aprendemos imensas coisas através de músicas e de letras de músicas. Ao cantarmos, acabamos por registar imensas coisas. Temos o caso do abecedário, números, cores, etc. que muitas vezes aprendemos através de canções. Além disso, acho que a música tem o poder fantástico de nos transportar e associar sensações a momentos da nossa vida. Não é por acaso que, esta ou aquela música nos faz lembrar do nosso avô, do sítio onde crescemos, de uma pessoa amiga ou de momentos menos bons e tristes, etc. Por exemplo, sempre que oiço o segundo andamento da 7ª sinfonia de Beethoven, sou imediatamente transportado para a antiga casa dos meus pais onde de repente estou na sala a ouvir este andamento com ele. Ou por exemplo, ouvir determinada parte da Flauta Mágica de Mozart e ser transportado para um momento da minha infância em que estou com a minha mãe e ela está a cantarolar e dançar!

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Fotografia de Clara Pereira

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