Hoje em dia estabelecido como um espaço mítico na cidade do Porto, integrado não só na dinâmica cultural desta mesma cidade, mas também naquele que é o circuito de casas com música ao vivo a nível nacional, o Maus Hábitos inclui na sua actividade um espectro alargado de áreas artísticas e comerciais, tendo já um longo caminho percorrido desde que abriu portas ao público no ano de 2001.

 

Recuando até aos seus primórdios, foi em meados da década de 90 que Daniel Pires, fotógrafo de profissão há mais de 20 anos, descobriu o 4º andar do número 178 da Rua Passos Manuel, no Porto. Esse mesmo espaço começou por ser dedicado de forma quase exclusiva à actividade comercial de Daniel enquanto fotógrafo, nomeadamente à realização de catálogos de moda, proporcionando também condições para que pudesse desenvolver o seu trabalho artístico: “A fotografia, das diferentes áreas artísticas, é capaz de ser aquela em que a relação entre o trabalho comercial que sustenta o trabalho artístico está mais presente” explica Daniel, actual Director geral do Maus Hábitos.

 

A grande dimensão do estúdio, e a própria vontade sentida por Daniel de dar espaço a mais artistas, levaram a que o projecto fosse aumentando. O espaço foi dessa forma recebendo diferentes pessoas ligadas em geral às artes, e foi gradualmente assumindo a sua vocação cultural até abrir as portas ao público oficialmente, pelo que desde a sua génese até aos dias de hoje, o seu modelo de funcionamento assenta precisamente no equilíbrio entre as suas veias artística e comercial, algo que se pode constatar precisamente ao entrar num espaço onde no lado esquerdo encontramos o espaço dedicado às artes visuais, e no direito, para além da sala de concertos, o bar e o restaurante.

 

Nesse sentido, falar no Maus Hábitos, é também falar na Associação Saco Azul, criada pouco tempo depois, numa altura em que as empresas não se podiam candidatar aos diferentes apoios da Direcção Geral das Artes, e a outro tipo de fundos e parcerias internacionais. “Se os Maus Hábitos é o braço comercial, a saco Azul é o braço cultural”, explica Daniel, demonstrando que ambas vivem em sintonia: “Resumidamente, o Maus Hábitos cede o espaço para que a Saco Azul leve a cabo as suas actividades, dentro das nossas portas”, associação essa que permite a quem a integra estar perto das decisões e estratégias lançadas, pelo que reúne nos dias de hoje advogados, arquitectos, engenheiros, artistas, entre muitos outros que se identificam com a sua causa e missão.

 

No caso específico da música, se nos primeiros anos a aposta começou por ser mais pontual, em parte devido às limitações daquilo que se podia oferecer (os concertos eram realizados numa sala mais pequena, os equipamentos eram mais reduzidos, entre outros constrangimentos), após a revitalização da sala maior do espaço e consequente aposta numa programação mais contínua, a música começou a ganhar um papel de maior destaque. “Hoje em dia a parte mais significativa da nossa programação está ligada à música”, assume o director. Feitas as contas, no total das suas quase duas décadas de actividade, foram mais de 7 mil concertos realizados, numa média de 11 concertos por mês, acontecendo com alguma frequência a realização de vários concertos num mesmo dia, por vezes seguindo um formato no qual a abertura cabe a uma banda local mais desconhecida, seguida de outra com uma expressão um pouco maior, e encabeçado por um cabeça de cartaz.

