Há algumas semanas, fomos surpreendidos com a notícia de que o músico Sírio Omar Souleyman havia sido preso pela polícia turca. Rapidamente as redes sociais de fãs solidários se encheram de publicações pela sua libertação, o que acabou por acontecer mais tarde, dado as fracas fundações da acusação. A única vez que assisti a um concerto do músico foi em 2019, na última edição do Festival Músicas do Mundo, em Sines. Infelizmente, não tive a oportunidade de ouvi-lo ao vivo declarar o seu apoio à luta pela emancipação do povo curdo, posição que sabemos que várias vezes manifesta, alertando para a causa. Acredito que é necessário aproveitarmos todas as oportunidades para falar sobre este assunto e, por isso, aventuro-me a deixar algumas reflexões sobre o tema que acompanho há vários anos.

Os conflitos armados são sempre um tema sensível e o debate público é, como na maior parte dos assuntos, esvaziado de reflexão crítica e as informações são apresentadas como “factos objetivos” mesmo depois de disciplinas em ciências sociais como o pós-colonialismo terem superado a perspetiva imparcial do investigador, uma vez que os artigos e notícias que lemos partem sempre de determinados pressupostos abstratos (por exemplo, o da superioridade moral do ocidente). Os militantes de esquerda são sempre confrontados com a questão “é a favor da violência?", mas nunca vemos a mesma pergunta a ser feita a polícias ou militares. Resumindo, normalizamos que os estados detenham o monopólio da violência e invisibilizamos a sua importância histórica e atual na autodefesa e emancipação dos povos. Desde a vitória Estadunidense na guerra fria e o esfriar de uma parte importante do seu movimento de direitos civis entre os 70’s e 90’s, que demos cartão verde ao seu imperialismo, reforçando os estereótipos contra povos não-ocidentais, nomeadamente na geografia do “Médio Oriente”. O compactuar da Europa face às intervenções americanas nestes territórios têm permitido a consolidação de uma narrativa securitária que eleva os E.U.A. a potência de defesa mundial por excelência, especialmente no pós “11 de Setembro”.

Acredito que a maior parte de vocês já tenha ouvido falar da revolução em curso no Curdistão, qual o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), seu afiliado sírio Partido da União Democrática (PYD) e os escritos do seu líder Abdullah Ocalan sobre confederalismo democrático têm tido um papel fundamental. O confederalismo democrático tem sido aplicado nos territórios livres que se revêem na tradição libertária do socialismo, um sistema que se pretende livre de dominação e exploração; A ciência das mulheres, em curdo, Jîneology, têm colocado em prática uma série de princípios pela libertação das mulheres, que vão desde espaços não mistos (como uma guerrilha, um partido, ou uma aldeia só de mulheres…) a estruturas jurídicas dedicadas aos crimes patriarcais (como violência doméstica) com as quais acredito que os nossos movimentos feministas têm muito a aprender e sobre o qual escrevi em pormenor neste artigo científico; Pessoas provenientes de várias etnias e religiões têm encontrado um lugar onde podem participar de igual para igual na vida pública, co-gerindo a comunidade em harmonia independentemente da cultura ou religião que praticam; Finalmente, as milícias curdas têm tido um papel imprescindível na defesa das populações locais nos confrontos com o daesh/ISIS e outras facções jihadistas no norte da Síria, uma realidade anunciada por vários media e retratada no filme As filhas do Sol (2018) de Eva Husson. A Turquia nunca reconheceu o direito à autodeterminação do povo curdo, parecendo dar continuidade à perseguição histórica sofrida pelos Curdos durante séculos no Oriente Médio, que na história recente da sua república, proibia todas as práticas associadas à cultura Curda (como a língua, vestes, costumes) e que os impede de, legalmente, auto-gerirem um território. Hoje em dia, a repressão turca transparece pelos ataques cometidos contra as comunidades no Sul da Turquia e Norte da Síria, mas também pelo mundo, sendo o mais famoso, aquele que matou a tiro três mulheres militantes do PKK em Paris em 2013, e cujo agente, alegadamente dos serviços secretos, morreu em condições ambíguas antes de poder ser interrogado. Também é acusada em reportagens internacionais, estados e por grupos locais, de apoiar acordos, que incluem grupos jihadistas filiados à FSA e TFSA… Isto tudo com a conivência da União Europeia e dos Estados Unidos que continuam a considerar o PKK como grupo terrorista a pedido da Turquia, apesar de o apoiarem e a seus aliados circunstancialmente na luta contra o daesh. O projeto genocida contra o Povo Curdo nunca foi reconhecido e notas de solidariedade ou menções ao PKK são severamente punidas inclusive em países Europeus como a Alemanha, com fortes laços diplomáticos com o Estado Turco.

Omar Souleyman foi libertado, mas os presos políticos curdos, bem como militantes e ativistas solidários, continuam encarcerados em várias partes do mundo. O próprio líder Abdullah Ocalan foi detido e encarcerado em 1999, sendo-lhe imposto o isolamento solitário como único preso na ilha de İmralı até 2012 e cuja solidariedade é sentida em todo o mundo, nomeadamente na marcha anual pela sua libertação. Acredito que, como pessoas transformantes e engajadas por uma sociedade mais livre e igualitária, devemos incluir a causa curda nos nossos espaços, associações e coletivos, na perspetiva de aprendermos e nos solidarizarmos.

-Sobre a Raquel Pedro-

Raquel nasceu e cresceu numa aldeia em Sintra, onde firmou a sua relação com a natureza e os animais. Tocou percussão numa banda filarmónica e passou por inúmeras atividades extra-curriculares. Aos 15 anos começou a estudar artes na Escola Artística António Arroio, onde se especializou em Realização Plástica do Espetáculo e aos 21 concluiu a Licenciatura em Estudos Comparatistas - Arte e Literatura Comparada, oferecida pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Atualmente desenvolve trabalhos de ilustração e aprofunda a investigação e escrita de artigos nas áreas da literatura e arte, a partir de uma perspetiva feminista e pós-colonial.

Texto de Raquel Pedro
Ilustração de Raquel Pedro
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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