 

E se essa aposta não se pode considerar que tenha uma motivação puramente financeira (até porque os concertos são sempre eventos difíceis de rentabilizar por si só), Daniel é o primeiro a reconhecer que os concertos geram um tráfego essencial para sustentar o bar e restaurante. Segundo o director, o caminho feito até agora levou a que fosse criado um hábito para o consumo da música naquele espaço, e a actualidade demonstra isso: “Hoje em dia conseguimos encher uma sala com 250 pessoas num concerto à terça feira”, exemplifica. Assumindo que esse mesmo público muda consoante o concerto anunciado, Daniel defende o modelo actual como forma de atrair diferentes tipos de público, marcados inclusive por uma questão geracional: “O objectivo passa por ter connosco uma geração para os próximos dez anos, queremos trazer para cá os diferentes líderes de opinião dessa geração, de forma a trabalharem connosco, a participarem nas nossas actividades, conseguindo com isso atrair outras pessoas”, explica.

Para tal sucesso e crescimento de afluência, não se pode ignorar, segundo o director, o contexto de uma cidade do Porto que nos últimos anos cresceu bastante a nível do número de habitantes e da dinâmica cultural que oferece a quem por lá passa. Não deixando de reconhecer a fatia significativa de público estrangeiro presente, Daniel explica também que nos dias de hoje falar em público estrangeiro no Porto não é necessariamente falar no público volátil do turismo, referindo mesmo que “muitos dos estrangeiros da cidade hoje em dia são locais, e são consumidores ávidos de cultura”.

 

Também indissociável da dinâmica criada em termos de música ao vivo, será também o que considera Daniel ser um estado de graça da música feita em Portugal nos dias de hoje. É nesse sentido que nos explica também de que forma está a tentar contribuir para a dinamização dessa mesma indústria: “Estamos a trabalhar, juntamente com outras casas, para criar aquela que será a primeira associação de casas de música ao vivo em Portugal, de forma a ajudar os espaços que estão dispersos ao longo do país a se agruparem, organizarem e alavancarem, de forma a estarem mais integrados em termos de licenças, fiscalidade, funcionamento”. Para Daniel, o papel dessa associação será também determinante na procura de mais apoios financeiros, de forma a ajudar as diferentes entidades, com vista também a que lhes permita estarem mais preparadas para as redes que se querem abrir para o exterior.

 

Em complemento a esta informação, o director dá também o exemplo de outras iniciativas de apoio à performance e criação em várias áreas, entre as quais a música. Fruto das suas características logísticas, que lhe permitem alojar os músicos e artistas que por lá passam (um aspecto bastante facilitador da sua actividade, confessa), existem também condições no Maus Hábitos para a realização de residências artísticas para criação e gravação por parte de diferentes bandas e artistas. O director destaca também a iniciativa Supernova, encomendada pela Super Bock, na qual durante 3 meses, a associação leva 3 bandas a 6 casas diferentes em Portugal (fora das cidades de Porto e Lisboa). “Para nós, que estamos habituados a receber as bandas, é um desafio enorme estarmos a entrar em camionetas, transportar material, montar palcos em vários sítios diferentes” explica, ao mesmo tempo confessando que a experiência de conviver mais de perto com as bandas e artistas é, de certa forma, gratificante.

 

Fruto da sua matriz original, e também da relação de simbiose com a associação Saco Azul já referida, é natural observar-se na programação do Maus Hábitos uma marca de intervenção cultural e de experimentação na sua programação. “Entre as pessoas que colaboram connosco, reunimos gente de muitas áreas distintas, e, consequentemente, acaba por haver espaço para alguma espontaneidade, para coisas que não estejam na agenda”, explica o director. Assumindo que a necessidade de provocar está presente no papel e missão assumidos, defende Daniel que esse desconforto provocado é algo necessário de acontecer, caso se pretenda evitar que tudo se resuma a entretenimento. “É nesse desconforto que as pessoas se questionam, e é importante que isso aconteça num espaço como estes”, conclui. Deste modo, enquanto um “espaço que não se quer definido”, o Maus Hábitos assume-se (no manifesto que é possível encontrar no seu website) como “um produtor cultural, com uma consciência artística de intervenção, produzindo e apresentando programas artísticos que atuam sobre a condição contemporânea da cultura.”

Texto de João Espadinha
Fotografias da cortesia do Maus Hábitos

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